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12 de outubro de 2026

Ninrode: O Homem, o Mito e a Memória de Babel - Parte 2 - (Final)


Estela de pedra mesopotâmica com relevo de divindade alada segurando um cetro luminoso diante da árvore da vida e escrita cuneiforme.


Parte 2 – Ninrode e a Tradição

Ato VIII: Pseudo-Fílon e a Fornalha


Uma das primeiras testemunhas importantes para a associação entre Ninrode e Abraão é o Livro das Antiguidades Bíblicas, atribuído tradicionalmente a Pseudo-Fílon. Van der Toorn e van der Horst observam que, em Liber Antiquitatum Biblicarum 4–6, encontramos uma tradição desenvolvida sobre Ninrode. Em 6, Abraão se recusa a participar do projeto da grande torre e acaba sendo lançado numa fornalha por ordem de Ninrode, mas Deus o preserva.

Esse dado é importante porque demonstra que a associação entre Ninrode, Babel e a fornalha de Abraão já circulava em literatura judaica antiga. Mas existe uma nuance fundamental: Pseudo-Fílon não é Gênesis. Trata-se de uma expansão narrativa posterior, provavelmente do século I d.C., que interpreta e amplia elementos da tradição bíblica.

Van der Toorn observa ainda que o motivo da fornalha possui antecedentes anteriores nos Jubileus, onde Ur dos Caldeus já podia ser relacionado à ideia do fogo, embora Ninrode ainda não apareça nesse episódio. Isso demonstra que diferentes tradições foram sendo progressivamente combinadas até produzir a narrativa posterior de Ninrode como perseguidor de Abraão.


Ato IX: Josefo e a Fusão Entre Ninrode e Babel


Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas 1.113–116, representa uma etapa decisiva. Josefo apresenta Ninrode como um homem poderoso que persuadiu os habitantes de Sinear a atribuírem sua prosperidade à própria força, e não a Deus. O governo transforma-se em tirania, e Ninrode passa a ser o principal instigador da construção da torre.

Josefo acrescenta uma motivação que não está em Gênesis 11. Segundo sua narrativa, Ninrode deseja construir uma torre suficientemente elevada para escapar de uma eventual nova inundação e, dessa maneira, desafiar o poder de Deus. A torre é construída com tijolos e betume; depois, Deus confunde as línguas e o projeto é interrompido.

Aqui podemos ver claramente a transformação literária: Josefo funde o Ninrode de Gênesis 10 com os construtores de Gênesis 11. O resultado é um personagem muito mais desenvolvida do que a encontrada no texto hebraico.

Isso não torna Josefo menos importante. Pelo contrário: ele é uma testemunha fundamental da história da interpretação de Ninrode. Mas sua narrativa deve ser classificada como tradição judaica do Período do Segundo Templo, e não como uma informação histórica adicional sobre o que aconteceu no período primordial.


Ato X: Jubileus e a Expansão da Torre


O Livro dos Jubileus também amplia significativamente a narrativa de Babel. Em Jubileus 10:18–27, a construção da cidade e da torre é situada na terra de Sinear; os construtores dizem que subirão por ela “até o céu”; o texto acrescenta detalhes sobre os tijolos, o betume, a duração da construção e a subsequente confusão das línguas.

Entretanto, há uma cautela importante: Jubileus 10 não precisa ser usado como prova de que Ninrode construiu Babel. O capítulo desenvolve a narrativa da torre, mas o personagem Ninrode não é o centro dessa passagem. Van der Toorn destaca justamente que a tradição sobre Ninrode se desenvolveu por meio da combinação progressiva de diferentes elementos da memória bíblica e judaica.

Isso é importante para nossa metodologia. Uma fonte pode ampliar Babel sem necessariamente resolver a identidade de Ninrode. Outra pode associar Ninrode à torre sem fornecer evidência histórica independente. As tradições precisam ser lidas em sua sequência de desenvolvimento, não como se todas fossem testemunhos independentes do mesmo acontecimento.


Ato XI: O Targum Transforma Ninrode em Rebelde


Os targuns oferecem uma janela particularmente clara para a transformação do personagem. O Targum Pseudo-Jônatas traduz Gênesis 10:8 dizendo que Ninrode começou a tornar-se poderoso “em pecado” e a rebelar-se diante do Senhor. Em 10:9, ele é chamado de “poderoso rebelde diante do Senhor”.

O mesmo targum amplia ainda mais a narrativa em Gênesis 10:11, afirmando que Ninrode deixou as cidades anteriores porque não quis participar do conselho da geração da divisão e passou a reinar na Assíria, onde construiu outras cidades. A tradução aramaica, portanto, já está interpretando o texto por meio de uma tradição desenvolvida.

Van der Toorn observa que essa tradição chegou a produzir leituras diferentes e até contraditórias sobre Ninrode. Algumas fontes o apresentam como rebelde; outras preservam traços de uma imagem positiva, inclusive tradições em que ele combate os construtores da torre. A própria tradição de Ninrode não é monolítica.

Isso é importante porque impede uma simplificação comum: não existe uma única “lenda de Ninrode” transmitida intacta desde a Antiguidade. Existe uma história de interpretações, algumas convergentes e outras divergentes.


Ato XII: Ninrode e Abraão na Tradição Rabínica 


A tradição rabínica posteriormente tornou explícito o confronto entre Ninrode e Abraão. Em (pode estar em inglês) Bereshit Rabbah (בראשית רבה) ou Gênesis Rabbah 38:13, Terá entrega Abraão a Ninrode, que exige que ele adore o fogo. Abraão responde mostrando que água apaga fogo, nuvens carregam água, vento dispersa nuvens e, portanto, nenhum desses elementos pode ocupar o lugar do Criador. Ninrode então ordena que Abraão seja lançado na fornalha.

Essa narrativa é teologicamente poderosa porque transforma Ninrode e Abraão em arquétipos opostos: Ninrode representa o poder que exige submissão; Abraão representa a fé que reconhece a soberania do Criador. Mas o episódio não pertence ao relato de Gênesis. É uma elaboração rabínica posterior.

Van der Toorn mostra que a tradição da fornalha passou por diversas etapas. Pseudo-Fílon já apresenta Ninrode como responsável pela tentativa de matar Abraão pelo fogo; Josefo, seu contemporâneo, não apresenta essa confrontação; posteriormente, os targuns e os midrashim desenvolvem a história em formas ainda mais elaboradas.

Essa evolução é precisamente o que torna a tradição historicamente interessante. Ela mostra como Babel, idolatria, Ur dos Caldeus, rebelião e Abraão foram sendo conectados em uma única narrativa teológica.


Ato XIII: Três Hipóteses, Uma Figura Enigmática


Ao reunir a pesquisa, precisamos evitar uma falsa escolha entre “Ninurta” e “Sargão”. As propostas respondem a perguntas parcialmente diferentes. Van der Toorn procura um protótipo mesopotâmico e considera que a combinação de atributos aponta fortemente para Ninurta. Levin procura explicar a formação histórica da figura através da combinação das tradições de Sargão e Naram-Sin. Jones investiga a memória literária de Sargão no ambiente neoassírio do século VII a.C.

Essas hipóteses não possuem o mesmo grau de aceitação nem precisam ser mutuamente exclusivas. É possível que diferentes tradições mesopotâmicas tenham contribuído para a formação de uma figura bíblica posterior. Mas isso não pode ser afirmado como fato sem evidência adicional. O rigor está justamente em preservar a diferença entre paralelo, influência provável e identificação histórica.

O que permanece seguro é a localização de Ninrode no mundo mesopotâmico e sua associação literária com Babel, Ereque, Acade e Assíria. O que permanece hipotético é a reconstrução do processo pelo qual esses elementos foram reunidos no personagem.

Não possuímos uma inscrição mesopotâmica que diga: “Ninrode era Ninurta”, “Ninrode era Sargão” ou “Ninrode era Naram-Sin”. O que possuímos são conjuntos de evidências que permitem formular modelos explicativos. É exatamente por isso que Christopher Jones ainda inicia seu estudo de 2022 afirmando que não existe consenso sobre a identificação histórica ou mitológica de Ninrode.


Ato XIV: O Padrão de Babel


É somente depois de separar essas camadas que podemos avançar para uma leitura teológica do chamado “padrão de Babel”. Gênesis 11 apresenta uma humanidade concentrada em Sinear, empenhada em construir uma cidade e uma torre, buscando “fazer um nome” para si mesma e evitando a dispersão sobre a terra. O texto apresenta, portanto, centralização, identidade coletiva, monumentalização e autonomia humana como elementos importantes da narrativa. (Gn 11:1–9).

Teologicamente, a rebelião de Babel reside na tentativa de unificar a humanidade sob um poder centralizado que busca autossuficiência existencial e política, rejeitando o mandato divino de encher a terra. É o esforço humano de tocar o céu por esforço próprio, substituindo a adoração a Deus pela autoglorificação do Estado ou do coletivo.

Mas devemos resistir à tentação de transformar essa passagem em uma fórmula automática para interpretar qualquer estrutura política moderna. Gênesis 11 não fala de inteligência artificial, governo mundial, tecnocracia, moedas digitais ou sistemas contemporâneos. Essas aplicações pertencem a uma etapa posterior de interpretação teológica.

O que podemos fazer legitimamente é perguntar se determinados padrões históricos de concentração de poder podem ser comparados, por analogia, aos temas de Babel. A comparação é possível; a identificação automática não é. Essa distinção é especialmente importante em um estudo que pretende unir exegese, história e análise geopolítica.

Assim, embora o texto bíblico não cite ferramentas modernas, o espírito de Babel ecoa na atualidade. Ele se faz presente na ambição de sistemas globais que utilizam a padronização cultural, a vigilância e a centralização de poder como visto na Torre de Babel para moldar o comportamento humano; operando sob a premissa de que a humanidade pode resolver suas maiores crises de identidade, segurança e destino sem qualquer referência ao próprio Deus Todo-Poderoso.


Ato XV: O Veredito da Pesquisa


O resultado da investigação deste dossiê é paradoxal. Quanto mais estudamos Ninrode, mais percebemos que não possuímos uma biografia histórica segura dele. Entretanto, quanto mais investigamos suas tradições, mais clara se torna a enorme importância cultural do personagem.

O Ninrode bíblico é pequeno em extensão textual, mas gigantesco em sua recepção histórica. Gênesis fornece um poderoso caçador associado aos grandes centros da Mesopotâmia. A tradição mesopotâmica oferece paralelos com Ninurta e com a memória de reis imperiais. A literatura judaica amplia a figura. Josefo transforma Ninrode em protagonista de Babel. Os targuns enfatizam sua rebelião. A tradição rabínica o coloca diante de Abraão.

Van der Toorn e van der Horst mostraram que a melhor maneira de estudar Ninrode não é simplesmente repetir a tradição, mas reconstruir suas diferentes camadas. Ninrode antes da Bíblia, Ninrode em Gênesis e Ninrode depois da Bíblia não são exatamente o mesmo personagem literário.

A hipótese de Ninurta continua sendo uma das mais importantes propostas para explicar a formação do personagem. A hipótese de Sargão e Naram-Sin, de Levin, oferece outro modelo. A proposta de Jones acrescenta uma possível dimensão neoassíria e imperial. Nenhuma delas deve ser transformada em dogma histórico.


Epílogo: O Homem, o Mito e a Memória


Quando retiramos de Ninrode tudo aquilo que foi acrescentado posteriormente, encontramos um personagem enigmático: descendente de Cuxe, poderoso na terra, famoso como caçador e associado a Babel, Ereque, Acade, Sinear e Assíria.

Quando recolocamos as tradições, Ninrode cresce novamente. Ele se torna o rebelde, o tirano, o construtor de Babel, o perseguidor de Abraão e o símbolo do poder humano que se levanta contra Deus. Mas essa segunda imagem não deve ser confundida com a primeira. Ela é o resultado de séculos de interpretação.

É justamente aí que Ninrode se torna fascinante. Ele não é apenas um personagem de Gênesis; tornou-se uma memória cultural através da qual diferentes gerações refletiram sobre poder, império, cidade, idolatria, centralização e Babel.

Talvez seja essa a melhor maneira de encerrar a investigação: Gênesis fornece o personagem; a Mesopotâmia fornece o ambiente cultural; a pesquisa histórica procura possíveis memórias por trás do personagem; a literatura judaica amplia sua biografia; e a tradição transforma Ninrode em arquétipo.

O rigor exige que cada uma dessas camadas permaneça identificável. Quando confundimos tradição com Escritura, produzimos lenda apresentada como exegese. Quando distinguimos texto, evidência, hipótese e tradição, a figura de Ninrode se torna ainda mais interessante.


Em síntese, o que podemos afirmar?

  • Gênesis 10:8–12 apresenta Ninrode como descendente de Cuxe, poderoso na terra e poderoso caçador, associado a Babel, Ereque, Acade, Sinear e Assíria.
  • Gênesis 11:1–9 não menciona Ninrode como construtor da Torre de Babel.
  • Sinear não é Sippar: Sinear é uma designação territorial para o sul da Mesopotâmia; Sippar é uma cidade.
  • Van der Toorn (1990) considera que as evidências disponíveis favorecem fortemente a hipótese de que Ninrode tenha sido modelado a partir de Ninurta, embora a derivação filológica do nome permaneça não demonstrada.
  • Yigal Levin (2002) propõe que a figura bíblica combine tradições relacionadas a Sargão de Acade e Naram-Sin.
  • Christopher W. Jones (2022) propõe que Gênesis 10:8–12 seja compreendido no contexto da memória neoassíria de Sargão e da ideologia imperial do século VII a.C.
  • Josefo, Antiguidades Judaicas 1.113–116, associa Ninrode à rebelião e à construção da Torre de Babel.
  • Jubileus 10:18–27 amplia a narrativa da Torre de Babel, mas não deve ser usado isoladamente como prova de que Ninrode a construiu.
  • Pseudo-Fílon, Antiguidades Bíblicas 6, apresenta uma forma antiga da tradição em que Ninrode ordena que Abraão seja lançado numa fornalha.
  • Targum Pseudo-Jônatas, Gênesis 10:8–9, transforma explicitamente Ninrode em pecador e rebelde diante do Senhor.
  • Bereshit Rabbah 38:13 desenvolve posteriormente o confronto entre Ninrode e Abraão e a narrativa da fornalha.


Fontes Principais:

  1. Karel van der Toorn; P. W. van der Horst, “Nimrod Before and After the Bible”, Harvard Theological Review 83, no. 1 (1990), pp. 1–29. O artigo divide-se explicitamente entre a investigação do possível protótipo de Ninrode e o desenvolvimento da tradição pós-bíblica.

  2. Yigal Levin, “Nimrod the Mighty, King of Kish, King of Sumer and Akkad”, Vetus Testamentum 52, no. 3 (2002), pp. 350–366.

  3. Christopher W. Jones, “The Literary-Historical Memory of Sargon of Akkad in Assyria as the Background for Nimrod in Genesis 10:8–12”, Journal of Biblical Literature 141, no. 4 (2022), pp. 595–615.

  4. Gênesis 10:8–12; 11:1–9 — textos bíblicos fundamentais.

  5. Josefo, Antiguidades Judaicas 1.113–116 — desenvolvimento antigo da associação entre Ninrode, rebelião e Babel.

  6. Livro dos Jubileus 10:18–27 — expansão da narrativa da Torre de Babel.

  7. Pseudo-Fílon, Antiguidades Bíblicas 6 — tradição antiga da confrontação entre Ninrode e Abraão.

  8. Targum Pseudo-Jônatas, Gênesis 10:8–11 — desenvolvimento targúmico da imagem de Ninrode como rebelde.

  9. Gênesis Rabbah 38:13 — desenvolvimento rabínico do confronto entre Abraão e Ninrode.


11 de outubro de 2026

Ninrode: O Homem, o Mito e a Memória de Babel - Parte 1


Relevo em bronze com símbolos da Mesopotâmia antiga, incluindo um zigurate central, escrita cuneiforme e figuras mitológicas.


Introdução

Ninrode é um dos personagens mais enigmáticos do livro de Gênesis. Em poucos versículos, ele aparece como descendente de Cuxe, poderoso na terra, famoso como caçador e associado a Babel, Ereque, Acade, Sinear e Assíria.

Apesar da brevidade do relato bíblico, sua figura cresceu enormemente na tradição posterior. Ninrode passou a ser visto como rebelde contra Deus, tirano, construtor da Torre de Babel e perseguidor de Abraão. Mas quanto dessas imagens pertence realmente ao texto de Gênesis? E quais elementos foram acrescentados pela memória e pela interpretação das gerações posteriores?

Para responder a essas perguntas, precisamos separar cuidadosamente Escritura, evidência histórica, hipóteses acadêmicas e tradição. Começaremos pelo Ninrode apresentado em Gênesis e pelo mundo mesopotâmico ao qual o texto o associa. Depois, acompanharemos a transformação desse personagem nas tradições que surgiram ao longo dos séculos.


Parte 1 – Ninrode e o Mundo Mesopotâmico

Ato I: O Homem que Surge Depois do Dilúvio


Poucos personagens do Gênesis receberam uma tradição posterior tão extensa quanto Ninrode, embora o texto bíblico dedique a ele apenas alguns versículos. Gênesis 10:8–12 apresenta Ninrode como descendente de Cuxe e como o primeiro a tornar-se poderoso na terra. Ele é descrito como “poderoso caçador diante do SENHOR”, e seu reino é associado inicialmente a Babel, Ereque e Acade, na terra de Sinear, antes de o relato avançar para a Assíria. O próprio texto, portanto, coloca Ninrode dentro de uma geografia inequivocamente mesopotâmica. O problema histórico começa justamente quando tentamos descobrir quem, ou o quê, está por trás dessa figura. (Gn 10:8–12; van der Toorn & van der Horst 1990, pp. 1–29).

O primeiro cuidado metodológico é fundamental: Gênesis não diz que Ninrode construiu a Torre de Babel. Gênesis 10 apresenta Ninrode e seu reino; Gênesis 11:1–9 apresenta a construção da cidade e da torre por uma humanidade que possuía uma única língua. Os capítulos foram posteriormente relacionados pela tradição, mas não existe no texto hebraico uma afirmação de que Ninrode tenha comandado os construtores. Essa distinção é indispensável para não transformar uma interpretação posterior em informação bíblica explícita.

Karel van der Toorn e Pieter W. van der Horst partiram exatamente desse problema em seu estudo “Nimrod Before and After the Bible”, publicado em 1990 na Harvard Theological Review. Os autores observam que a informação bíblica sobre Ninrode é escassa, enquanto a tradição pós-bíblica acrescentou detalhes que não podem ser encontrados no texto bíblico, embora posteriormente tenham sido apresentados como resultados da própria exegese. O estudo, por isso, divide-se em duas tarefas: investigar um possível protótipo extrabíblico para Ninrode e acompanhar o desenvolvimento da tradição posterior.


Ato II: Sinear e o Mapa de Ninrode


A geografia de Gênesis 10 é uma das evidências mais importantes. Babel corresponde à Babilônia; Ereque corresponde à antiga Uruk; e Acade pertence ao universo histórico do antigo império acádio. As três cidades estavam no sul da Mesopotâmia, região que os textos cuneiformes conhecem como a terra de Sumer e Acade. Gênesis, portanto, não coloca Ninrode em uma geografia indefinida: ele o posiciona no coração da civilização urbana mesopotâmica. (Gn 10:10; van der Toorn & van der Horst 1990, pp. 1–3).

Isso também permite corrigir uma possível confusão: Sinear não é Sippar. Sinear é uma designação territorial empregada em Gênesis para o sul da Mesopotâmia, posteriormente identificada com o território babilônico. Sippar, ao contrário, é uma cidade mesopotâmica específica. O próprio estudo de van der Toorn mostra que, apesar das discussões sobre a origem linguística do nome “Sinear”, não há dúvida quanto à sua referência geográfica em Gênesis 10:10: o sul da Mesopotâmia.

A origem etimológica de “Sinear” permanece problemática. Van der Toorn examina a antiga tentativa de relacioná-la diretamente a “Sumer”, mas observa dificuldades filológicas importantes e conclui que a questão deve permanecer aberta. Isso é um bom exemplo de como a pesquisa acadêmica precisa distinguir uma localização segura de uma etimologia ainda discutida. Podemos afirmar onde Sinear está sendo empregado no texto sem afirmar que sabemos definitivamente de onde veio o nome.

Depois, Gênesis 10:11 desloca a narrativa para o norte, em direção à Assíria. Nínive e Calá são cidades assírias bem conhecidas; Reobote-Ir e Resém, porém, permanecem de identificação incerta. A sequência sul–norte é importante porque acompanha uma grande mudança histórica do mundo mesopotâmico: o centro político que inicialmente estava concentrado no sul passou posteriormente a ter a Assíria como uma das grandes potências do norte.


Ato III: "Poderoso Caçador Diante do Senhor"


Gênesis 10:8–9 chama Ninrode de gibbor, poderoso ou herói, e depois utiliza a expressão “poderoso caçador diante do SENHOR”. O texto não diz que ele era gigante, demônio ou rebelde. Também não afirma que sua força derivava de uma origem sobrenatural. A descrição original é muito mais curta: Ninrode é um personagem poderoso, célebre como caçador e associado a um reino mesopotâmico. (Gn 10:8–9).

A interpretação negativa de “diante do SENHOR” aparece com força nas tradições posteriores. O Targum Pseudo-Jônatas, por exemplo, traduz Gênesis 10:8 apresentando Ninrode como alguém que começou a tornar-se “poderoso em pecado” e a “rebelar-se diante do Senhor”; no versículo seguinte, chama-o explicitamente de “poderoso rebelde”. Assim, a tradição targúmica transforma uma formulação ambígua em uma caracterização moral inequívoca.

Van der Toorn observa que essa interpretação não nasceu simplesmente do hebraico. A tradição posterior explorou a possibilidade de entender liphnê YHWH  (לִפְנֵי יהוה), “diante do SENHOR”, no sentido de “contra o SENHOR”. Essa interpretação aparece posteriormente em autores cristãos como Agostinho e torna-se parte importante da imagem de Ninrode como arquétipo do rebelde. Portanto, “Ninrode, o rebelde” é uma interpretação tradicional; não é uma tradução obrigatória de Gênesis 10:9.


Ato IV: Ninrode e Ninurta


É aqui que o estudo de 1990 se torna especialmente importante. Van der Toorn investiga se existe uma figura mesopotâmica que possa explicar a combinação de características encontrada em Gênesis. A hipótese que emerge com maior força é Ninurta, divindade mesopotâmica associada à guerra, ao heroísmo, à caça, à derrota de monstros, à realeza e, em determinados textos, à organização da própria civilização.

A comparação não depende simplesmente da semelhança entre os nomes “Ninrode” e “Ninurta”. A evidência funcional é muito mais importante. Na tradição mesopotâmica, Ninurta é um herói guerreiro que enfrenta criaturas monstruosas e inimigos divinos; os textos também o apresentam como patrono dos caçadores. Reis neoassírios invocavam Ninurta em conexão com suas próprias façanhas de caça. É precisamente essa combinação entre heroísmo, caça e poder que torna o paralelo com Gênesis 10 significativo.

O material mesopotâmico vai além. No poema LUGAL-E (em inglês), Ninurta derrota Azag e outros adversários; em tradições relacionadas ao mito de Anzu, derrota o grande pássaro monstruoso. A literatura mesopotâmica também apresenta Ninurta como aquele que, depois de suas vitórias, contribui para a organização da agricultura e da ordem civilizada. Ele é, portanto, simultaneamente guerreiro, caçador, vencedor de monstros e figura ligada à civilização.

Van der Toorn observa ainda uma correspondência geográfica e histórica. O culto de Ninurta ganhou importância no sul da Mesopotâmia e posteriormente se tornou especialmente associado à Assíria. Calá, uma das cidades mencionadas em Gênesis 10:11, era um importante centro assírio do culto de Ninurta. O estudo interpreta a sequência geográfica de Gênesis como possivelmente refletindo a própria expansão histórica do culto: do sul mesopotâmico para a Assíria.

Entretanto, há uma dificuldade que precisa ser preservada: a filologia do nome não está resolvida. Van der Toorn reconhece que as formas mesopotâmicas conhecidas de Ninurta não fornecem uma derivação direta e demonstrada para o hebraico Nimrōd. Ele considera possíveis reconstruções, mas admite que são especulativas. Portanto, a força da hipótese está no conjunto de correspondências, e não em uma simples equivalência linguística dos nomes.

Ainda assim, a conclusão de van der Toorn é mais forte do que uma mera possibilidade. Ele afirma que, apesar das dificuldades filológicas, a avaliação das evidências disponíveis favorece fortemente a conclusão de que o Ninrode bíblico foi modelado a partir do deus mesopotâmico Ninurta. Essa é a posição que deve ser atribuída corretamente ao autor — sem transformá-la, contudo, em consenso arqueológico.


Ato V: Sargão e Naram-Sin


A pesquisa posterior não encerrou a questão. Em 2002, Yigal Levin publicou “Nimrod the Mighty, King of Kish, King of Sumer and Akkad”, propondo uma reconstrução diferente. Levin analisa a sintaxe, o texto e sobretudo a geografia de Gênesis 10:8–12 e conclui que a figura bíblica pode ter sido formada a partir da combinação das tradições sobre Sargão de Acade e seu neto Naram-Sin.

A proposta de Levin é metodologicamente diferente da de van der Toorn. Em vez de concentrar a explicação em uma divindade mesopotâmica específica, ele procura explicar como tradições históricas sobre grandes reis do passado poderiam ter sido combinadas em uma única figura literária. Sargão está ligado a Kish, Acade e à expansão imperial; Naram-Sin pertence à geração seguinte da memória do império acádio. Ninrode, nessa hipótese, seria uma figura composta pela memória de diferentes personagens imperiais.

Isso não significa que Levin tenha encontrado uma inscrição dizendo que Ninrode era Sargão ou Naram-Sin. Sua proposta é uma reconstrução da formação literária e histórica da tradição. Por isso, ela deve ser apresentada como hipótese acadêmica, não como identificação arqueológica. Temos, portanto, duas linhas explicativas importantes: van der Toorn enfatiza Ninurta; Levin enfatiza Sargão e Naram-Sin. Elas não devem ser artificialmente fundidas como se fossem uma única teoria.


Ato VI: A Memória de Sargão no Império Assírio


Em 2022, Christopher W. Jones apresentou uma proposta ainda mais específica. Em seu artigo publicado no Journal of Biblical Literature, ele argumenta que Gênesis 10:8–12 pode ser compreendido à luz da memória literário-histórica de Sargão de Acade que circulava no Império Neoassírio. Jones ressalta que continua inexistindo consenso sobre a identificação de Ninrode com qualquer personagem histórico ou mitológico específico.

Jones propõe que a passagem tenha recebido sua forma em meados do século VII a.C., em um contexto no qual estudiosos da corte assíria utilizavam presságios, crônicas, épicos e listas geográficas para apresentar o Império Neoassírio como herdeiro do antigo império de Sargão. Em sua reconstrução, esse processo culminou simbolicamente na refundação de Acade por Esar-Hadom em 674 a.C.

A proposta muda a pergunta. Em vez de perguntar apenas “qual rei histórico foi Ninrode?”, Jones pergunta qual memória imperial está sendo mobilizada pela passagem. Para ele, a perícope pode funcionar como uma resposta crítica à ideologia imperial assíria. Ninrode, neste dossiê, não precisa ser uma cópia de Sargão; pode ser uma construção literária que dialoga com a memória de Sargão dentro do mundo neoassírio.

Essa hipótese é importante, mas seu estatuto precisa permanecer claro. A datação em meados do século VII a.C. e a interpretação da passagem como crítica à ideologia imperial são argumentos de Jones, não fatos estabelecidos por consenso acadêmico. O próprio artigo começa reconhecendo o caráter enigmático da figura e a ausência de consenso.


Ato VII: Babel e a Ausência de Ninrode


Gênesis 11:1–9 descreve uma humanidade unificada pela língua e concentrada na terra de Sinear. Os habitantes decidem construir uma cidade e uma torre cujo topo chegaria aos céus, dizendo: “tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (Gn 11:4). Ninrode não aparece nominalmente nessa narrativa.

Isso não impede uma relação temática entre os capítulos. Gênesis 10 acabou de mencionar Ninrode, Babel e Sinear; Gênesis 11 retorna a Sinear e desenvolve a narrativa da cidade e da torre. A proximidade literária favoreceu a associação posterior, mas proximidade não é identidade. O texto permite comparação; não autoriza inserir o nome de Ninrode em Gênesis 11.

A literatura judaica posterior foi justamente nessa direção. Ao longo dos séculos, diferentes tradições passaram a combinar os dois episódios, transformando Ninrode no líder da construção da torre. O desenvolvimento dessa tradição é historicamente interessante porque mostra como um personagem enigmático de Gênesis foi progressivamente convertido em protagonista de uma narrativa muito maior.

*** Até aqui, investigamos o Ninrode de Gênesis e suas possíveis relações com o mundo mesopotâmico, incluindo as hipóteses que o aproximam de Ninurta, Sargão e Naram-Sin.

Mas essa é apenas a primeira camada da história.

A partir do Ato VIII, a investigação muda de foco. A segunda parte acompanhará como a tradição judaica posterior ampliou a figura de Ninrode e o associou cada vez mais a Babel, à rebelião contra Deus e ao confronto com Abraão.

A história continua no Ato VIII, onde o personagem de Gênesis começa a se transformar no Ninrode da tradição.


▶ Esta análise continua na página seguinte. Conecte os fatos, conclua este raciocínio e avance para o desfecho final: [Acesse a Parte 2 Final Clicando no Link].



16 de setembro de 2026

A Engenharia Reversa do Caos: A Infraestrutura Oculta das Jurisdições Cósmicas


A infraestrutura oculta das jurisdições cósmicas


A soberania territorial na antiguidade nunca foi medida apenas por paredes físicas ou pelo alcance das legiões militares. Para as civilizações que circundavam o Crescente Fértil, as fronteiras geográficas eram o exato reflexo de linhas de demarcação jurídica traçadas no tribunal do Conselho Divino. Quando confrontamos os impérios vizinhos com as escrituras hebraicas, elas não estão atacando meras ideologias humanas, mas sim desmantelando a arquitetura jurídica das inteligências que codificaram a história através da cultura, da linguagem... e do sangue.

Para compreender a densidade dessa guerra invisível, é necessário cruzar o Texto Massorético com os arquivos de Ugarite, as tabuletas cuneiformes e os Manuscritos do Mar Morto. Esses registros revelam que cada palmo de terra confiscado ou consagrado responde a um código de propriedade cósmica altamente sofisticado. A geopolítica contemporânea, com suas disputas por eixos estratégicos e zonas de influência, nada mais é do que a perpetuação física dessas patentes espirituais que governam a matriz das nações.


A Raiz Filológica do Território Profano e o Direito de Posse

A engenharia legal da guerra espiritual nos manuscritos de Qumran revela que a herança da terra é uma disputa por patentes jurídicas celestes. No pensamento semítico antigo, o pecado contamina o solo em nível molecular, gerando direitos legais de habitação para inteligências caídas. A purificação de um território exigia decretos litúrgicos específicos para revogar essas licenças espirituais e restaurar a soberania do Altíssimo sobre a geografia física.

Na perspectiva bíblico-cristã, a terra não pertence originalmente aos poderes espirituais que se opõem a Deus. “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.” (Salmo 24:1). Entretanto, as Escrituras também apresentam poderes espirituais exercendo influência sobre estruturas humanas e nações. Essa distinção é fundamental: autoridade espiritual não significa soberania absoluta. Todo poder criado permanece subordinado ao governo de Deus.


  • O Mistério Sobre o Cherem (O Anátema): Nos manuscritos de guerra do Mar Morto (1QM), a destruição dos povos cananeus não era apenas uma limpeza étnica, mas também uma desinfecção espiritual. O termo designa aquilo que é colocado sob anátema, separado para destruição ou consagração. Na teologia da guerra santa, isso significa que aquilo que foi colocado sob o Cherem-ḥērem passa à esfera do juízo de Deus. Em 1QM, essa lógica alcança uma dimensão escatológica - a guerra envolve simultaneamente forças humanas e poderes espirituais. O conflito terrestre é apresentado como manifestação de uma guerra maior pela ordem estabelecida por Deus. Israel confiscava a terra e quebrava o direito de posse dos deuses por meio do sangue.
  • A Semântica Sobre Azazel: O manuscrito apócrifo e a raiz hebraica de Levítico 16 revelam que o deserto era a barreira geográfica de uma prisão cósmica. O bode enviado a Azazel era uma intimação legal - a devolução do pecado diretamente à jurisdição de sua origem espiritual, isolando o acampamento sagrado. A tradição judaica posterior, especialmente 1 Enoque, desenvolve Azazel como uma entidade espiritual associada à transgressão e ao juízo. Dentro da teologia cristã, esse desenvolvimento pode ser compreendido em continuidade com a realidade de seres espirituais rebeldes e com a separação entre aquilo que pertence à santidade de Deus e aquilo que está submetido ao juízo.
  • A Física Espiritual de Naamã: Quando o general sírio Naamã se cura da lepra (2 Reis 5:17) e, assim, reconhece o Deus de Israel, ele pede para levar "duas mulas de terra" de Israel. Naamã compreendia a realidade territorial antiga. Para adorar o Deus de Israel na Síria, ele precisava transportar fisicamente uma porção da jurisdição geográfica do Criador. O texto não explica diretamente sua motivação, mas o pedido demonstra a estreita associação entre YHWH, sua terra e seu culto na mentalidade religiosa do período. Dentro de uma leitura teológica, o episódio é especialmente significativo porque mostra como a realidade espiritual podia ser concebida em relação concreta com a geografia. 


¹⁷ E disse Naamã: Se não queres, dê-se a este teu servo uma carga de terra que baste para carregar duas mulas; porque nunca mais oferecerá este teu servo holocausto nem sacrifício a outros deuses, senão ao Senhor. (2 Reis 5:17).



A Geopolítica Oculta da Transmigração e o Arquetípico Imperial

Os impérios humanos não ascendem ao topo da cadeia de poder global por mero acaso econômico ou militar, mas por meio de consórcios com o Conselho Divino caído. A literatura profética de Isaías e Ezequiel demonstra que os tronos terrenos operam sob uma mecânica de espelhamento perfeito. Por trás de cada monarca de carne e osso, existe um correspondente cósmico que dita as diretrizes metafísicas, culturais e expansionistas daquela civilização.


  • O Protocolo de Convocação de Impérios: Nos textos ugaríticos e assírios que ecoam em Ezequiel 28 e Isaías 14, a ascensão de potências exige consensualismo cósmico. O "Rei de Tiro" e o "Rei da Babilônia" não são metáforas poéticas; são a sobreposição do governante humano com a inteligência angélica arquetípica.
  • A Inversão do Trono de Basã: A região de Basã (Salmo 22:12) era o epicentro antigo do culto aos Refaim (espíritos dos gigantes mortos). Nos manuscritos arameus, Basã e Hermom estão estreitamente associados geograficamente, e é o local do pacto dos Vigilantes. A crucificação no Gólgota foi um ato de guerra espiritual que desmascarou e condenou esses deuses e entidades no maior tribunal de julgamento.


A Mecânica Interdimensional dos Stoicheia e a Liturgia de Sangue

A engenharia do Novo Testamento, quando lida sob as lentes dos manuscritos helenísticos e da Septuaginta, eleva o conceito de guerra espiritual acima da moralidade comportamental judaica. O conflito contra as trevas envolve o desmonte de uma máquina cósmica que regula o tempo, a percepção e o comportamento das massas. Essa máquina se alimenta de rituais de dor e sangue para manter o contrato de escravidão das civilizações ativo.


  • O Enigma dos Stoicheia (στοιχεῖα): Quando Paulo cita os "elementos do mundo" (stoicheia tou kosmou - στοιχεῖα τοῦ κόσμου), as traduções modernas amenizam para "princípios elementares do mundo". Nos manuscritos antigos, o termo refere-se às potências astrais que regulam calendários pagãos e leis astronômicas para escravizar as nações sob ciclos de colapso.
  • A Liturgia como Arma de Supressão Territorial: No Apocalipse, a abertura dos selos e o soar das trombetas não são cataclismos físicos desorganizados; são a aplicação das petições dos mártires (Apocalipse 6:10). Na corte celestial antiga, o sangue dos justos opera como uma evidência jurídica que anula o direito de posse dos principados.


A Guerra de Frequência pelo Har-Magedom

A convergência escatológica final é frequentemente reduzida pelo jornalismo ocidental a uma disputa por recursos energéticos e hegemonia atômica no Oriente Médio. Contudo, os fragmentos originais apontam para uma crise de usurpação de autoridade governamental cósmica. O confronto final é o ápice de uma guerra jurídica onde os antigos administradores tentam sitiar o centro de comando original da Terra.


  • O Confronto pelo Trono do Norte: Longe de ser apenas uma planície física para tanques modernos, Armagedom é uma transliteração do hebraico Har Mo'ed - o "Monte da Assembleia". O confronto final é uma tentativa desesperada das inteligências caídas de invadir o ponto geográfico exato onde o Conselho Divino original reestabelecerá a teocracia.


Conclusão


A Sentença Irrevogável: O Desfecho da Geopolítica Cósmica

A geopolítica tridimensional que observamos nos telejornais - com suas movimentações de frotas navais, tratados comerciais e rearranjos de fronteiras - é apenas a sombra projetada de uma disputa jurídica que já foi decidida nas instâncias superiores do Tribunal Celestial. A guerra espiritual, portanto, não é um conflito indefinido entre forças equivalentes, mas sim a execução progressiva de um mandado de despejo contra os antigos administradores das nações. Os impérios humanos colapsam no plano físico quando suas patentes e concessões metafísicas são cassadas na corte do Altíssimo.

À medida que a história converge para o seu ápice escatológico, a blindagem legal que protegia os principados territoriais se desfaz sob o peso do sangue dos justos e da autoridade legal do Messias. O colapso das matrizes globais de controle não será provocado por revoluções políticas terrenas, mas pela destituição definitiva do Conselho Divino caído. Compreender essa engrenagem oculta nos manuscritos antigos é o que separa a mera especulação jornalística da verdadeira decodificação profética dos tempos finais.



4 de março de 2025

O Imago Mundi: Localização Babilônica Para a Arca de Noé

 

O Imago Mundi mostrando a localização babilônica da Arca de Noé
O Imago Mundi


O Mapa de 2.700 Anos que dá Instruções Para um Navio Bastante Familiar

A maioria das pessoas está familiarizada com o relato bíblico da arca de Noé - a embarcação que salvou Noé, sua família e pares de todos os animais terrestres do Grande Dilúvio. Menos estão familiarizados com os relatos paralelos da arca-dilúvio do mundo antigo. Relatos como o épico sumério de Gilgamesh, de mais de 4.000 anos, que conta a história de Utnapistim e sua arca, com paralelos ao relato bíblico até as espécies de pássaros liberados. Outro exemplo é o épico babilônico de Atrahasis, com paralelos incluindo a entrada de animais no barco dois a dois.

Menos ainda estão familiarizados com um mapa babilônico de 2.700 anos que, na verdade, pretende dar instruções para a localização da arca de Noé (ou melhor, a arca de Ziusudra - como ele é chamado no relato babilônico - um nome que significa "Aquele de Longa Vida"). Este mapa é conhecido como Imago Mundi (em inglês) - também conhecido como Mapa Babilônico do Mundo.

Este antigo e rudimentar mapa de tablete de argila tem sido manchete no mundo todo, com sua conexão com a "arca de Noé" enquadrada como sendo o resultado de uma pesquisa totalmente nova. Na verdade, essa pesquisa não é "nova" - a reportagem sobre esta peça parece ter surgido simplesmente de um vídeo recente (em inglês) carregado no canal do YouTube do Museu Britânico, com o Dr. Irving Finkel resumindo o artefato na Série 9, Episódio 5 do Curator's Corner.

Com o interesse renovado por este item na esfera pública, esse é um momento oportuno para revisitar este artefato notável e sua referência mais intrigante à localização da arca.


Mapa do Mundo

O Museu Britânico contém cerca de 150.000 tábuas cuneiformes - comparativamente poucas das quais estão em exposição; a grande maioria é mantida em arquivo e aguarda pesquisa. Entre sua vasta coleção, o Imago Mundi (Mapa do Mundo) se destaca como uma das peças mais significativas e reconhecíveis. O item foi adquirido pelo Museu Britânico em 1882, após as escavações do assiriologista Hormuzd Rassam (em inglês) em Sippar (Iraque central). O anverso (frente) da tábua traz um "mapa" circular e rudimentar com várias linhas de texto acima, e um reverso com texto adicional explicando o mapa com mais detalhes. Datado no mínimo do século IX a.C. - ou mais provavelmente em algum lugar mais próximo do século VII a.C. - o item é famoso por ser o mapa mais antigo do mundo conhecido.

A borda circular externa do mapa é marcada com texto cuneiforme descrevendo-o como o “Rio Amargo” - essencialmente cercando, figurativamente, o mundo mesopotâmico conhecido. Dentro deste círculo há um rio retangular norte-sul, que representa o Eufrates. Este rio é interceptado perto do topo por um retângulo representando a Babilônia, uma cidade bissecionada na antiguidade pelo rio. Ao redor da periferia interna do mapa circular há vários pequenos círculos, cada um representando cidades e tribos. A cidade persa de Susa está localizada na parte inferior do mapa.

O mais interessante, para nossos propósitos, são as extensões triangulares que se projetam do mapa. Elas representam - novamente, muito rudimentarmente - misteriosos territórios montanhosos nos limites do mundo conhecido. Embora a maioria desses triângulos esteja faltando, originalmente haveria oito deles, e eles correspondem especificamente a divisões de textos no verso da tábua, que explicam esses locais com mais detalhes.

O problema era que, como descoberto originalmente, apenas três triângulos foram preservados no mapa, e era quase impossível tentar relacioná-los à lista de explicações no verso da tábua. Isto é, até meados da década de 1990, quando uma aluna do Dr. Irving Finkel - Edith Horsley - encontrou um fragmento em miniatura com um triângulo no arquivo do Museu Britânico. O fragmento se encaixou perfeitamente em uma lacuna dentro do Imago Mundi, e com as palavras-chave deste triângulo contidas nele, foi possível identificar o bloco de texto reverso relacionado especificamente a ele, e assim a ordem do resto do texto relacionado aos triângulos.


Desenho inicial do Imago Mundi
Desenho inicial do Imago Mundi. Observe o espaço para o triângulo então ausente (centro à direita) - a peça crítica que desvendou o quebra-cabeça


De particular destaque foi uma seção de texto relacionada ao triângulo (ou “montanha”).


"Parsiktu - Navio"


O texto reverso fragmentário relacionado a este triângulo diz:


[Para o lugar], para o qual você deve viajar sete léguas, …]

[Os …] … são tão grossos quanto um parsiktu - navio; 10 dedos [grossos seus …]

Para o observador casual, isso pode não parecer ter muita importância. Mas para um assiriologista experiente, é imediatamente chamativo. Como o Dr. Finkel explica no vídeo recente:

Diz que você vê algo... "tão espesso quanto um parsiktu - navio". Essa medida parsiktu é algo para um assiriologista, que faz seus cabelos ficarem em pé. E o fato é que só é conhecida uma vez em tábuas cuneiformes. E é uma tábua cuneiforme bem interessante também, porque é a descrição da arca, que foi construída, teoricamente, por volta de 1800 a.C. pela versão babilônica de Noé [conforme relatado na "Tábua da Arca" babilônica]. E nesse relato, os detalhes são dados: o deus diz, "você tem que fazer isso, isso e isso"; e então o Noé babilônico disse, "eu fiz isso, isso e isso, eu o fiz, e eu fiz essas estruturas tão grossas quanto um parsiktu - navio", ele diz de sua própria boca, na história original.

Então, essa palavra parsiktu é como um tipo de ruído alarmante; ela imediatamente se encaixa nessa coisa do mapa, de forma imediata e incontestável. Então, o que isso significa, falando claramente... é que se você subisse todo o caminho nessa montanha... eventualmente você veria contra o céu noturno, ou o céu escuro do universo exterior, silhuetadas das vigas feitas de madeira, tão grossas quanto um parsiktu - navio, do naufrágio da arca babilônica, que, como a da Bíblia, veio a pousar em uma montanha.

Isso não é tudo. Há outro título de interesse particular gravado no mapa ao lado desta montanha. O Dr. Finkel continua:

Se você descer a montanha e cruzar a água, de volta à terra natal, o primeiro lugar que você chegaria é chamado Urartu. Está desenhado no mapa. Agora, o interessante sobre isso é que, na Bíblia, Noé, em sua arca, pousou em uma montanha cujo nome é Ararate. E Ararate é o equivalente hebraico do assírio Urartu.


O Reino de Urartu na Turquia: Imago Mundi
O Reino de Urartu, localizado principalmente no leste da Turquia, durante a primeira metade do primeiro milênio a.C.


Isso mostra que a história era a mesma e, claro, que uma levou à outra. Mas também, que do ponto de vista babilônico, isso era uma questão de fato: que se você fizesse essa jornada, veria os restos desse barco histórico, que salvou toda a vida do mundo... ainda ali nos penhascos contra o céu escuro.

 

As vigas da arca de Noé se vista no céu noturno: Imago Mundi
As vigas da arca se erguem contra o céu noturno (“O Mapa Babilônico do Mundo, por Irving Finkel”)

Relatos de Visitação

É uma descoberta arqueológica notável. No entanto, embora o Imago Mundi seja único como artefato, ele não é único em descrever o lugar da arca como um local específico no qual seus restos ainda podem ser visitados.

O historiador do primeiro século Josefo relata o seguinte, ao recontar a história de Noé em Antiguidades dos Judeus: “[O]s armênios chamam este lugar de O Lugar da Descida ou Saída; pois a arca tem sido mantida naquele lugar, e seus restos são mostrados lá pelos habitantes até hoje.” Flávio Josefo, então, cita o historiador babilônico do início do terceiro século a.C. Beroso (entre outros):


Busto romano do primeiro século de Josefo: Imago Mundi
Busto romano do primeiro século que se acredita representar Josefo


Agora, todos os escritores de histórias bárbaras fazem menção a esse dilúvio e a essa arca; entre os quais está Beroso, o caldeu. Pois quando ele descreve as circunstâncias do dilúvio, ele continua assim: "Dizem que ainda há alguma parte desse navio na Armênia, na montanha dos cordiens; e que algumas pessoas levam pedaços do betume, que eles levam embora com o qual ela estava recoberta, e dele se servem como impermeabilizante".

Jerônimo, o egípcio, também, que escreveu as Antiguidades Fenícias, e Mnazeas, e muitos outros, fazem menção ao mesmo. Nicolau de Damasco, em seu nonagésimo sexto livro, tem uma relação particular sobre eles; onde ele fala assim: "Há na Armênia, na província de Miniade, uma alta montanha chamada Baris, sobre a qual, diz-se, muitos se salvaram durante o dilúvio, e que uma arca cujos restos se conservaram por vários anos, e na qual um homem se havia encerrado, deteve-se no cume dessa montanha. Há probabilidade de que esse homem é aquele de que fala Moisés, o legislador dos judeus". (História dos Hebreus).


Avançando vários séculos depois, o Talmude relata outro relato peculiar, alegando que o próprio rei assírio Senaqueribe visitou o local da arca, recuperando uma tábua e transformando-a em um ídolo chamado Nisroque:


Senaqueribe foi e encontrou uma viga da arca de Noé, da qual ele moldou um deus. Ele disse: “Se aquele homem (referindo-se a si mesmo) for e tiver sucesso [na batalha], ele sacrificará seus dois filhos diante de vocês." Seus filhos ouviram seu compromisso e o mataram. Este é o significado do que está escrito: “E aconteceu que, enquanto ele estava adorando na casa de Nisroque, seu deus, Adrameleque e Serezer, seus filhos, o feriram com a espada, porém eles escaparam para a terra de Ararate...” (2 Reis 19:37), onde a arca de Noé havia parado (Sanhedrin 96a em inglês).


É uma história interessante à luz do relato bíblico familiar do assassinato de Senaqueribe - principalmente por causa da referência bíblica incomum de Ararate (algumas traduções dão “Armênia”; o hebraico lê, literalmente, “Ararate”, embora as regiões sejam amplamente vistas como sinônimos). Além disso, “Nisroque” (נסרך) é uma divindade totalmente desconhecida no panteão mesopotâmico. A palavra tem sido tradicionalmente relacionada à palavra aramaica neser (נסר), que significa “tábua” ou “prancha”.

Relevo rochoso de Senaqueribe no sopé do Monte Judi: Imago Mundi
Molde de um relevo rochoso de Senaqueribe no sopé do Monte Judi

Esta história incomum no Talmude pode não ser tão absurda quanto parece: a quinta campanha de Senaqueribe o levou a estas regiões de Urartu. Na verdade, uma das montanhas desta região - com inscrições esculpidas nas faces rochosas pelos trabalhadores braçais de Senaqueribe - por acaso é uma concorrente para a localização da arca de Noé (Monte Judi em inglês). O próprio palácio de Senaqueribe continha pedras extraídas desta montanha.

Mas talvez a visita de Senaqueribe, e a deferência a tal local, não devesse ser tão incomum. Afinal, ele pode muito bem ter seguido um mapa não muito diferente de um que data do mesmo período em circulação entre sua própria povoação — o Imago Mundi.



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