27 janeiro, 2026

Jesus Cristo foi crucificado numa cruz ou em um poste?

 


Em sua dissertação “Crucificação na Antiguidade”, Gunnar Samuelsson não questiona a veracidade histórica dos documentos do Novo Testamento; em vez disso, ele afirma que as gerações posteriores de cristãos interpretaram esses documentos erroneamente. Ele se assemelha aos estudiosos do Novo Testamento que argumentam, por exemplo, que Jesus não nasceu em um estábulo, mas em uma casa judaica, que tipicamente incluía um espaço para os animais sob o mesmo teto.

Quando Lucas diz que "kataluma" estava cheia, a palavra não significa “estalagem”, como tradicionalmente traduzido, mas “quarto de hóspedes”. Como o quarto de hóspedes já estava ocupado, José e sua família receberam espaço na parte da casa onde os animais eram alojados. Essa hipótese pode questionar as imagens do nascimento de Jesus às quais nos acostumamos nos presépios, mas não contesta a historicidade dos relatos dos Evangelhos. Pelo contrário, visa nos ajudar a compreendê-los com mais precisão. 

De forma semelhante, a tese do Dr. Samuelsson é que a terminologia grega usada no Novo Testamento, como "stauros" (cruz) e "stauroo" (crucificar), não nos permite inferir que Jesus foi crucificado em uma cruz, e não em algum outro tipo de estrutura. Esta poderia ter o formato das letras do alfabeto “T”, “X”, “Y” ou “I”. Nada disso põe em dúvida o fato da crucificação de Jesus (entendida como sua fixação em algum tipo de estrutura de madeira até a morte), nem a confiabilidade dos relatos evangélicos sobre sua execução.

Samuelsson está correto ao afirmar que as palavras relevantes possuem uma gama de significados. Contudo, estudos de palavras isoladas do contexto pouco esclarecem o significado de um texto. Por exemplo, imagine que você ouça no noticiário da manhã: “A polícia atirou no suspeito enquanto ele tentava fugir”. Se você fizer um estudo da palavra "atirou", descobrirá que alguém pode ter sido atingido por uma arma de fogo, um arco e flecha, ou até mesmo um estilingue! Mas, quando analisada no contexto da reportagem, não há dúvida de que a palavra significa que o suspeito foi atingido por balas disparadas pelas armas dos policiais. Será, portanto, o contexto que determinará o significado de "stauros" em qualquer caso específico. 

Parte do problema em saber exatamente como Jesus foi crucificado reside no fato de termos pouquíssimas informações preservadas da antiguidade sobre como a crucificação era realizada. De fato, os relatos dos Evangelhos, que são notavelmente reservados em suas descrições do evento, são as descrições mais detalhadas que temos da crucificação no mundo antigo! Mas a descrição de Jesus carregando sua cruz é consistente com a prática romana de obrigar as vítimas a carregarem a trave transversal da cruz até o local da crucificação.

A fixação das mãos e dos pés de Jesus na estrutura de madeira é sugestiva. Em João 21:18-19, o tipo de morte que Pedro sofreria é prefigurado pelas palavras: “Estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”.


¹⁸ Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras.

¹⁹ E disse isto, significando com que morte havia ele de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me. (João 21:18,19).


O autor pagão do século II, Artemidoro, refere-se de forma semelhante a criminosos sendo “crucificados em um lugar alto e com as mãos estendidas” (Oneirocritica, Página 56 - versão em inglês). As mãos estendidas sugerem naturalmente uma extensão lateral. Artemidoro confirma isso quando afirma posteriormente: “Pois a cruz, como um navio, é feita de madeira e pregos, e o mastro do navio se assemelha a uma cruz.” (Oneirocritica, página 127 - versão em inglês).

A morte prefigurada de Pedro provavelmente é a crucificação, a mesma morte que seu Senhor sofreu. Jesus, portanto, provavelmente foi crucificado de maneira semelhante, com as mãos estendidas, o que descarta uma estrutura em forma de I. A placa com a acusação contra Jesus (um detalhe universalmente reconhecido como fundamento histórico) foi pregada na estrutura acima de sua cabeça, o que descarta estruturas em forma de T, X ou Y. Assim, os detalhes das narrativas da crucificação nos Evangelhos são todos consistentes com a compreensão tradicional de que Jesus foi crucificado em uma estrutura em forma de cruz.

Assim era a compreensão da Igreja primitiva sobre as narrativas da crucificação, como evidenciado pelas primeiras gravuras e pictografias da cruz, que remontam ao primeiro século. A dissertação de Samuelsson concentra-se exclusivamente na filologia e não leva em consideração a arqueologia ou a história da arte.









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