03 julho, 2025

O Espinho na Carne de Paulo - Parte 1


Dentro do vívido relato autobiográfico de Paulo sobre ser “arrebatado” ao terceiro céu e ouvir coisas “que nenhum mortal tem permissão para falar” (2 Cor 12:2-4); subsequentemente a essas visões, Paulo afirma que lhe foi dado “um espinho na carne, um mensageiro de Satanás para me esbofetar, a fim de não me exaltar". (2 Cor 12:7).


¹ Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor.

² Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu.

³ E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe)

⁴ Foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar.

⁵ De alguém assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas.

⁶ Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve.

⁷ E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. (2 Coríntios 12:1-7).


Praticamente desde o momento em que Paulo escreveu essas palavras até o presente, o significado e a identidade do “espinho” de Paulo têm sido amplamente debatidos. O interesse acadêmico na natureza do misterioso “espinho” de Paulo também não é sem razão, pois levanta uma série de questões gramaticais, teológicas e lexicais, cada uma com uma miríade de respostas e objeções.

Por que Paulo menciona Satanás ou, para ser mais específico, um "anjo/mensageiro de Satanás" na passagem? 

É importante relembrar o contexto em que Paulo relata sua visão extática. Uma das questões que surge da leitura do texto é por que Paulo escolheu revelar o episódio aos coríntios já que a visão tinha ocorrido há quatorze anos atrás?


² Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu. (2 Coríntios 12:2).


Foi a disputa atual com seus rivais, provocada pela deslealdade dos coríntios para com ele, que forçou-o (conforme 2 Cor 12:1, 11) a quebrar aquele silêncio e mencionar relutantemente sua ascensão privilegiada ao céu.


¹ Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor. (2 Coríntios 12:1).

¹¹ Fui néscio em gloriar-me; vós me constrangestes. Porque eu devia ter sido louvado por vós, visto que em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos, ainda que nada sou. (2 Coríntios 12:11).


O propósito da vanglória de Paulo não é divulgar detalhes de sua extraordinária jornada ao paraíso; em vez disso, a intenção da narrativa de Paulo é abordar o valor das “visões e revelações do Senhor” recontando sua própria revelação a fim de refutar o valor inflado que os coríntios deram a tais experiências.

No contexto de 2 Coríntios 12:1-10, a referência de Paulo ao "espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás" é, portanto, secundária. No entanto, é importante ter em mente, ao considerarmos esta referência a Satanás, que seu episódio do “espinho na carne” ocorreu quatorze anos antes da escrita de 2 Coríntios e que ocorre dentro da narração de Paulo de uma sequência de eventos subsequentes à sua revelação.


A Identidade do “Espinho na Carne”

Não faltam opiniões sobre a natureza e a identidade do “espinho” de Paulo. Repetir as várias opções interpretativas seria infrutífero e tangencial, mas valerá a pena oferecer uma breve visão geral das interpretações dominantes para chegar a uma compreensão mais completa dos termos apropriados à questão.

A maioria das interpretações pode ser dividida em duas categorias: física e relacional. No caso da primeira categoria, as interpretações típicas do “espinho” de Paulo estão associadas a doenças, deficiências ou algum tipo de defeito físico. Por exemplo, alguns afirmam que Paulo sofria de "febre crônica de malária". Outros argumentam que o "espinho" de Paulo era uma doença física, preferindo identificá-la como enxaquecas recorrentes. Ainda, alguns consideram o "espinho" de Paulo um caso de epilepsia. Conectando o texto a Gálatas 4:13-15, alguns estudiosos afirmam que Paulo sofria de oftalmia. Outros, no entanto, sustentam que Paulo sofria de algum tipo de doença física, sem nomear sua natureza específica.


¹³ E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em enfermidade da carne;

¹⁴ E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne, antes me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo.

¹⁵ Qual é, logo, a vossa bem-aventurança? Porque vos dou testemunho de que, se possível fora, arrancaríeis os vossos olhos, e mos daríeis. (Gálatas 4:13-15).


A segunda categoria de interpretação, relacional, pode ser mais ou menos dividida em três subcategorias. Primeiro, alguns afirmam que o “espinho” de Paulo deve ser identificado com a oposição que ele experimentou em Corinto. Segundo, alguns restringem o escopo do “espinho” para se referir a um inimigo pessoal de Paulo, possivelmente um membro especificamente desagradável do clã, como um "anjo de satanás em particular”. Terceiro, outros consideram o “espinho” de Paulo como uma alusão aos seus oponentes de forma genérica.

De modo geral, aqueles que destacam a natureza física do “espinho/mensageiro” de Paulo tendem a enfatizar a palavra "espinho" em 2 Cor 12:7. Por outro lado, aqueles que destacam a natureza relacional do “espinho/mensageiro” de Paulo frequentemente enfatizam o termo "mensageiro". Tomados em conjunto, esses pontos ilustram o impasse entre os estudiosos na tentativa de identificar o espinho na carne de Paulo.

Apesar dos méritos de cada uma das duas principais interpretações, nenhuma das visões é capaz de superar suas próprias dificuldades exegéticas ou históricas. Com base na análise histórica, no entanto, a verdade é que não temos informações inequívocas suficientes para fazer mais do que especular sobre a natureza do espinho na carne de Paulo. 

Apesar da dificuldade em identificar um referente claro para o “espinho/mensageiro” de Paulo, o versículo permanece importante para o presente estudo. Seu valor, no entanto, não está em determinar a identidade do "espinho/mensageiro de Paulo”. Em vez disso, a importância de 2 Cor 12:7 para o presente estudo é a associação de Paulo sobre um doloroso obstáculo ao seu ministério com (um mensageiro/anjo de Satanás).

A interpretação do versículo, portanto, não dependerá de uma interpretação específica da identidade do “espinho/mensageiro”. Em vez disso, o foco estará na conexão entre "espinho" e "mensageiro", e na questão da "atividade de Satanás" no contexto, assuntos para os quais seguiremos na próxima parte.







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