As Características do Milênio
No Apocalipse, o colapso da Grande Cidade é seguido pela inauguração do Milênio. Referências ao Milênio aparecem em Apocalipse 20:2-5, Daniel 2:44-45 e Daniel 7:22. O Milênio é caracterizado, e publicamente reconhecível, pelos seguintes elementos-chave:
- Seguirá cronologicamente a derrota ou dissolução do quarto império, que é a Grande Cidade.
- Satanás será incapaz de “enganar as nações”, o que significa que haverá um longo período em que a série de impérios mundiais terminará e nenhum novo império mundial surgirá.
- Esse período será caracterizado pelo domínio geopolítico da igreja.
- Contudo, o domínio da Igreja será, de alguma forma, uma negação da série anterior de impérios.
Algumas características adicionais também poderão ajudar a identificar o Milênio. Primeiro, em quatro pontos distintos em Apocalipse 20:2-5, essa era é identificada como um período de “mil anos”: daí o nome “Milênio”. Em segundo lugar, o Milênio é de alguma forma caracterizado pelo reinado dos mártires: “aqueles que foram decapitados pelo testemunho de Jesus e pela palavra de Deus”.
A igreja histórica - apesar de enfatizar a fisicalidade da Última Ressurreição - entendeu essa Ressurreição dos Mártires como não física. Agostinho, por exemplo, disse que aqueles ressuscitados em Apocalipse 20:4-5, “é claro, ainda não estão reunidos com seus corpos”, ao mesmo tempo em que se refere ao Juízo Final em Apocalipse 20:11-15 como “o dia da ressurreição do corpo.” Durante o Milênio, portanto, o papel dos mártires pode ser caracterizado como uma espécie de preeminência espiritual.
As opiniões dos pensadores cristãos medievais apoiam essa interpretação. Consideremos dois exemplos principais: Beda, um importante pensador da Baixa Idade Média, e Hildegarda, uma importante pensadora da Alta Idade Média.
Tanto Beda quanto Hildegarda acreditavam firmemente em uma Última Ressurreição física. Beda disse que todos os corpos, “mesmo aqueles que as profundezas engoliram, ou que a fera devorou, ressuscitarão”, enquanto Hildegarda enfatizou que os corpos dos mortos ressuscitarão em sua totalidade e gênero. No entanto, tanto Beda quanto Hildegarda acreditavam que eles próprios viviam durante o Milênio e, portanto, que uma Ressurreição espiritual dos Mártires já tinha ocorrido antes das suas próprias vidas.
Beda ensinou que o Milênio é “congruente com o tempo presente”. Da mesma forma, numa das suas visões proféticas, Hildegarda imaginou a história da igreja como larga no meio, mas estreita na parte superior e inferior, “como um arco puxado e pronto para disparar flechas”. Ela via a parte inferior como uma representação do início da igreja e a parte superior como uma representação da sua contração no “fim do mundo”. Hildegarda não achava, que estava vivendo no início desse processo: ela pensava que estava vivendo em algum lugar perto do meio.
Para esses dois importantes pensadores medievais, o reinado dos mártires já havia chegado e era, portanto, de um tipo não físico. Nas palavras de Beda, a igreja “reina com Cristo nos vivos e nos mortos”.
A Identificação do Milênio
Isso levanta a questão relacionada de como a escatologia medieval deveria ser classificada de acordo com as categorias modernas de “amilenialismo”, “pré-milenismo” e assim por diante. Quando um leitor cristão moderno vê que um pensador medieval acreditava ter vivido durante o Milênio, a tendência é classificar esse pensador como “amilenista” – sugerindo que o pensador rejeitou o Milênio como um período definido e sequencial.
No entanto, isso é simplesmente um recurso de princípios. Se o Milênio for realmente um período definido e sequencial, e esses pensadores simplesmente viveram durante esse período, o seu testemunho de que viveram durante o Milênio obviamente não contaria a favor de uma visão “amilenista”.
As pessoas modernas já dividem a história em três grandes épocas: a Antiguidade, a Idade Média e a Modernidade. Normalmente marcamos o início da Modernidade na época do Renascimento. Que evento singular caracteriza com mais frequência a transição da Antiguidade para a Idade Média? A queda cataclísmica e a dissolução do quarto império: a Grande Cidade.
A Idade Média foi caracterizada pela ausência de um sucessor imperial para Roma. Em vez disso, o que antes era um Estado único e vasto tornou-se uma colcha de retalhos de nações concorrentes. Para um observador pós-iluminista, essa descentralização do poder parece uma regressão ao primitivismo.
Ao mesmo tempo, a Idade Média também foi caracterizada pelo domínio geopolítico da igreja. A Igreja não só existia como um poder soberano por direito próprio - com o seu próprio território, ordens militares, hospitais, e assim por diante - mas também era capaz de agir como uma restrição negadora ao poder do Estado secular. O acontecimento do Caminho para Canossa constitui a ilustração última e arquetípica desse poder restritivo. Em 1076, Gregório VII excomungou o imperador Henrique IV por tentar controlar as nomeações internas da Igreja. De repente, incapaz de administrar seu império, Henrique IV foi forçado a viajar para a Itália para implorar o perdão de Gregório VII, onde esperou durante três dias vestido de saco do lado de fora de uma fortaleza em Canossa. Dessa forma, o domínio da Igreja era algo equivalente a mais do que um quinto do império: era uma negação afirmativa da série de impérios que terminara com Roma.
A Idade Média também é entendida como sendo de aproximadamente mil anos. Não pretendo sugerir que o Milênio foi uma sequência perfeita de dez séculos que vai de 410 a 1410: “mil” é um número arquetípico. Mas, deixando a escatologia totalmente de lado, imagine que decidíssemos perguntar às pessoas na rua: “Quanto tempo durou a Idade Média?”. Assim que encontrássemos alguém que tivesse alguma familiaridade com a história, essa pessoa responderia: “mil anos”. Em outras palavras, a Idade Média foi um milênio cronológico exatamente da maneira como João parece ter usado esse conceito.
É surpreendente que, ao olharmos para trás, para o grande movimento da história, vejamos que a queda de Roma, que João profetizou, deu início a uma era reconhecível de “mil anos”. O espanto aumenta e aprofunda-se quando considera-se, que esses mil anos foram marcados tanto pela ausência de um império sucessor estável como pelo domínio geopolítico da Igreja.
A ideia de que as profecias da Grande Cidade e do Milênio foram cumpridas parece quase inspiradora demais para ser reconfortante. Há um constrangimento para além da confiança intelectual muitas vezes procurada na apologética e para uma admiração que se aproxima do medo.
Compreendendo Mal o Milênio
Mas será que pode ser tão simples assim? Uma parte de mim suspeita que a própria obviedade dessa interpretação seja a prova de que ela deva estar incorreta. Quando interrogo essas dúvidas, percebo que não passam de um emaranhado de pressupostos pós-iluministas, que absorvi ao viver no Ocidente secular. Afinal, todos os comentaristas da Bíblia concordam que algumas profecias foram cumpridas.
A Revolta dos Macabeus é uniformemente entendida como o cumprimento de Daniel 8. Se eu fosse um judeu que viveu em 164 aC, quando o Templo foi rededicado no primeiro Hanukkah, teria sido epistemicamente humilde demais para aceitar que estava testemunhando o verdadeiro cumprimento de uma profecia? Ou teria me permitido reconhecer esse cumprimento público das promessas de Deus?
É claro que há muitas razões pelas quais uma pessoa moderna pode sentir repulsa pela ideia de que a Idade Média foi o Milênio. Algumas dessas razões, como por exemplo, o restauracionismo, não serão abordadas aqui, mas é necessário abordar uma dessas razões: o fato de que a Idade Média não ter sido, de forma alguma, uma época perfeita.
Que houve pecado, sofrimento e morte na Idade Média é obviamente verdade. O problema com essa objeção é que o próprio Milênio não é uma era aperfeiçoada. Se os cristãos contemporâneos assumem o contrário, é provável que seja porque os nossos termos escatológicos - “pré-milenista”, “pós-milenista”, “amilenista” e assim por diante - dão erroneamente a impressão de que o Milênio é de alguma forma o objetivo final da história da humanidade.
Na verdade, parece que o Milênio esteja mais para o meio da história. É seguido por uma série distinta de eventos cronológicos, incluindo um “Pequeno Período” em Apocalipse 20:7-8, o Arraial dos Santos e a Última Batalha em 20:9-10, a Última Ressurreição e o Juízo Final em 20:11-15, e o Novo Céu e a Nova Terra em 21-22.
Em nenhum momento é prometido ao leitor de Daniel ou Apocalipse que o Milênio será um estado aperfeiçoado. Pelo contrário, o Milênio é seguido por um “Pouco Tempo”, em que Satanás reúne um exército cujo número “é como a areia do mar”. A derrota final de Satanás ocorre quando os exércitos de Satanás tentam sitiar “o arraial dos santos” em Apocalipse 20:9-10: um evento às vezes chamado de Última Batalha. Só então, algum tempo depois do Milênio, é que Deus imola decisivamente Satanás e as suas forças. Se o Milênio fosse um estado quase celestial, nada dessa narrativa subsequente faria qualquer sentido.
Ao descrever o Milênio, Daniel 7:22 diz simplesmente que, após a destruição do quarto império, “chegou o tempo em que os santos possuíram o reino”. No contexto do resto de Daniel 7, isso significa simplesmente que o povo de Deus negará a série de impérios eurasianos e possuirá ele próprio o domínio geopolítico. Isso não implica que os santos o farão sem pecado.
Existe uma saída de emergência que nos permita sair dessa interpretação e recolocar o Milênio no futuro? Uma possibilidade é dizer que a batalha em Apocalipse 19, que parece ser uma representação da derrota da série de impérios pelo Filho do Homem, é na verdade um evento cronológico adicional. Talvez, essa batalha seja um conflito temporal prolongado que liga a destruição da Grande Cidade ao início de um futuro Milênio. No entanto, isso ainda exigiria que a profecia de um Milênio tivesse uma espécie de duplo cumprimento. Não há como escapar do fato de que um período reconhecidamente milenar, sem império sucessor, seguiu-se imediatamente à destruição da Grande Cidade e do Quarto Império.
O Problema com o Pós-Milenismo Linear
Hoje, a maioria dos crentes adotaram uma visão escatológica, que poderia ser chamada de “pós-milenismo linear”. Essa visão pode ser resumida na afirmação de que “tudo ficará cada vez melhor daqui em diante”. O pós-milenismo linear na verdade não oferece nenhuma interpretação muito específica do Milênio ou de qualquer outro evento escatológico. Em vez disso, é mais um compromisso genérico com a noção de que todas as coisas irão melhorar progressivamente.
A visão aqui esboçada é tecnicamente uma forma de “pós-milenismo”, na medida em que a Segunda Vinda de Cristo é obviamente posterior ao Milênio. O problema com o pós-milenismo linear é a suposição de que a história é algo como uma linha reta. Em nenhum momento da narrativa bíblica profética isso é verdadeiro. Pelo contrário, a narrativa profética é cíclica. E um dos seus ciclos diz respeito à ascensão e queda dos impérios mundiais: um ciclo que está predestinado a ocorrer novamente.
Em Apocalipse 20:8-9, somos avisados de que Satanás reunirá os seus exércitos desde os quatro cantos da terra. Esse não é um problema que possa ser evitado se o Milênio estiver no futuro. Se o Milênio está à nossa frente e não atrás, isso significa apenas que Apocalipse 20:8-9 está ainda mais afastado. Quando Isaías profetizou a Ezequias, em 2 Reis 20:16-19, que um desastre aconteceria ao seu reino num futuro distante, Ezequias regozijou-se dizendo: “A palavra do Senhor que falaste é boa”, pois ele pensou: “Haverá paz e segurança em meus dias”. É difícil que problemas distantes nos perturbem porque coisas distantes naturalmente parecem irreais. Mas o futuro será tão real quanto o presente, quando chegar.
O Futuro e a Vitória do Arraial dos Santos
É provável que haja vitórias significativas para a igreja mesmo antes de chegarmos à Última Batalha. A narrativa profética é sempre cíclica e expansiva, com muitos altos e baixos. Não é um progresso linear nem apenas uma longa derrota.
A própria existência do “arraial dos santos e da cidade amada” em Apocalipse 20:9 é um lembrete poderoso desse fato. Estou inclinado a interpretar o “arraial dos santos” em pelo menos um sentido parcialmente geográfico ou espacial. Mas seja como for que a frase deva ser entendida, ela certamente não sugere que os cristãos serão um povo miserável, que subsistirá à beira da morte. Em vez disso, sugere uma igreja que, embora talvez seja oprimida, ainda assim desfrute de autonomia, camaradagem e força.
Quando a Última Batalha chegar, será uma vitória gloriosa. Observe que, na série de quatro conflitos comentada anteriormente, a escalada e o grau do conflito aumentam a cada iteração. Em cada repetição do ciclo, acentua-se a atividade e o triunfo do povo de Deus sobre o império secular. Essa dinâmica parece concretizar-se no “Arraial dos Santos”, quando e onde quer que esteja.
O Novo Céu e a Nova Terra
É possível que aquilo que chamamos de a Última Batalha não seja a última aventura. Na visão de João, a batalha é seguida pela revelação de uma realidade inteiramente nova em Apocalipse 21-22. Em Apocalipse 21:24-27, é dito: “os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra, e as suas portas nunca se fecharão durante o dia porque ali não haverá noite”. Essas imagens demonstram uma atividade vigorosa em vez de simplesmente êxtase.
É impressionante o fato de a Nova Jerusalém ser, literalmente, uma estrutura cúbica de dimensões estratosféricas. João vê a cidade descendo do céu. No entanto, embora muitos leitores tenham assumido que Ela repousaria na Terra, nunca nos é dito que isso aconteça.
Um leitor moderno provavelmente insistirá que todas as características da Nova Jerusalém devem ser entendidas num sentido puramente figurativo e espiritual. A Nova Jerusalém parece, pelo contrário, refletir um vislumbre da futura conquista cósmica dos santos de um universo pronto para ser iluminado com a glória de Deus. A descrição dinâmica do Novo Céu e da Nova Terra aponta para uma nova revelação, uma nova história e uma nova aventura numa escala muito maior do que podemos imaginar agora.
Na interação de Jesus com Marta em João 11. Quando Jesus chegou a Betânia para ressuscitar Lázaro, o irmão de Marta; Marta o confrontou (João 11:23-26):
Disse-lhe Jesus: Teu irmão há de ressuscitar.
Disse-lhe Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá;
E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?
Quando Jesus diz “Teu irmão há de ressuscitar”, os cristãos sabem que Jesus está falando no sentido mais claro possível: ele está prestes a ressuscitar Lázaro dentre os mortos. Mas parece que Marta tem medo de aceitar isso. Ferida pela dor da morte do irmão, Marta preferiu agarrar-se a uma esperança abstrata em vez de uma esperança concreta.
O abstrato pode parecer mais seguro do que o concreto, o específico. As pessoas religiosas têm sido frequentemente atingidas pelo engano das falsas profecias. Em resposta, recuam diante da ideia de que a religião possa produzir falsas afirmações, procurando conforto numa fé demasiadamente vaga para nos falhar. Mas Jesus não é vago. Suas promessas são surpreendentemente diretas e totalmente específicas - como ele deixou claro para Marta: “Quem acredita em mim, ainda que morra, viverá, e todo aquele que vive e acredita em mim, nunca morrerá”.

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