-->
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta mesopotâmico. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta mesopotâmico. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

11 de outubro de 2026

Ninrode: O Homem, o Mito e a Memória de Babel - Parte 1


Relevo em bronze com símbolos da Mesopotâmia antiga, incluindo um zigurate central, escrita cuneiforme e figuras mitológicas.


Introdução

Ninrode é um dos personagens mais enigmáticos do livro de Gênesis. Em poucos versículos, ele aparece como descendente de Cuxe, poderoso na terra, famoso como caçador e associado a Babel, Ereque, Acade, Sinear e Assíria.

Apesar da brevidade do relato bíblico, sua figura cresceu enormemente na tradição posterior. Ninrode passou a ser visto como rebelde contra Deus, tirano, construtor da Torre de Babel e perseguidor de Abraão. Mas quanto dessas imagens pertence realmente ao texto de Gênesis? E quais elementos foram acrescentados pela memória e pela interpretação das gerações posteriores?

Para responder a essas perguntas, precisamos separar cuidadosamente Escritura, evidência histórica, hipóteses acadêmicas e tradição. Começaremos pelo Ninrode apresentado em Gênesis e pelo mundo mesopotâmico ao qual o texto o associa. Depois, acompanharemos a transformação desse personagem nas tradições que surgiram ao longo dos séculos.


Parte 1 – Ninrode e o Mundo Mesopotâmico

Ato I: O Homem que Surge Depois do Dilúvio


Poucos personagens do Gênesis receberam uma tradição posterior tão extensa quanto Ninrode, embora o texto bíblico dedique a ele apenas alguns versículos. Gênesis 10:8–12 apresenta Ninrode como descendente de Cuxe e como o primeiro a tornar-se poderoso na terra. Ele é descrito como “poderoso caçador diante do SENHOR”, e seu reino é associado inicialmente a Babel, Ereque e Acade, na terra de Sinear, antes de o relato avançar para a Assíria. O próprio texto, portanto, coloca Ninrode dentro de uma geografia inequivocamente mesopotâmica. O problema histórico começa justamente quando tentamos descobrir quem, ou o quê, está por trás dessa figura. (Gn 10:8–12; van der Toorn & van der Horst 1990, pp. 1–29).

O primeiro cuidado metodológico é fundamental: Gênesis não diz que Ninrode construiu a Torre de Babel. Gênesis 10 apresenta Ninrode e seu reino; Gênesis 11:1–9 apresenta a construção da cidade e da torre por uma humanidade que possuía uma única língua. Os capítulos foram posteriormente relacionados pela tradição, mas não existe no texto hebraico uma afirmação de que Ninrode tenha comandado os construtores. Essa distinção é indispensável para não transformar uma interpretação posterior em informação bíblica explícita.

Karel van der Toorn e Pieter W. van der Horst partiram exatamente desse problema em seu estudo “Nimrod Before and After the Bible”, publicado em 1990 na Harvard Theological Review. Os autores observam que a informação bíblica sobre Ninrode é escassa, enquanto a tradição pós-bíblica acrescentou detalhes que não podem ser encontrados no texto bíblico, embora posteriormente tenham sido apresentados como resultados da própria exegese. O estudo, por isso, divide-se em duas tarefas: investigar um possível protótipo extrabíblico para Ninrode e acompanhar o desenvolvimento da tradição posterior.


Ato II: Sinear e o Mapa de Ninrode


A geografia de Gênesis 10 é uma das evidências mais importantes. Babel corresponde à Babilônia; Ereque corresponde à antiga Uruk; e Acade pertence ao universo histórico do antigo império acádio. As três cidades estavam no sul da Mesopotâmia, região que os textos cuneiformes conhecem como a terra de Sumer e Acade. Gênesis, portanto, não coloca Ninrode em uma geografia indefinida: ele o posiciona no coração da civilização urbana mesopotâmica. (Gn 10:10; van der Toorn & van der Horst 1990, pp. 1–3).

Isso também permite corrigir uma possível confusão: Sinear não é Sippar. Sinear é uma designação territorial empregada em Gênesis para o sul da Mesopotâmia, posteriormente identificada com o território babilônico. Sippar, ao contrário, é uma cidade mesopotâmica específica. O próprio estudo de van der Toorn mostra que, apesar das discussões sobre a origem linguística do nome “Sinear”, não há dúvida quanto à sua referência geográfica em Gênesis 10:10: o sul da Mesopotâmia.

A origem etimológica de “Sinear” permanece problemática. Van der Toorn examina a antiga tentativa de relacioná-la diretamente a “Sumer”, mas observa dificuldades filológicas importantes e conclui que a questão deve permanecer aberta. Isso é um bom exemplo de como a pesquisa acadêmica precisa distinguir uma localização segura de uma etimologia ainda discutida. Podemos afirmar onde Sinear está sendo empregado no texto sem afirmar que sabemos definitivamente de onde veio o nome.

Depois, Gênesis 10:11 desloca a narrativa para o norte, em direção à Assíria. Nínive e Calá são cidades assírias bem conhecidas; Reobote-Ir e Resém, porém, permanecem de identificação incerta. A sequência sul–norte é importante porque acompanha uma grande mudança histórica do mundo mesopotâmico: o centro político que inicialmente estava concentrado no sul passou posteriormente a ter a Assíria como uma das grandes potências do norte.


Ato III: "Poderoso Caçador Diante do Senhor"


Gênesis 10:8–9 chama Ninrode de gibbor, poderoso ou herói, e depois utiliza a expressão “poderoso caçador diante do SENHOR”. O texto não diz que ele era gigante, demônio ou rebelde. Também não afirma que sua força derivava de uma origem sobrenatural. A descrição original é muito mais curta: Ninrode é um personagem poderoso, célebre como caçador e associado a um reino mesopotâmico. (Gn 10:8–9).

A interpretação negativa de “diante do SENHOR” aparece com força nas tradições posteriores. O Targum Pseudo-Jônatas, por exemplo, traduz Gênesis 10:8 apresentando Ninrode como alguém que começou a tornar-se “poderoso em pecado” e a “rebelar-se diante do Senhor”; no versículo seguinte, chama-o explicitamente de “poderoso rebelde”. Assim, a tradição targúmica transforma uma formulação ambígua em uma caracterização moral inequívoca.

Van der Toorn observa que essa interpretação não nasceu simplesmente do hebraico. A tradição posterior explorou a possibilidade de entender liphnê YHWH  (לִפְנֵי יהוה), “diante do SENHOR”, no sentido de “contra o SENHOR”. Essa interpretação aparece posteriormente em autores cristãos como Agostinho e torna-se parte importante da imagem de Ninrode como arquétipo do rebelde. Portanto, “Ninrode, o rebelde” é uma interpretação tradicional; não é uma tradução obrigatória de Gênesis 10:9.


Ato IV: Ninrode e Ninurta


É aqui que o estudo de 1990 se torna especialmente importante. Van der Toorn investiga se existe uma figura mesopotâmica que possa explicar a combinação de características encontrada em Gênesis. A hipótese que emerge com maior força é Ninurta, divindade mesopotâmica associada à guerra, ao heroísmo, à caça, à derrota de monstros, à realeza e, em determinados textos, à organização da própria civilização.

A comparação não depende simplesmente da semelhança entre os nomes “Ninrode” e “Ninurta”. A evidência funcional é muito mais importante. Na tradição mesopotâmica, Ninurta é um herói guerreiro que enfrenta criaturas monstruosas e inimigos divinos; os textos também o apresentam como patrono dos caçadores. Reis neoassírios invocavam Ninurta em conexão com suas próprias façanhas de caça. É precisamente essa combinação entre heroísmo, caça e poder que torna o paralelo com Gênesis 10 significativo.

O material mesopotâmico vai além. No poema LUGAL-E (em inglês), Ninurta derrota Azag e outros adversários; em tradições relacionadas ao mito de Anzu, derrota o grande pássaro monstruoso. A literatura mesopotâmica também apresenta Ninurta como aquele que, depois de suas vitórias, contribui para a organização da agricultura e da ordem civilizada. Ele é, portanto, simultaneamente guerreiro, caçador, vencedor de monstros e figura ligada à civilização.

Van der Toorn observa ainda uma correspondência geográfica e histórica. O culto de Ninurta ganhou importância no sul da Mesopotâmia e posteriormente se tornou especialmente associado à Assíria. Calá, uma das cidades mencionadas em Gênesis 10:11, era um importante centro assírio do culto de Ninurta. O estudo interpreta a sequência geográfica de Gênesis como possivelmente refletindo a própria expansão histórica do culto: do sul mesopotâmico para a Assíria.

Entretanto, há uma dificuldade que precisa ser preservada: a filologia do nome não está resolvida. Van der Toorn reconhece que as formas mesopotâmicas conhecidas de Ninurta não fornecem uma derivação direta e demonstrada para o hebraico Nimrōd. Ele considera possíveis reconstruções, mas admite que são especulativas. Portanto, a força da hipótese está no conjunto de correspondências, e não em uma simples equivalência linguística dos nomes.

Ainda assim, a conclusão de van der Toorn é mais forte do que uma mera possibilidade. Ele afirma que, apesar das dificuldades filológicas, a avaliação das evidências disponíveis favorece fortemente a conclusão de que o Ninrode bíblico foi modelado a partir do deus mesopotâmico Ninurta. Essa é a posição que deve ser atribuída corretamente ao autor — sem transformá-la, contudo, em consenso arqueológico.


Ato V: Sargão e Naram-Sin


A pesquisa posterior não encerrou a questão. Em 2002, Yigal Levin publicou “Nimrod the Mighty, King of Kish, King of Sumer and Akkad”, propondo uma reconstrução diferente. Levin analisa a sintaxe, o texto e sobretudo a geografia de Gênesis 10:8–12 e conclui que a figura bíblica pode ter sido formada a partir da combinação das tradições sobre Sargão de Acade e seu neto Naram-Sin.

A proposta de Levin é metodologicamente diferente da de van der Toorn. Em vez de concentrar a explicação em uma divindade mesopotâmica específica, ele procura explicar como tradições históricas sobre grandes reis do passado poderiam ter sido combinadas em uma única figura literária. Sargão está ligado a Kish, Acade e à expansão imperial; Naram-Sin pertence à geração seguinte da memória do império acádio. Ninrode, nessa hipótese, seria uma figura composta pela memória de diferentes personagens imperiais.

Isso não significa que Levin tenha encontrado uma inscrição dizendo que Ninrode era Sargão ou Naram-Sin. Sua proposta é uma reconstrução da formação literária e histórica da tradição. Por isso, ela deve ser apresentada como hipótese acadêmica, não como identificação arqueológica. Temos, portanto, duas linhas explicativas importantes: van der Toorn enfatiza Ninurta; Levin enfatiza Sargão e Naram-Sin. Elas não devem ser artificialmente fundidas como se fossem uma única teoria.


Ato VI: A Memória de Sargão no Império Assírio


Em 2022, Christopher W. Jones apresentou uma proposta ainda mais específica. Em seu artigo publicado no Journal of Biblical Literature, ele argumenta que Gênesis 10:8–12 pode ser compreendido à luz da memória literário-histórica de Sargão de Acade que circulava no Império Neoassírio. Jones ressalta que continua inexistindo consenso sobre a identificação de Ninrode com qualquer personagem histórico ou mitológico específico.

Jones propõe que a passagem tenha recebido sua forma em meados do século VII a.C., em um contexto no qual estudiosos da corte assíria utilizavam presságios, crônicas, épicos e listas geográficas para apresentar o Império Neoassírio como herdeiro do antigo império de Sargão. Em sua reconstrução, esse processo culminou simbolicamente na refundação de Acade por Esar-Hadom em 674 a.C.

A proposta muda a pergunta. Em vez de perguntar apenas “qual rei histórico foi Ninrode?”, Jones pergunta qual memória imperial está sendo mobilizada pela passagem. Para ele, a perícope pode funcionar como uma resposta crítica à ideologia imperial assíria. Ninrode, neste dossiê, não precisa ser uma cópia de Sargão; pode ser uma construção literária que dialoga com a memória de Sargão dentro do mundo neoassírio.

Essa hipótese é importante, mas seu estatuto precisa permanecer claro. A datação em meados do século VII a.C. e a interpretação da passagem como crítica à ideologia imperial são argumentos de Jones, não fatos estabelecidos por consenso acadêmico. O próprio artigo começa reconhecendo o caráter enigmático da figura e a ausência de consenso.


Ato VII: Babel e a Ausência de Ninrode


Gênesis 11:1–9 descreve uma humanidade unificada pela língua e concentrada na terra de Sinear. Os habitantes decidem construir uma cidade e uma torre cujo topo chegaria aos céus, dizendo: “tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (Gn 11:4). Ninrode não aparece nominalmente nessa narrativa.

Isso não impede uma relação temática entre os capítulos. Gênesis 10 acabou de mencionar Ninrode, Babel e Sinear; Gênesis 11 retorna a Sinear e desenvolve a narrativa da cidade e da torre. A proximidade literária favoreceu a associação posterior, mas proximidade não é identidade. O texto permite comparação; não autoriza inserir o nome de Ninrode em Gênesis 11.

A literatura judaica posterior foi justamente nessa direção. Ao longo dos séculos, diferentes tradições passaram a combinar os dois episódios, transformando Ninrode no líder da construção da torre. O desenvolvimento dessa tradição é historicamente interessante porque mostra como um personagem enigmático de Gênesis foi progressivamente convertido em protagonista de uma narrativa muito maior.

*** Até aqui, investigamos o Ninrode de Gênesis e suas possíveis relações com o mundo mesopotâmico, incluindo as hipóteses que o aproximam de Ninurta, Sargão e Naram-Sin.

Mas essa é apenas a primeira camada da história.

A partir do Ato VIII, a investigação muda de foco. A segunda parte acompanhará como a tradição judaica posterior ampliou a figura de Ninrode e o associou cada vez mais a Babel, à rebelião contra Deus e ao confronto com Abraão.

A história continua no Ato VIII, onde o personagem de Gênesis começa a se transformar no Ninrode da tradição.


▶ Esta análise continua na página seguinte. Conecte os fatos, conclua este raciocínio e avance para o desfecho final: [Acesse a Parte 2 Final Clicando no Link].



2 de setembro de 2025

Pequena Síntese de Visão Geral do Período do Segundo Templo

 

O Segundo Templo em Jerusalém
Segundo Templo


Período Intertestamental

Enoque imprimiu uma importante influência sobre o pensamento dos escritores do Novo Testamento com a história do pecado dos Vigilantes (1 Enoque 6-16). A maioria dos estudiosos acredita que (1 Enoque) foi originalmente escrito em aramaico, talvez já no terceiro século a.C.

Os fragmentos mais antigos do livro foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto e datados aproximadamente no segundo século a.C. Isso coloca o livro diretamente no meio do que os estudiosos chamam de “Período do Segundo Templo” (cerca de 500 a.C. - 70 d.C.), uma era mais comumente referida como o "Período Intertestamental".  

O termo "Vigilantes" é bíblico. Os Vigilantes aparecem apenas no livro de Daniel (Daniel 4:13, 17, 23), onde eles também são chamados de “Santos”. Em Daniel, eles são, portanto, “bons” - membros do séquito de Deus. O termo ocorre mais frequentemente fora da Bíblia na literatura judaica composta entre os períodos do Antigo e do Novo Testamento. 

A história dos Vigilantes de (1 Enoque) é uma expansão do episódio descrito em (Gênesis 6:1-4), no qual “os filhos de Deus (hebreu: beney ha-ʾelohim) vieram às filhas do homem” (Gênesis 6:4). Consequentemente, “Vigilantes” é o termo Enoquiano (entre outros) para os divinos “filhos de Deus”. Embora a história dessa rebelião sobrenatural ocupe pouco espaço em Gênesis, ela recebeu considerável atenção durante o Período do Segundo Templo, e essa atenção não é periférica à teologia bíblica. 

Primeiro, e mais importante, é a questão da canonicidade. Escritores cristãos primitivos importantes como Tertuliano, Irineu, Orígenes e Clemente, defendiam (1 Enoque) como digno de receberem o status canônico ou o consideravam autoritário em certas questões de verdade e doutrina. O livro foi plenamente reconhecido como canônico apenas pela igreja etíope. 

(1 Enoque) é parte de um agrupamento de trabalhos antigos conhecidos pelos estudiosos como “pseudepigrafia”. O termo não significa “falsos escritos” no sentido de que o conteúdo desses livros deve ser considerado totalmente falso. Em vez disso, o termo se refere à prática de produzir obras escritas e depois atribuir sua autoria a alguém (real ou imaginado) diferente do autor real. Esta prática era comum no mundo antigo e deve ser distinguida das falsificações literárias.

(Gênesis 6:1-4) e a história dos Vigilantes têm raízes profundas na literatura mesopotâmica. Este é um fato com o qual estudiosos de (1 Enoque) estão bem familiarizados, mas que a maioria dos estudantes leigos e leitores da Bíblia não estão. Mais especificamente, a história dos filhos de Deus e dos Nefilins em (Gênesis 6:1-4) é emoldurada pela história da Mesopotâmia dos sete sábios divinos pré-diluvianos: os Apkallus.


Relevo rochoso com a imagem de um Apkallu


O material mesopotâmico tem paralelos explícitos e inconfundíveis, ponto a ponto, com (Gênesis 6:1-4). Esses paralelos mostram que a passagem de Gênesis foi escrita como uma polêmica teológica - uma refutação de interpretação religiosa mesopotâmica de eventos pré e pós- dilúvio. Entender a estreita relação entre a saga dos Apkallus e (Gênesis 6:1-4) é crucial para entender a história dos Vigilantes de (1 Enoque)  por várias razões. Como por exemplo, Pedro e Judas adotaram uma visão sobrenatural de (Gênesis 6:1-4). Duas passagens são especialmente relevantes: (2 Pedro 2:1-10 e Judas 5-7).



Pessoas observando ser alado em monumento antigo

Nefilins (São os Filhos Terrestres dos Vigilantes)

Os pensadores judeus no Período do Segundo Templo compreendiam o contexto original da Mesopotâmia, e é por isso que eles viam de forma esmagadora os Nefilins como os filhos divinos de Deus (os Vigilantes) como gigantes. Essa perspectiva inclui a tradução do termo hebraico como gigas (Gigante) na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento hebraico. 

Na verdade, também existe o entendimento de que Nefilim significa “Aqueles que Caíram”; mas não importa se "caídos" é a tradução, já que os Nefilins e os Anaquins / Refaim, que descendem dos Vigilantes (Números 13:33; Deuteronômio 2:20-21; 3:1-11) ainda são descritos como extraordinariamente altos.  

Há duas abordagens possíveis para a origem dos Nefilins em (Gênesis 6:1-4), que são consistentes com a compreensão sobrenatural dos filhos de Deus na cosmovisão israelita. A primeira e mais transparente é que os seres divinos vieram à Terra, assumiram a carne humana, coabitaram com as mulheres humanas e geraram descendentes incomuns conhecidos como Nefilim. 

Reparem que a ideia de seres divinos tendo filhos com mulheres humanas parece inconcebível, mas quando se trata de Deus tendo um Filho com uma mulher, no caso Jesus, filho de Maria, então o dilema desaparece; e é daí que muitos cristãos, por não entenderem as escrituras de forma profunda, não são capazes de associar uma coisa com a outra, e colocam suas crenças em primeiro lugar – e portanto, não respeitam o texto.  

Há uma segunda abordagem sobrenaturalista de (Gênesis 6:1-4) que considera a linguagem sexual eufemística e não literal. Nesta perspectiva, a linguagem da coabitação é usada para transmitir a ideia de que os seres divinos que são rivais de YHWH são responsáveis por produzirem os Nefilins, e, portanto, são responsáveis pelos últimos clãs de Gigantes. 

Essa abordagem usa o relacionamento de YHWH com Abraão e Sara como uma analogia. Embora não haja nenhuma sugestão de uma relação sexual entre YHWH encarnado e Sara para produzir Isaque, e, portanto, os israelitas, é verdade, no entanto, que os israelitas surgiram por meio de intervenção sobrenatural. Nesse sentido, YHWH gerou Israel.

Os meios utilizados por Deus para permitir que Abraão e Sara tivessem um filho, nunca foram descritos na Bíblia, mas as Escrituras são claras em relatar que a intervenção divina de algum tipo foi necessária. O silêncio da Bíblia sobre a natureza dessa intervenção sobrenatural abre espaço para a ideia de que outros deuses rivais produziram filhos para se oporem aos filhos de YHWH. Ambas as abordagens, portanto, presumem que os Nefilins e os subsequentes clãs de Gigantes tinham uma origem sobrenatural, mas discordam nos meios para tal.



Anjo com uma espada na mão


Vigilantes (São os Filhos Diretos de Deus)

Uma vez que muitos leitores nunca leram (1 Enoque), é aconselhável ter uma ideia do livro inteiro antes de aprofundar a história sobre o pecado dos Vigilantes. O termo “Vigilante” ou até mesmo “Observador” é bíblico, aparecendo em (Daniel 4:13, 17, 23). O termo é qualificado por "Santo" (Daniel 4:13, 23), e assim “Vigilante” não é um termo padrão para um ser divino maligno. Em (1 Enoque), o termo é um dos vários usados no lugar de “Filhos de Deus” em sua narrativa do episódio de (Gênesis 6:1-4). 

Os capítulos 6-16 contam a história dos Vigilantes, em que duas histórias parecem estar entrelaçadas. Em uma delas, o líder dos anjos caídos é chamado Asael (Azazel no texto etíope), e o pecado primário é a revelação imprópria aos humanos; na outra, o líder é Samyaza, e o principal pecado é o “casamento” com os seres humanos e respectiva procriação de Gigantes.

Os Vigilantes geram Gigantes na terra por sua união com mulheres humanas. Desses Gigantes vêm os espíritos malignos que levam a humanidade a se desviar (1 Enoque 15:11-12); esse motivo é mais elaborado nos Jubileus. No curto prazo, a crise dos Vigilantes é resolvida quando Deus envia o dilúvio para purificar a terra, embora tenham persistido fisicamente após o dilúvio, e como espíritos de demônios após a morte no dilúvio; e também morte pós-dilúvio por perseguição dos hebreus liderados por Deus. 

Enoque é apresentado no capítulo 12 como um escriba que os Vigilantes pedem para interceder por eles. Enoque ascende ao céu em uma nuvem e chega ao trono celestial no capítulo 14, em uma passagem que é importante para a história do misticismo judaico. Sua intercessão, no entanto, é rejeitada. Os Vigilantes abandonaram o céu pela atração da carne. Enoque representa a tendência oposta: ele é um ser humano que é levado ao céu para viver com os anjos. 

No capítulo 32, Enoque vê o Jardim do Éden e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, dos quais Adão e Eva comeram. Curiosamente, enquanto esta seção do Livro dos Vigilantes observa o pecado de Adão, considera-o de menor importância quando comparado ao pecado dos Vigilantes. 

O nascimento dos Gigantes é explorado em termos da mistura de “espíritos e carne” (15:8). Os anjos habitam corretamente no céu, e os humanos habitam adequadamente na terra (15:10), mas a natureza dos Gigantes é mista. Essa transgressão de categorias traz resultados terríveis: depois da morte física, os espíritos demoníacos dos Gigantes “saem de seus corpos” para atormentar a humanidade (15:9,11-12; 16:1).

De acordo com (1 Enoque 16), a transmissão angélica do conhecimento celeste aos humanos terrestres também pode ser entendida como uma contaminação de categorias distintas dentro da criação harmônica de Deus. Como habitantes do céu, os Vigilantes estavam cientes de todos os segredos do céu (nem todos). A revelação desse conhecimento para os habitantes da Terra era categoricamente imprópria e também oralmente destrutiva. 

Os Vigilantes, então, são seres claramente celestes (não humanos) cujas ações são consideradas não apenas moralmente más, mas espiritualmente destrutivas. Enquanto a rebelião humana surgiu pela primeira vez no Éden, são as ações dos Vigilantes que serviram como um catalisador para espalhar a maldade entre a humanidade como um contágio espiritual. Eles são responsáveis por ensinar aos humanos uma variedade de coisas que engendram luxúria, guerra, astrologia, práticas ocultas, etc.



Mapa da mesopotâmia com pessoas antigas ao redor

Mesopotâmia

Na religião mesopotâmica, o termo Apkallu (sumério: abgal) é usado para as criaturas lendárias dotadas de sabedoria extraordinária. Sete em número, eles são os heróis da cultura antes do Dilúvio. No mito dos "Vinte e um Cataplasmas" os "sete Apkallus de Eridu", que também são chamados de "sete Apkallus do Apsu", estão a serviço de Ea (Enki). Uma variedade de tradições de sabedoria do período antediluviano foi supostamente transmitida pelos Apkallus.

Os sete sábios foram criados no “rio” e serviram como “aqueles que asseguraram o funcionamento correto dos planos do céu e da terra”. Seguindo o exemplo de Ea (Enki), eles ensinaram sabedoria, formas sociais e habilidades à humanidade. A autoria dos textos que lidam com presságios, magia e outras categorias de "sabedoria", como a medicina, é atribuída aos sete Apkallus.

O "rio" é, na verdade, uma referência ao profundo primitivo do pensamento mesopotâmico. Esta morada aquosa estava localizada sob a Terra (daí, o submundo) e fazia parte (ou equivalia, dependendo do texto) ao Abismo (chamado de Apsu ou Abzu pelos mesopotâmicos) ou reino dos mortos. Isso significa que, para os mesopotâmicos, o Apkallu vinha do Abismo e era responsável por manter o equilíbrio correto entre o céu e a terra, que era a vontade dos deuses maiores. Como tal, pensava-se que o Apkallu possuía conhecimento do mundo divino. 

Com o tempo, os Apkallus tiveram relações com a humanidade. A literatura mesopotâmica apresenta-os como grandes sábios antediluvianos e heróis da cultura que trouxeram as artes da civilização para a Terra. Durante o tempo que se segue a esse período, nada de novo é inventado, e a evolução original só é transmitida e desdobrada.

Esse processo de civilização do mundo dos homens é visto positivamente no pensamento mesopotâmico, tanto é que as reivindicações tanto da ancestralidade física quanto da igualdade com as figuras antediluvianas eram importantes para os reis e eruditos mesopotâmicos. Esse era especialmente o caso do Apkallu, pois tais associações significavam que os humanos podiam reivindicar o acesso aos conhecimentos dos deuses do conselho divino mesopotâmico, uma ideia que teria sido usada para legitimar status, poder e influência. 

Os escribas da Babilônia, que viveram depois do Dilúvio, fizeram grandes esforços para estabelecerem a noção de que seu conhecimento - e, portanto, a grandeza da Babilônia e a grandeza de seu rei - eram herdados diretamente do reino divino. Mas como eles fizeram isso? 

Os escribas instruídos recebiam seus textos secretos da mesma maneira que todos os escribas recebiam seus textos de antes de seu próprio tempo: eles herdaram cópias de outros escribas. Mas como eles herdaram cópias dos deuses?  Pela associação de que Ea (Enki) ajudou os escribas na construção da “Corpora Secreta”, fornecendo um mecanismo de recepção.

Ea (Enki), de tempo muito antigo, foi associado com os sete sábios mitológicos chamados Apkallu, que viveram antes do dilúvio. Os escribas criaram uma mitologia na qual os membros de sua associação se tornaram a continuação profissional da posição do antigo Apkallu. 

Isso chega à raiz da noção de conhecimento dos escribas mesopotâmicos, que é o que une a adivinhação, a horoscopia e a astronomia na tradição cuneiforme instruída. E esse modo de identificar os elementos do conhecimento, isto é, conhecimento sistematizado, até certo ponto codificado, estava ligado aos deuses de quem se alega que tal conhecimento secreto foi derivado nos dias anteriores ao dilúvio. 

Para os mesopotâmicos, todo o repositório de conhecimento que se mostrava indispensável para a civilização - e, portanto, sua própria grandeza - foi modelado conforme a sabedoria dos Apkallus em sua totalidade. Isso tudo é um paralelo preciso com o conhecimento dos Vigilantes de (1 Enoque), que ensinaram à humanidade conhecimento proibido pelo qual se tornaram iníquos e depravados (1 Enoque 8:1-4; 10:7-8). 

Outros textos da Mesopotâmia realmente fornecem evidências para quatro Apkallus pós-inundação. Esses indivíduos são os principais intervenientes no entendimento do porquê (Gênesis 6:1-4) foi registrado nas Escrituras. Os quatro Apkallus pós-inundação são citados em uma tábua cuneiforme como “de descendência humana”.  Os quatro Apkallus pós-inundação são descritos como sendo apenas “dois terços Apkallu”. 

A implicação dessas fontes é que o Apkallu pós-inundação foi o resultado das relações sexuais com mulheres humanas. Há claramente uma relação com os Nefilins de (Gênesis 6:1-4): Humanos e Apkallus poderiam presumivelmente copular, já que temos uma descrição dos quatro Apkallus pós-enchente como “de descendência humana”; os quatro sendo apenas “dois terços Apkallu” em oposição ao Apkallu puro pré-inundação e subsequentes sábios humanos. 

Os Apkallus da Mesopotâmia foram demonizados enquanto “Filhos de Deus”, assim como seus filhos, os Nefilins (Gênesis 6:3-4), que na literatura Enoquiana posterior aparecem como Vigilantes e Gigantes: professores ilegítimos da humanidade antes do dilúvio. O (Livro dos Vigilantes 8:1) enumera o primeiro conjunto de artes proibidas à humanidade - uma lista que consiste principalmente de artesanato e tecnologias úteis. Essa revelação de segredos proibidos foi considerada uma transgressão, porque promoveu a promiscuidade e a violência entre os seres humanos. 

Os "filhos de Deus" em Gênesis e os Vigilantes na literatura Enoquiana são totalmente divinos, assim como os Apkallus antediluvianos na tradição mesopotâmica. Os quatro Apkallus pós-dilúvio eram "de descendência humana", o que significa que os Apkallus poderiam copular com os humanos, como fizeram os Vigilantes.

Isso corresponde exatamente ao status de Gilgamesh no mundo pós-diluviano, pois ele também era “dois terços divino e um terço humano”. Gilgamesh foi relacionado a um Apkallu antediluviano, já que ele "trouxe de volta uma mensagem da era antediluviana". 

Em termos judaicos, ele era como um dos Gigantes Nefilins, exatamente como o Livro dos Gigantes o descreve. Ao identificar certos arqui-inimigos tradicionais como descendentes dos Vigilantes, os autores judeus mais uma vez deram um impulso polêmico ao conceito mesopotâmico dos governantes como “semente preservada antes do dilúvio”.

Essa inversão de atitudes também é vista nas transgressões sexuais que foram atribuídas aos Vigilantes. Os encontros sexuais entre humanos e divindades tinham um lugar claramente estabelecido no ritual real do casamento sagrado na cultura mesopotâmica. Em (1 Enoque), no entanto, tal transgressão das fronteiras entre o humano e o divino é descrita como sacrílega no início, e uma fonte de corrupção irreversível no mundo humano.



Anjo caído com áurea de poder


Quem São os Demônios? De Onde Vieram? (São os Espíritos Desencarnados dos Nefilins)

Para os judeus do Segundo Templo, os demônios que Jesus encontrou e derrotou eram os Espíritos dos Nefilins libertados do corpo com a morte dos antigos Gigantes Nefilim / Refaim. A passagem de (1 Enoque 15), assim como as referências dos Manuscritos do Mar Morto aos Vigilantes, referem-se a eles como “Espíritos Bastardos”. Esse termo vê claramente os demônios como o resultado da morte dos híbridos (“bastardos”), Nefilins descendentes produzidos na transgressão de (Gênesis 6:1-4); o pecado dos Vigilantes conforme relata Enoque. Quando Jesus confronta a Legião, Ele está enfrentando um coletivo dessas entidades.



Escritura do livro de Enoque da época do segundo templo


Enoque

Capítulo 15

1 Ele tomou a palavra, e falou comigo; e eu prestei atenção à sua voz: "Não temas, Enoque, homem honesto e Escriba da Justiça! Vem até aqui e escuta as minhas palavras. Vai e dize aos Guardiões do céu que te enviaram como seu intercessor: Sois vós que devíeis interceder pelos homens, não os homens por vós! 2 "Por que motivo abandonastes o alto do céu, santo e eterno, dormistes com mulheres, vos contaminastes com as filhas dos homens, tomastes a elas por esposas, comportando-vos como os filhos da terra e gerando filhos gigantes? 3 "'Vós éreis santos, seres espirituais, detentores de uma vida eterna, mas depois vos deixastes corromper pelo sangue das mulheres e gerastes filhos com o sangue carnal, e com isso, desejando o sangue humano, e produzindo carne e sangue, vos igualastes àqueles que são mortais e transitórios. 4 "`Por isso, eu concedi a essas mulheres, que com eles coabitaram, e que com eles geraram filhos, que nada lhes falte sobre a terra. Vós, porém, fostes anteriormente espíritos eternos, destinados a serdes imortais ao longo de todas as gerações do mundo. Por isso eu não criei para vós mulheres, pois os espíritos do céu possuem no céu a sua morada. 5 Os gigantes, porém, que foram gerados do espírito e da carne, serão chamados na terra de espíritos maus; eles também terão a sua morada na terra. Do corpo delas procederam espíritos maus; pois, embora nascidos de humanos, é dos Guardiões santos o seu princípio e origem primeira. Eles serão espíritos corruptos sobre a terra, e assim chamar-se-ão. 6 Os espíritos do céu, no céu têm a sua morada; mas os espíritos da terra, que na terra foram nascidos, nesta terão a sua morada. Os espíritos dos gigantes são cheios de maldade, cometem atos de violência, destroem, agridem, brigam, promovem a devastação sobre a terra e instauram por toda parte a confusão. Pois, embora famintos, não comem; bebem, e continuam a ter sede. E esses espíritos levantam-se contra os filhos dos homens e contra as mulheres, pois destas procederam. 


Capítulo 16

1 A partir dos dias da matança, do extermínio e da morte dos gigantes, quando os Espíritos abandonarem seu corpo carnal sem sofrerem julgamento e condenação, eles continuarão a agir daquela maneira perversa, até o dia do grande Juízo Final, quando então o mundo acabará completamente para os Guardiões e para todos os ímpios. 2 "Dize agora aos Guardiões, que outrora moravam no céu, e que te enviaram como seu intercessor: 'Vós estáveis no céu. Nem todos os segredos vos foram revelados; contudo conhecíeis um segredo que não convinha passar, e na vossa imprudência o transmitistes às mulheres. Através da revelação desse segredo, homens e mulheres praticam muitas desgraças sobre a terra'. Portanto dize-lhes: 'Vós não tereis nenhuma paz'!" 


O texto de (1 Enoque) e outros textos judaicos do Segundo Templo são claros o suficiente sobre este ponto - que os Vigilantes caídos ensinaram aos seres humanos vários pontos de conhecimentos, que corromperam a humanidade. Mas isso levanta uma questão específica encontrada nesses textos antigos: se os Vigilantes pecadores foram aprisionados no Abismo e “não veem a luz do dia” desde o dilúvio, então, como o conhecimento deles poderia impulsionar a propagação da maldade entre a humanidade após o dilúvio? 

A resposta para essa pergunta está relacionada aos Nefilins, os Gigantes produzidos pelos Vigilantes pecadores. Não importa se os Gigantes foram destruídos no dilúvio, e também não importa se os “Filhos Celestiais” de Deus, que transgrediram, estejam aprisionados, conforme as tradições do Segundo Templo e os livros de Pedro e Judas nos informam. E por que não importa? Porque a morte dos Nefilins é o ponto de origem dos demônios. 

Não há indicação de que os demônios, seres espirituais, tenham sido destruídos pelo dilúvio. Esses demônios são explicitamente identificados como espíritos dos filhos dos Vigilantes em (1 Enoque). Mais especificamente, (1 Enoque 15:5-6 - 16:1-2) apresenta a ideia de que esses espíritos demoníacos continuam a corromper a humanidade após o dilúvio. Conforme capítulos 15 e 16, mencionados acima. 

A morte dos Gigantes é o prelúdio e o pressuposto para a contínua e violenta atividade catastrófica de seus espíritos, que continuam impunes até o julgamento final. Visto que os Vigilantes são celestiais, espirituais e imortais, o espírito divino com o qual eles dotaram seus filhos não é permissível no curso normal dos acontecimentos. A morte de seu lado humano serve apenas para libertar esse espírito para atividades futuras. 

Além disso, como se pode ver em suas atividades, os Gigantes herdaram o lado perverso e rebelde da natureza de seus pais. Os espíritos libertos dos Gigantes mortos constituem um reino demoníaco que realiza atividades para as quais os Gigantes foram julgados e punidos. Os Gigantes e os espíritos que procedem de seus corpos são mencionados como as mesmas entidades.

Por causa de sua natureza dupla, os Gigantes são tanto erradicáveis quanto imortais. Por um lado, o corpo de carne pode morrer. Por outro, seus espíritos continuam existindo. Como eles foram gerados na Terra, esses espíritos devem permanecer na Terra. Aqui nesse planeta eles constituem um império de espíritos malignos que causam todo tipo de destruição à raça humana.



Irineu folhando uma bíblia da época do segundo templo

 

Irineu

Os tratados de Irineu: “Contra Heresias” e “Prova da Pregação Apostólica”, demonstram como Irineu abraçou todos os elementos principais da história de (1 Enoque) sobre a transgressão dos Vigilantes - incluindo em sua doutrina da depravação humana. 

Irineu tem duas descrições diferentes para os anjos que contaminaram a humanidade. Uma das descrições diz respeito às “uniões ilegais” de anjos com descendentes das filhas dos homens. Essa “união ilegal” produziu “Gigantes” sobre a terra, que causaram a pecaminosidade do homem; e esses Gigantes, que Irineu chama de “raça infame de homens” realizaram atos infrutíferos e perversos. 

De acordo com Irineu, a outra maneira pela qual os anjos provocaram a contaminação do homem foi através dos ensinamentos do mal. Irineu enumera esses ensinamentos da seguinte forma: “as virtudes das raízes e das ervas, tingimentos e cosméticos, descobertas de materiais preciosos, poções do amor, ódios, amores, paixões, restrições de amor, laços de feitiçaria, e todos os feitiços e a idolatria, tudo isso odiado por Deus”. 

Irineu não é o único pai da igreja primitiva que viu o pecado de (1 Enoque) dos Vigilantes por trás de certas passagens do Novo Testamento e da teologia apostólica. Tertuliano é bem conhecido por ter sugerido que a transgressão dos Vigilantes é a explicação para o enigmático comando do apóstolo Paulo para as mulheres cobrirem suas cabeças “por causa dos anjos” (1 Coríntios 11:10). Paulo queria que as mulheres tivessem seus cabelos cobertos como um sinal de que elas foram esposadas, e que elas pertenciam a um homem; a seus maridos. Por que? Por causa dos anjos... 

Aparentemente, Paulo estava preocupado porque, se as mulheres não mostrassem esse sinal de fidelidade sexual de "propriedade" de seus maridos, uma mulher poderia estar em risco de violação sexual por parte dos anjos. Afinal, isso já havia acontecido antes (Gênesis 6:1-4), e Paulo não queria ver tal violação de ordem cósmica acontecer novamente em seu ministério.



Vários espíritos presos no abismo da época do segundo templo

 

Espíritos em Prisão

Quem são "os espíritos" que estão "na prisão"? O contexto associa-os claramente com "os dias de Noé", pouco antes do dilúvio, mas a associação não é adequada por si só para responder às seguintes perguntas: esses espíritos são as almas das pessoas que pereceram no dilúvio? Eles são os "filhos de Deus" caídos de (Gênesis 6:2) - os Vigilantes - que pecaram com as mulheres humanas? Eles são os Espíritos Vigilantes desencarnados dos Nefilins mortos - os demônios? Ou a referência a “espíritos” aponta para todos os itens acima? 

(1 Pedro 3:19) e a referência ao aprisionamento dos espíritos 

É importante notar que, em (1 Enoque e 2 Enoque), os anjos caídos são descritos expressamente como estando “na prisão”, ou em termos equivalentes. Em (1 Enoque), eles são condenados por Deus à prisão enquanto aguardam seu julgamento final. 

A referência aos espíritos presos é decisiva. Qualquer leitor letrado do período do Segundo Templo de (1 Pedro 3:19) teria compreendido que Pedro estava se referindo aos espíritos não humanos caídos, os Vigilantes que pecaram antes do Dilúvio (Gênesis 6:2). 



Pessoas adorando o diabo em uma igreja satanista
 

Anticristo

Como se pode ver, a história Enoquiana da transgressão dos Vigilantes opera como pano de fundo de certos pontos da escatologia do Novo Testamento. Não há nenhuma afirmação direta em (1 Enoque) ou no Novo Testamento de que o Anticristo seria um descendente dos Nefilins ou uma encarnação de um Vigilante ou de Satanás. Há, no entanto, uma série de indicações de que os judeus do Segundo Templo tinham uma "teologia do Anticristo" antes da época de Jesus, que tinha claras ligações conceituais com os pecados dos Vigilantes e dos Gigantes. 

A título de exemplo, em uma obra pseudepigráfica, conhecida como (Assunção de Moisés), uma obra cujo conteúdo aparece no livro de Judas do Novo Testamento, lemos a seguinte passagem (Assunção de Moisés 8:1-3):


1 “E virá sobre eles uma segunda visitação e ira, como nunca lhes aconteceu desde a criação até o momento em que ele incita um rei dos reis da terra que, tendo autoridade suprema, crucificará aqueles que confessam sua circuncisão.. 2 Mesmo aqueles que o negarem, ele os torturará e entregará para serem levados à prisão acorrentados. 3E suas esposas serão dadas aos deuses das nações e seus filhos serão cortados por médicos para levar adiante seus prepúcios. 


A linha interessante aqui é a referência a "um rei dos reis da Terra" que tem autoridade suprema. O escritor está citando claramente o Salmo 2:2, um salmo messiânico sobre como os reis das nações dos gentios se levantarão contra o Messias. 

De acordo com o “Documento de Damasco”, os Vigilantes do céu caíram por não seguirem os preceitos de Deus (CD 2:18). Essa obra de Qumran atribui a ascensão de Moisés e Aarão ao Príncipe da Luz e seus adversários a Belial: “Pois nos tempos antigos, durante o primeiro livramento de Israel, surgiu Moisés e Aarão, pela mão do Príncipe das Luzes; e Belial, com sua astúcia, levantou Janes e seu irmão ”(CD 5:18-19).

No tempo presente Israel está sujeito ao domínio de Belial (CD 4:12-19). A primeira parte da Regra da Comunidade, prescreve uma cerimônia de aliança a ser conduzida pela comunidade “por todos os dias do domínio de Belial” (1QS 1:18; 2:19) - a presente era é o “domínio de Belial” na Terra. (João 12:31; 14:30; 16:11, “o príncipe deste mundo”). A liturgia tem os filhos da luz pronunciando maldições contra os filhos das trevas, “os homens de Belial” (1QS 2:4-5). 

Neste manuscrito do Mar Morto, o escritor judeu retrata Belial assim como o Novo Testamento retrata Satanás. Ele é colocado em contraste com "o Príncipe das Luzes", que a maioria dos estudiosos de Qumran acredita que deve ser identificado com Miguel (chamado de "príncipe" de Israel em Daniel 10:21; 12:1). Vários manuscritos do Mar Morto descrevem uma grande guerra do fim dos tempos entre o príncipe messiânico, seus santos, e seus fiéis seguidores humanos; e Belial, e suas forças divinas e humanas. 

Certos escritores judeus do Período do Segundo Templo viram Satanás como o catalisador por trás da rebelião dos Vigilantes. Os Espíritos-Vigilantes (forças demoníacas) estavam por trás da oposição de pessoas como Moisés. Esses espíritos trabalham para Satanás / Belial e o ajudam a administrar seu domínio na era atual. Na batalha final, esses espíritos se associam aos homens alinhados com Satanás / Belial ("homens de Belial"). A suposição, então, é que o exército de Belial deve incluir um comandante humano - a figura do Anticristo. 

A demonologia judaica do Segundo Templo, portanto, nos permite fazer várias observações que se correlacionam com a figura militar tirana que os judeus acreditavam que lutaria contra o Messias. Os judeus deste período acreditavam que os demônios, os Espíritos Vigilantes dos Nefilins mortos, faziam parte de um exército do fim dos tempos contra o Messias e seus seguidores. 

O exército de poderes das trevas era liderado por uma figura sobrenatural chamada de Belial, Beliar, Mastema, Samyaza. O último nome é outra conexão com os Vigilantes nas mentes dos judeus do Segundo Templo. Os inimigos humanos de Israel seriam liderados por um tirano maligno, o “rei dos reis da Terra” (Assunção de Moisés 8:1). Figuras históricas como Senaqueribe da Assíria, ou Antíoco, ou o Imperador Romano, eram todos protótipos desse inimigo.



Liberação dos vigilantes do poço do abismo descritos na época do segundo templo

 

A Liberação dos Vigilantes do Poço do Abismo

Talvez a passagem em Apocalipse que a maioria identificaria como tendo algo a ver com os Vigilantes seria (Apocalipse 9). Em (1 Enoque) é dito que os Vigilantes caídos foram aprisionados no Abismo por “setenta gerações”, ou “até o dia do seu julgamento, ou até que o juízo eterno seja consumado”.

Esse destino é consistente com o que aconteceu com os Apkallus mesopotâmicos: a saga à qual (Gênesis 6:1-4) respondeu em uma polêmica teológica. Também se reflete em (2 Pedro 2:4 e Judas 6), que explicam que os “anjos que pecaram” foram colocados “em cadeias de trevas eternas” - no Tártaro. 

Muitos estudiosos acreditam que o “desbloqueio” do Abismo por uma “estrela” que recebe a chave do poço do Abismo (Apocalipse 9:1-10) é a liberação escatológica dos Vigilantes que foram presos ali desde a época do dilúvio. A explicação mais adequada para a prisão descrita em (1 Enoque 10) pode ser encontrada em (Apocalipse 9), onde a chave do abismo é dada a uma “estrela caída” (ou ao quinto anjo da trombeta) que a utiliza para abrir o poço do abismo e libertar as forças demoníacas aprisionadas que emergem para aterrorizar os habitantes da Terra. 

A estranha descrição dos seres liberados do Abismo como “gafanhotos” (Apocalipse 9:3) que eram “como cavalos preparados para a batalha: em suas cabeças havia o que pareciam coroas de ouro; seus rostos eram como rostos humanos, seus cabelos como cabelos de mulher e dentes como dentes de leões” (Apocalipse 9:7-8), não diminuem sua identificação como sendo os Vigilantes caídos.

As descrições teriomórficas hibridizadas (em forma de animal) aplicadas aos espíritos demoníacos são comuns na literatura judaica clássica e antiga. (Apocalipse 9) em seu antigo contexto literário descreve a libertação dos Vigilantes caídos antes de sua destruição final com Satanás. 

(Mateus 25:41) nos diz que o lago de fogo estava “preparado para o diabo e seus anjos”. A afirmação é única no Novo Testamento. Passagens semelhantes confirmam que o diabo é destruído no lago de fogo (Apocalipse 20:10). Mas a ideia de que o lago de fogo aparentemente foi planejado ou criado para o diabo e seus anjos não tem precedente aparente nem no Antigo nem no Novo Testamento.

O lago de fogo é um excelente exemplo de como os escritores do Novo Testamento ocasionalmente obtinham sua teologia a partir de (1 Enoque) e outros textos Enoquianos. Enquanto o Antigo Testamento não relata anjos sendo lançados no lago de fogo, ou que seu destino é o lago de fogo, temos (1 Enoque) que relata. Não surpreendentemente, o conceito está ligado à transgressão dos Vigilantes. 

Os Vigilantes, presos no Abismo até o final dos dias, são soltos e depois recapturados para serem lançados no lago de fogo. Leitores familiarizados com o material Enoquiano sobre o lago de fogo sabem que alguns textos destacam o líder dos Vigilantes (que usa vários nomes: Asael, Azazel, Samyaza) para mencioná-lo de forma especial nestes textos de julgamento (por exemplo, 1 Enoque 10:4-6).

Este é um paralelo muito próximo às declarações do Novo Testamento e, em particular, à cena do julgamento de Satanás em (Apocalipse 20:7-10). É também por isso que certos pensadores cristãos consideram Satanás o líder dos Vigilantes, apesar do fato de que nenhum texto bíblico mencione isso, e (1 Enoque) nunca identifica o líder dos Vigilantes como o rebelde original do Éden.

 

Pequeno Adendo

Outro ponto interessante, e que não entrarei em detalhe, é que tudo o que foi relatado aqui, também encontra paralelo com a mitologia grega, com os deuses do Olimpo e os Titãs. Esses seres sobrenaturais também mantinham relações sexuais com os humanos. O Titã Prometeu “roubou” fogo do céu para dar aos homens - que é a mesma simbologia dos seres que repassaram conhecimento divino à humanidade, e portanto, proibido aos humanos...



DOSSIÊ EM DESTAQUE

Ninrode: O Homem, o Mito e a Memória de Babel - Parte 2 - (Final)

Parte 2 – Ninrode e a Tradição Ato VIII: Pseudo-Fílon e a Fornalha Uma das primeiras testemunhas importantes para a associação entre Ninrode...

DOSSIÊS DE ALTA RELEVÂNCIA MAIS VISUALIZADOS