22 outubro, 2023

A Escatologia e a Geopolítica nas Escrituras – Parte 1



Grandes segmentos da Bíblia enfocam a escatologia. Então, por que muitos fingem que essas passagens não existem?

O Livro do Apocalipse começa com uma bênção tão única quanto o próprio livro:


Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo. (Apocalipse 1:3)


Pode parecer uma maneira confusa de iniciar um livro do Novo Testamento; afinal, Paulo escreveu que “toda a Escritura é proveitosa”. No entanto, nem mesmo os Evangelhos começam com uma bênção para aqueles que os guardam. Por que o Apocalipse é diferente?

João responde essa pergunta no mesmo versículo: aqueles que guardam a sua visão são abençoados porque “o tempo está próximo”.


Em Provérbios 3:13 é dito que:

Bem-aventurado o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento;


Em Apocalipse há uma bem-aventurança muito mais específica. João não está dizendo que o leitor será abençoado simplesmente porque esta é a Palavra de Deus. João está dizendo que, se estudarmos a visão revelada, reconheceremos o que estará acontecendo, quando esses eventos começarem a ocorrer.


A Bíblia nos Convida para Estudar e Compreender a Escatologia.

A Bíblia nos encoraja repetidamente a interpretar e compreender a profecia escatológica. A declaração de João de que devemos - guardar o que está escrito em Apocalipse, pois o tempo está próximo - seria uma conclusão estranha para João escrever se ninguém fosse capaz de reconhecer nada em Apocalipse até depois de tudo ter terminado de ocorrer.

João não está sozinho: quando Daniel tem visões escatológicas, ele repetidamente pede esclarecimentos e interpretação.


Em Daniel 7:16, ele escreve que:

Cheguei-me a um dos que estavam perto, e pedi-lhe a verdade acerca de tudo isto. E ele me disse, e fez-me saber a interpretação das coisas.


E adiante, em Daniel 7:19, ele diz:

Então tive desejo de conhecer a verdade a respeito do quarto animal, que era diferente de todos os outros, muito terrível, cujos dentes eram de ferro e as suas unhas de bronze; que devorava, fazia em pedaços e pisava aos pés o que sobrava;


Como as perguntas de Daniel são recebidas pelos anjos? Se os anjos concordassem com os cristãos ocidentais modernos, que muitas vezes não acreditam no sobrenatural, ou no mundo espiritual, poderíamos esperar que esses mesmos anjos repreendessem Daniel por tentar compreender o futuro. Em vez disso, quando Daniel pede por compreensão, esta lhe é dada. Em resposta à sua pergunta sobre o quarto animal, Daniel recebe mais informações, que fornecem mais detalhes sobre o quarto animal. Nesse ponto, verificamos uma consistência com a promessa relatada em Tiago 1:5:


E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.


Mais adiante, em Daniel 10:12, o anjo Gabriel elogia Daniel por sua busca pelo entendimento:

Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras.


Observe que o anjo Gabriel elogia Daniel por buscar entendimento com humildade. É evidente, então, que Gabriel não confunde desejo de compreender as profecias com arrogância. Gabriel também não diz a Daniel para ser menos intelectual ou para ser mais simplório em sua fé, ou que ele deveria ser apático quanto ao significado das visões. Em vez disso, Gabriel enfatiza repetidamente a importância do “entendimento”, dizendo:


E me disse: Daniel, homem muito amado, entende as palavras que vou te dizer, e levanta-te sobre os teus pés, porque a ti sou enviado. E, falando ele comigo esta palavra, levantei-me tremendo. (Daniel 10:11).


As Profecias Informam um Sentido Particular Antes dos Acontecimentos que as Descrevem.

Grande parte da clareza da visão profética em Daniel 8 vem dos apartes interpretativos de Gabriel a Daniel. Em Daniel 8:20-21, Gabriel explica:


Aquele carneiro que viste com dois chifres são os reis da Média e da Pérsia,

Mas o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei;


Contudo, a interpretação dos anjos não se limita a Daniel 8. O mesmo tipo de comentário aparece em Apocalipse 17:8-18, quando, por exemplo, um anjo explica a João - “Isto exige uma mente com sabedoria: as sete cabeças são sete montanhas nas quais a mulher está sentada… a mulher que você viu é a grande cidade que tem domínio sobre os reis da Terra”.

Essas “notas de rodapé” reveladas pelos anjos não existiriam se a escatologia fosse concebida para ser confusa e obscura. Pelo contrário, os anjos oferecem essas explicações precisamente para nos ajudar a compreender o significado prático e real dessas profecias.

As profecias de Isaías também ilustram a natureza surpreendentemente simples da profecia bíblica. Isaías predisse, que Deus salvaria Jerusalém da Assíria e, naquela mesma noite, um anjo apareceu e matou 185.000 assírios. (2 Reis 19).

Não há dúvida sobre o principal objetivo das profecias de Isaías, que descrevem eventos compreensíveis, reconhecíveis, públicos e geopolíticos. Por exemplo, Ciro fez mais do que cumprir as profecias de Isaías em algum sentido figurado, como reconstruir espiritualmente a Jerusalém na sala do trono no céu. Em vez disso, Ciro fez o que o público de Isaías teria imaginado imediatamente quando ouviu as profecias de Isaías: conquistar a Babilônia, libertar Judá e restabelecê-lo em sua terra natal.


Uma Forma Questionável e Conveniente de Interpretar as Escrituras é a Seguinte: “O que Interessa é que Deus está no Comando!”.

Muitos cristãos antiescatológicos usam o slogan “Deus está no comando”, apenas para dizer que no final, tudo vai dar certo. Aqueles que são céticos em relação à escatologia, aparentemente, acreditam que o seu ceticismo é apenas uma afirmação profunda da soberania de Deus. A ambiguidade nebulosa não aponta o caminho para a soberania de Deus: o conhecimento sim.

Imagine um cristão, a quem um buscador da palavra de Deus pediu que explicasse o significado de 2 Coríntios 5:17


Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.


Suponha, agora, que o cristão apenas responda: “Nunca me preocupo em entender esse tipo de coisa; a única coisa que realmente precisamos saber é que Deus está no comando”. Provavelmente não aplaudiríamos esse cristão pela sua humildade ou compreensão madura das Escrituras. Pelo contrário, nós o criticaríamos com razão por ser descomprometido e apático em relação à Palavra de Deus.

Se Deus apenas quisesse que soubéssemos que Ele está no comando, a Bíblia provavelmente não conteria dezenas de milhares de versículos sobre uma vasta gama de tópicos diversos. Todas as escrituras são proveitosas, incluindo passagens sobre escatologia. No entanto, a escatologia envolve uma bênção não encontrada em nenhum outro lugar. Ela tem algo a mais para ensinar-nos do que uma simples mensagem genérica sobre soberania, que o resto da Bíblia já transmite - e essa escatologia revelada não foi escrita para que os cristãos a ignorassem. Foi-nos dada para estudarmos e compreendê-la.

A profecia escatológica também é mais do que um gênero entre muitos. É o seguimento em torno do qual toda a narrativa bíblica é construída, culminando com o casamento de Cristo com a Nova Jerusalém: a Noiva, a Esposa do Cordeiro. Se colocarmos nossos corações para entendê-la e nos humilharmos diante de nosso Deus, então Deus, que dá generosamente a todos que o pedem e sem censura, nos dará compreensão - ainda que alguns elementos só possam ser revelados no seu devido tempo.



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