A Vitória no Conflito Escatológico
A narrativa profética das Escrituras previu corretamente toda a extensão histórica pós-bíblica. E embora a escatologia forneça encorajamento, ela também nos convida para nos prepararmos para o conflito, e entendermos que:
- A história escatológica de Deus é compreensível e aberta, em vez de confusa ou esotérica.
- A história ocorre no cenário geopolítico e histórico, não num reino espiritual abstrato.
- O povo da aliança de Deus é participante ativo na história, e não um observador passivo.
- O conflito escatológico é de grande escala e não deve estar localizado apenas no Oriente.
Profecias do Monoteísmo Mundial Messiânico
Talvez,
a profecia escatológica mais fundamental seja a expectativa messiânica do
monoteísmo global. Embora não seja tradicionalmente vista como escatológica,
essa profecia fundamenta e impulsiona toda a narrativa bíblica, prevendo o
desenrolar da história humana de formas verificáveis, públicas, ativas e
globais.
Quando
o salmista e Isaías estavam escrevendo, ninguém na Terra praticava o monoteísmo estrito, exceto os judeus conservadores e - dependendo da data em que datamos
esses textos - talvez os samaritanos. Apesar desse fato, os autores bíblicos
predisseram repetidamente e com ousadia que os judeus eram uma “nação de
sacerdotes” que chamariam as nações do mundo para adorarem o único Deus
verdadeiro. Essa expectativa está frequentemente entrelaçada com a vinda de uma
figura messiânica singular.
Para
destacar alguns exemplos, no Salmo 22 - no qual são mencionadas diversas vezes os
relatos da crucificação do Novo Testamento - somos informados de que “Todos os
limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; e todas as famílias
das nações adorarão perante a tua face.” Isaías também contém várias profecias
do monoteísmo global, incluindo Isaías 11, que fala de um messias que surgirá
da raiz de Jessé, pai de Davi. Esse capítulo profetiza que “a terra se encherá
do conhecimento do Senhor” e que a raiz de Jessé, que servirá de sinal para os
povos “estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o
lugar do seu repouso será glorioso”.
Essa
menção a um “lugar de repouso glorioso” pode ser lida de várias maneiras.
Poderíamos dizer que tem múltiplas dimensões simultâneas, todas cumpridas em
Cristo. Até mesmo a Terra Santa em geral é conhecida como santa principalmente
porque Jesus Cristo foi crucificado e ressuscitou ali. As profecias do
monoteísmo global também deixam poucas dúvidas de que o Deus a ser adorado
pelas nações gentias seria o Deus dos Judeus. Isaías 61 diz sobre Judá: “E a
sua posteridade será conhecida entre os gentios, e os seus descendentes no meio
dos povos; todos quantos os virem os conhecerão, como descendência bendita do
Senhor”.
Hoje,
bilhões de pessoas professam uma crença no Deus de Jacó (Israel) e, assim,
reconhecem os judeus, que vivem “no meio” deles, como destinatários da primeira
aliança de Deus. É importante ressaltar que Jesus enfatizou essa profecia
quando a citou em Lucas 4, identificando-se diretamente como a fonte do
cumprimento da profecia.
À Luz Dessas Predições, os Fatos da História Atestariam a Exatidão Profética da Bíblia?
Pode
ser tentador descartar essas profecias como autorrealizáveis. Poderíamos pensar
que, porque os Judeus sempre aspiraram ao messianismo universal, então, mesmo
sem a intervenção divina, seria plausível que essa aspiração fosse
concretizada. Mas, o que é mais importante, não é perguntar se os judeus provavelmente
continuariam a aspirar ao messianismo depois de os profetas anunciarem essas
profecias. A verdadeira questão é a probabilidade de essas aspirações serem
realmente bem sucedidas e numa escala tão espetacular como a vitória que agora
vemos à nossa volta.
Não
é intrinsecamente provável que a maioria da população mundial se unisse em
torno de qualquer Deus único, muito menos que o fizesse antes do advento da
globalização moderna. Para se tornar a divindade preeminente do mundo, o Deus
de Jacó (Israel) precisava superar e destruir uma série de sistemas religiosos
arraigados que não foram bem sucedidos. Cada um desses sistemas e conflitos
aumenta a improbabilidade intrínseca do cumprimento das profecias messiânicas.
Para
qualquer pessoa que não fosse Deus, levar Judá e a sua religião do cativeiro à
preeminência global teria gerado enormes problemas logísticos. Isto é
realçado pelo fato de, a fim de lançar as bases para o monoteísmo global, Deus
levantou três dos maiores líderes mundiais de toda a história humana: Ciro, o
Grande, Alexandre, o Grande, e César Augusto. Esses estadistas compartilharam
três pontos em comum importantes. Cada um aparece diretamente na Bíblia, cada
um demonstrou respeito pelo Judaísmo e cada um desempenhou um papel crítico na
preparação do caminho para o advento da igreja.
Ciro,
o Grande, derrotou astutamente a opressão babilônica e libertou os judeus do
cativeiro, inaugurando o período do Segundo Templo, que deu a Jesus o seu
contexto teológico subjacente. Alexandre, o Grande, universalizou a língua e a
filosofia grega, lançando a Era Helenística e estabelecendo as palavras e os
conceitos pelos quais a Igreja um dia comunicaria as suas ideias. E César
Augusto uniu o Mediterrâneo sob uma infraestrutura única e racionalmente
planeada, permitindo aos primeiros cristãos espalhar a sua mensagem por todo o
mundo.
Apropriadamente, Ciro é descrito em Isaías 45:1 como o “ungido” do Senhor - um messias. As conquistas de Alexandre, são profetizadas em Daniel 8, onde são mostradas para preparar o cenário para a Revolta dos Macabeus. E César Augusto aparece apropriadamente no primeiro versículo de Lucas: "E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse" (Lucas 2:1).
A Ética da Autodoação no Conflito Escatológico
Daniel
é em si um texto messiânico global. Em Daniel 2, o reino de Deus é descrito
como uma pedra que “se tornou um grande monte e encheu toda a terra”, e embora
o reino de Deus seja de outro mundo, não está isolado dos assuntos mundanos.
Pelo contrário, a pedra é vista quebrando ativamente uma estátua que representa
uma série cronológica de impérios mundiais. Daniel então nos diz que o próprio
reino de Deus “despedaçará todos estes reinos e os destruirá, e subsistirá para
sempre”. Em contraste com o quietismo de N.T. Wright > (informação no link em inglês), o messianismo de Daniel é
especificamente geopolítico e ativo.
Compreender
a escatologia, portanto, requer alguma discussão sobre a ética bíblica em
geral. Essa discussão sobre ética pode parecer uma tangente aos leitores
modernos – mas isso só acontece porque estamos fazendo uma petição de princípio
em favor de N.T. Wright. A própria Bíblia vê a escatologia e a ética como
interligadas.
No
Salmo 2, o Senhor diz ao seu Ungido para pisar os “governantes da terra”: “Com
vara de ferro os quebrarás e os
despedaçarás como a um vaso de oleiro”, relata o salmista. Jesus cita esse
Salmo em Apocalipse 2.
E com vara de ferro as
regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai.
Apocalipse 2:27
Na
articulação do Salmo feita por Jesus, porém, não é apenas o Ungido que vence os
governantes, mas o ouvinte cristão. “Aquele que vencer e guardar as minhas
obras até o fim, a ele darei autoridade sobre as nações”, diz Jesus.
Essa
retórica do combate escatológico é consistente com a ética profética
abrangente. Os sistemas de opressão devem ser destruídos não apenas porque são
ídolos, mas por causa do sofrimento que infligem àqueles que oprimem. O povo de
Deus, acrescenta Isaías 58, deve “quebrar todo jugo”. A injunção de Isaías,
especialmente através do verbo “quebrar”, transmite o mesmo motivo bíblico
básico que a citação de Jesus no Salmo 2.
Os
quietistas podem argumentar que esses versículos devem ser interpretados à luz
dos Evangelhos, e que os Evangelhos ensinam que - quando vemos injustiça sendo
feita a outros - devemos olhar humildemente e orar. O problema com este
argumento é que nenhuma parte dos Evangelhos realmente ensina tal coisa. O
ensino é um produto moderno e conveniente da imaginação dos quietistas.
Os
Evangelhos ensinam enfaticamente uma ética de doação, que pode ser resumida em
Mateus 23:11: “O maior entre vós será vosso servo”. Os quietistas se identificam com esses versículos porque pensam que eles ensinam a virtude da inação. Mas
você não pode realmente se entregar ficando muito quieto e atingindo um estado
de “não ser”. Isso certamente seria autoaniquilador, mas significaria a
ausência de qualquer doação. Doar-se exige uma ação positiva em favor do outro,
como Jesus ensina em Mateus 25:45, “Então lhes responderá, dizendo: Em verdade
vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim”.
Considere
que, quando Jesus impediu que a casa de seu Pai fosse profanada, ele estava
arriscando sua própria segurança pela honra de seu Pai. Mateus, Marcos e Lucas
nos contam que os fariseus imediatamente procuraram prender Jesus, parando
apenas porque temiam o grande número de apoiadores de Jesus. Alguns leitores
imaginam que existe uma tensão entre a limpeza do Templo e a crucificação, mas
essas pessoas não pensam nas mesmas categorias que os autores da Bíblia. Jesus
foi até a morte para se entregar pela humanidade e “limpou” o Templo para se
entregar ao Pai.
Essa
dinâmica explica todas as escolhas e declarações de Jesus, que os quietistas
admiram, como o Sermão da Montanha. Mas explica igualmente todas as escolhas e
declarações de Jesus que os quietistas detestam e trabalham para retraduzir,
abstrair e explicar, como a citação de Jesus do Salmo 2. A Bíblia pensa e fala
do contraste entre doação e exaltação própria. A modernidade e algumas
filosofias orientais pensam e falam de um contraste entre violência e não violência.
Essas categorias são estranhas à Bíblia.
Afinal,
permitir que o mal aconteça à outra pessoa não é doação de si mesmo: significa
doação de outra pessoa. Para Jesus, sair do Templo em estado de contaminação
teria sido uma doação de outra pessoa: seu Pai. Moisés estaria dando de outra
pessoa se não tivesse defendido o escravo hebreu, como Atos 7 reconhece implicitamente
que ele estava correto em fazer.
Por
outro lado, Abraão não se doou quando prostituiu a própria esposa para evitar conflitos.
O levita dos juízes não se entregou quando permitiu que sua concubina fosse
estuprada e assassinada. Passividade não é doação que deu errado: é o seu
inverso. É uma doação virada ao avesso.
A
passividade é uma porta larga e fácil, e muitos entram por ela. A doação é uma
porta estreita, perigosa e terrível, e é preciso sempre se preparar para entrar
por ela. Um doador é alguém que está preparado para dar a própria vida – e não
a vida dos outros – para se interpor contra a injustiça. Nas palavras de Isaías
58, ele não “inclina a cabeça como uma cana”: pelo contrário, procura quebrar
todo jugo. Da mesma forma, a pedra em Daniel 2 “quebra em pedaços todos estes
reinos e os leva ao fim”.
O Papel das Alianças Políticas no Conflito Escatológico
Daniel
2 e 7 apresentam uma sequência de quatro impérios que se sucedem um ao outro. À
medida que avançamos na Bíblia e na história, vemos que estes quatro impérios
apresentam quatro conflitos. Essa sequência de conflitos opõe o reino pactual
de Deus ao império secular então contemporâneo.
Cada
conflito da série supera o anterior em escala e intensidade. À medida que as
bestas em Daniel 7 aumentam em força e ferocidade, o reino de Deus também
aumenta em poder, como podemos ver pelo crescimento da pedra em Daniel 2.
Assim, em cada conflito, o papel do povo da aliança de Deus é cada vez mais
ativo e, portanto, cada vez menos palatável para os quietistas.
No
primeiro dos quatro conflitos, o reino de Deus está no ponto mais baixo da sua
força terrena. Inevitavelmente, a atividade que Deus exige do seu povo está num
ponto baixo. O ator principal aqui não é realmente o povo de Deus, mas Ciro, a
quem Deus unge para fazer o trabalho pesado no trato com o Império Babilônico.
No entanto, embora o conflito com a Babilônia seja o menos assertivo da série
de quatro, o povo de Deus não deixa de ter qualquer papel a desempenhar.
Os
judeus não ficaram apenas parados esperando que Ciro viesse libertá-los. Em vez
disso, procuraram intencionalmente uma aliança religiosa com Ciro, enfatizando
o seu papel nas profecias de Isaías. Múltiplas fontes, incluindo Esdras, o
apócrifo grego Esdras, e Josefo mostram que Ciro estava familiarizado com as
profecias de Isaías por seus apoiadores judeus.
Flávio Josefo,
trabalhando a partir de fontes provavelmente independentes do Esdras canônico,
diz especificamente, que os judeus mostraram a Ciro o texto de Isaías para
recrutá-lo para sua causa. Josefo escreve em “História dos Hebreus”:
No primeiro ano do reinado de Ciro, rei dos persas, setenta anos depois
que as tribos de Judá e de Benjamim foram levadas escravas para a Babilônia,
Deus, tocado de compaixão pelo sofrimento delas, realizou o que havia predito
pelo profeta Jeremias, antes mesmo da ruína de Jerusalém: que, passados setenta
anos em dura escravidão, sob Nabucodonosor e seus descendentes, voltaríamos ao
nosso país, reconstruiríamos o Templo e desfrutaríamos a nossa primeira
felicidade. Assim, pôs Ele no coração de Ciro escrever uma carta e enviá-la por
toda a Ásia. Eis o que declara o rei Ciro: "Cremos que o Deus
Todo-poderoso, que nos constituiu rei de toda a terra é o Deus que o povo de
Israel adora, pois Ele predisse por meio de seus profetas que nós traríamos o
nome que trazemos e reconstruiríamos o Templo em Jerusalém, na Judéia,
consagrado à sua honra".
Esse soberano falava assim porque lera nas profecias de Isaías,
escritas duzentos e dez anos antes que ele tivesse nascido e cento e quarenta
anos antes da destruição do Templo, que Deus lhe tinha feito saber que
constituiria a Ciro rei sobre várias nações e inspirar-lhe-ia a resolução de
fazer o povo voltar a Jerusalém para reconstruir o Templo. Essa profecia
causou-lhe tal admiração que, desejando realizá-la, mandou reunir na Babilônia
os principais dos judeus e anunciou que lhes permitia voltar ao seu país e
reconstruir a cidade de Jerusalém e o Templo, que eles não deveriam duvidar de
que Deus os auxiliaria nesse desígnio e que escreveria aos príncipes e
governadores de suas províncias vizinhas da judéia para que lhes fornecessem o
ouro e a prata de que iriam precisar e as vítimas para os sacrifícios.
Sempre
que os autores bíblicos mencionam Ciro, fica claro pelo contexto que os judeus
se alinharam deliberada e politicamente com o rei persa.
Dos
quatro conflitos imperiais, esse é o único em que o povo de Deus esteve
remotamente quietista. Mas, criticamente, os quietistas cristãos dos nossos
dias hesitariam diante da ideia de se aliarem a um governante como Ciro. Na
igreja de hoje, fazer conscientemente uma aliança com qualquer líder político
não cristão seria visto pelos quietistas como uma ação inerentemente política
e, portanto, em tensão com a não agência pietista da igreja.
Em contraste, Dietrich Bonhoeffer apelou
explicitamente à Igreja para fazer alianças de conveniência semelhantes às de
Ciro com certas forças não cristãs. Bonhoeffer usa o termo “restritor” para se
referir a forças politicamente conservadoras que, embora não cristãs, se opõem
ao totalitarismo do secularismo ocidental. Em seu livro intitulado “Ética”,
Bonhoeffer escreveu que “o restritor, a força da ordem, vê na Igreja um
aliado e, quaisquer outros elementos de ordem que possam permanecer, procurará
um lugar ao seu lado”. Embora a Igreja nunca deva permitir ser definida por
reacionários não cristãos, advertiu ele, “ela não rejeita aqueles que vêm até
ela e procuram colocar-se ao seu lado”.
O Papel do Desafio Ativo no Conflito Escatológico
No
segundo conflito, com o ambivalente Império Persa pós Ciro, o povo de Deus está
em posição de se envolver abertamente na defesa política e no desafio ativo.
Esse processo começa em Neemias 4-5, quando Neemias obtém apoio para a
reconstrução dos muros de Jerusalém através da defesa política na corte persa
em Susã. Esdras 4-5 descreve então como os judeus desobedeceram repetidamente as autoridades imperiais persas durante a reconstrução do Templo.
Como Neemias nos diz em Neemias 4:18, “E os edificadores cada um trazia a sua
espada cingida aos lombos, e edificavam; e o que tocava a trombeta estava junto
comigo”. Neemias 4:9 é uma refutação particularmente adequada ao pietismo: “Porém
nós oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda contra eles (inimigos), de dia e
de noite, por causa deles”. Deus, como sempre, faz do seu povo coparticipante
na oposição à opressão política.
O
terceiro conflito introduz, pela primeira vez, um contraste ideológico coerente
com o povo de Deus. O rei helenístico Antíoco IV não vê Judá apenas como um
território a ser governado. Em vez disso, ele vê o judaísmo como uma visão de
mundo, como uma ameaça intelectual. Como escreveu o autor de 1 Macabeus
1:41-43, Antíoco declarou: “Então o rei Antíoco publicou para todo o reino um
edito, prescrevendo que todos os povos formassem um único povo e que
abandonassem suas leis particulares. Todos os gentios se conformaram com essa
ordem do rei, e muitos de Israel adotaram a sua religião, sacrificando aos
ídolos e violando o sábado”. Um grande número de judeus acatou Antíoco,
reunindo-se para adotar costumes e crenças culturais seculares e helenísticas.
No entanto, outros judeus permaneceram firmes, apegados à sua antiga fé.
Como
esse remanescente religioso permaneceu refratário, Antíoco passou a detestar o
judaísmo como uma religião preconceituosa e atrasada. Para desenraizar à força
os judeus religiosos, Antíoco proibiu a circuncisão e outros costumes judaicos,
obrigando-os às práticas religiosas gregas. Ele até sacrificou um porco dentro do
Templo de Jerusalém para pisotear e degradar a religião judaica.
Essas
ações desencadearam a revolta reacionária dos Macabeus, que estabeleceu a
Judeia Asmoneia independente, restaurou a santidade do Templo e fez retroceder
dramaticamente o relógio da globalização secularizante no mundo judaico. Foi
essa revolta que deu origem à sociedade judaica profundamente religiosa que
encontramos no Novo Testamento.
Ao
mesmo tempo, a Revolta dos Macabeus prefigurou o início do combate escatológico
do próprio Jesus. Diz-se que tanto Jesus como Matatias, o pai dos Macabeus,
ardiam de zelo - uma referência ao Salmo 69:9, “Pois o zelo da tua casa me
devorou, e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim”. E tanto Jesus
como os Macabeus purificaram abnegadamente o Templo de Jerusalém da impureza.
O
quarto império é o mais poderoso e temível da série. Como escrito em Daniel
7:23, “Disse assim: O quarto animal será o quarto reino na terra, o qual será
diferente de todos os reinos; e devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a
fará em pedaços”. O antigo Império Romano poderia ser tanto o quarto império em
Daniel como a Grande Cidade de Apocalipse 17-19.
O
quarto conflito corresponde à grandeza de Roma, tanto na sua escala como na sua
gravidade. Na Revolta dos Macabeus, o povo da aliança de Deus conseguiu
libertar-se regionalmente do jugo de um império mundial. Mas depois da
conversão de Constantino, o povo de Deus foi capaz de agir como uma força
geopolítica e militar mundial.
Como
dito anteriormente, ainda em 394 d.C., a antiga elite pagã de Roma continuava a
desfrutar de poder real no Império Ocidental, centrado em Roma, com o
Cristianismo desfrutando de maior predominância no Império Oriental. Na Batalhado Frígido, porém, um exército explicitamente cristão enfrentou os ocidentais,
em grande parte, formado por pagãos, e os derrotou milagrosamente. O padre da
igreja, Ambrósio de Milão, mentor de Agostinho e um importante ator político na
corte imperial oriental, teve uma interpretação, decididamente, pouco pietista
dessa batalha. Ele identificou as forças orientais vitoriosas como “o povo
santo de Deus”.
O Saque de Roma e a Queda da Grande Cidade
Em
cada um dos quatro conflitos descritos acima, o conflito com o povo de Deus
está intimamente associado à queda final do império correspondente. O quarto conflito
não é diferente. Se o confronto da montanha com o ídolo é sintetizado na
Batalha do Frígido em 394 DC, então essa batalha foi logo seguida pela
realização da visão de João: um apocalipse fumegante que se abateria sobre a
Cidade Eterna.
Apocalipse
17-19 deixa poucas dúvidas de que descreve não apenas a dissolução do poder
imperial de Roma, mas o cataclismo da própria cidade. A visão de João, portanto,
corresponde mais diretamente ao saque de Roma em 410 d.C. Esse saque enviou uma
onda de choque apocalíptica por todo o mundo: como escreveu Jerônimo após o
acontecimento, “o mundo inteiro pereceu numa cidade”. Além das consequências
políticas, o ataque também provocou um reordenamento econômico imediato do
império.
Essas semelhanças não são tanto evidências de qualquer leitura específica da visão de João, mas são evidências arrepiantes de que as visões de João eram precisas. Mesmo que João estivesse profundamente sintonizado com os padrões cíclicos da história, supor que Roma sofreria qualquer saque devastador teria exigido um palpite de muita sorte. Existem inúmeras maneiras pelas quais a profecia de João poderia facilmente ter sido falsificada à medida que a história se desenrolava. Para fins de ilustração, vamos considerar dois.
Primeiro, em vez de sofrer qualquer
saque de importância global, a Cidade Eterna poderia primeiro ter se
enfraquecida até à irrelevância. Vamos supor, para fins de argumentação, que
qualquer cidade outrora grande provavelmente será saqueada mais cedo ou mais
tarde. Ainda assim: se Roma tivesse decaído na obscuridade antes do saque
ocorrer, então não se poderia dizer que os mercadores do mundo tivessem
lamentado ruidosamente a sua queda.
Para
fazer uma analogia aproximada, Roma poderia ter sofrido o destino final de
Constantinopla, que viu o seu império diminuir e desaparecer. Embora a Queda de Constantinopla possa ter sido lamentada pelos
mercadores, seria claramente falso dizer que Constantinopla governava muitas
nações e línguas no momento do seu saque, como fizera a Grande Cidade. Se um
pretenso João tivesse profetizado contra Constantinopla no século V dC, ele
poderia facilmente ter errado o alvo por uma ampla margem.
Em
segundo lugar, Roma poderia ter caído e sido imediatamente sucedida por um quinto
reino mundial sucessivo, tal como um novo império gótico ou huno. Isso teria
falsificado tanto Daniel como Apocalipse, cada um dos quais previu, que o quarto
império seria seguido pela ausência temporária de qualquer império desse tipo
no cenário mundial.
Josefo,
embora provavelmente não fosse um leitor de João, sabia muito bem através de
Daniel o que aguardava o Império Romano. Embora ele se vangloriasse de que as
profecias de Daniel são uma evidência poderosa da providência de Deus, Josefo é
cauteloso ao transmitir os detalhes das visões de Daniel ao seu público romano:
“Daniel explicou também
a Nabucodonosor o que significava a pedra, mas como o meu intento é narrar
somente coisas passadas, e não as que estão por se realizar, nada mais direi.
Se alguém desejar saber mais alguma coisa em particular, leia nas Sagradas
Escrituras o livro de Daniel.” (História dos Hebreus).

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