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4 de maio de 2025

Como Nos Dias de Noé

 

Arca de Noé numa tempestade no mar


Devemos fazer algumas reflexões a respeito do alerta solene dado pelo Salvador. "Pois assim como foi nos dias de Noé", é a declaração terrível de Deus, "também será a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem" (Mt 24:37-39).

Logo, as cenas finais desta era atual serão uma reprodução dos dias de Noé. A mesma profanação intensa e, por fim, a incapacidade positiva de importar-se com as coisas de Deus, que foram reveladas pelos antediluvianos, também serão características do nosso mundo quando Cristo começar os julgamentos que rapidamente culminarão na glória de Sua vinda.

Parece justo, portanto, inferir que essa segunda manifestação do espírito que operava naqueles que foram desobedientes antes do Dilúvio será afetada por uma conjunção de causas similares às que o produziram nos tempos passados. Por conseguinte, torna-se assunto da maior importância prática compreendermos estas causas, porque, sempre que forem encontradas afetando simultaneamente as massas da população mundial, o fato possibilitará uma forte presunção de que estamos sendo levados, com rapidez, para a grande consumação da iniquidade, e que a glória vingativa do Senhor está prestes a ser revelada a fim de que toda carne a contemple.

Dessa forma, a grande questão a considerar é a seguinte: essas influências fatais estão em operação nos dias de hoje? Elas são mais universalmente características desta época do que de qualquer outra? A consideração ponderada tem impelido muitos a devolverem uma resposta afirmativa. Vejamos se os fatos nos permitem manter o mesmo ponto de vista. Se os tempos presentes estão apenas começando a assumir a complexão dos dias de Noé, eles emitem um grito de alerta, admoestando-nos a ficar preparados.

As sete grandes causas da apostasia antediluviana podem ser apresentadas assim:

  1. Tendência a adorar a Deus meramente como Criador e Benfeitor, e não como SENHOR, o Deus da aliança de misericórdia; lidando com os transgressores apontados para a destruição e não encontrando resgate para tais.
  2. Superioridade indevida do sexo feminino e indiferença à lei primeva do casamento.
  3. Rápido progresso das artes mecânicas e digitais, e a consequente invenção de muitos artifícios pelos quais as dificuldades da maldição foram mitigadas, e a vida ficou mais fácil e indulgente. Além disso, proficiência nas artes refinadas, que cativaram a mente dos homens e ajudaram a estimular um total esquecimento de Deus.
  4. Aliança entre a Igreja nominal e o mundo, que rapidamente resultou na completa mixórdia.
  5. Vasto aumento populacional.
  6. Rejeição da pregação de Enoque [e de Noé], cujos alertas logo se tornaram cheiro de morte para o mundo, e homens endurecidos sem recuperação.
  7. Aparição de seres dos principados dos ares na terra e relações ilícitas entre estes seres e a raça humana.

 

A Operação do Príncipe Deste Mundo

Estas causas contribuíram para envolver o mundo em uma névoa sensual na qual nenhum raio de verdade poderia penetrar. Elas causaram total esquecimento de Deus e indiferença à Sua vontade. Portanto, os habitantes da terra tornaram-se tão egoístas e inescrupulosos que o mundo ficou cheio de lascívia, injustiça, opressão e derramamento de sangue. Logo, cabe a nós considerarmos se influências similares estão agindo sobre nossa sociedade atual.

Certamente, não podemos deixar de confessar que a primeira causa mencionada é eminentemente característica dos tempos atuais, pois, em todas as igrejas que professam a fé cristã, existem inúmeras multidões crescentes que prosseguem pelo caminho de Caim, aceitando o Ser Supremo, mas não reconhecendo a Sua santidade e a própria depravação contrastante, e, negando, assim, toda necessidade de um Mediador entre Deus e o homem.

Muitas dessas pessoas tendem a considerar Cristo como alguém muito importante e falam de Sua sábia filosofia e vida exemplar, mas nenhuma delas O confessa como o Filho Unigênito do Pai ou sente a necessidade de Sua expiação. Por conseguinte, rejeitam a revelação divina como autoridade absoluta, confiando, ao invés disso, nas trevas que existem dentro delas e que elas denominam luz. Logo, fechando os olhos para as verdadeiras relações entre o homem e seu Criador, formam suas próprias concepções tanto a respeito da Divindade quanto de si mesmas.

Isso envolve nada menos do que uma reivindicação, da parte delas, pela suprema sabedoria e autoridade; trata-se de moldar um ídolo a partir da própria imaginação e, diante dele, prostrar-se e adorá-lo. Também não precisamos cogitar que tal postura produza um endeusamento prático dos homens de transcendente intelecto e grande renome. Quem já não detectou o trabalho dessa influência em seu próprio círculo?

Se a segunda causa deve ser inferida a partir das dicas reduzidas que nos foram dadas nas escrituras, também está em operação na era presente, porquanto é certo que o sexo feminino começou a migrar para uma nova esfera e a tomar uma posição mais proeminente - a negligência quanto ao laço matrimonial. Além do mais, não estão em falta indivíduos que, ao invés de temerem separar o que Deus uniu, afirmam abertamente que o casamento deveria ser um contrato que durasse apenas o tempo em que fosse agradável para as partes contratantes e não para a vida toda.

No final da dispensação anterior, o mesmo pecado era frequente entre os fariseus, que sustentavam a tese de que o divórcio é permitido por qualquer motivo. Até mesmo o rabino Akiva cita uma das razões sem constrangimento: "Mesmo se um homem encontrar uma mulher mais bonita que sua esposa...". Por conseguinte, o fato de o Senhor mencionar continuamente o adultério em Suas denúncias aos fariseus, declarando ser criminoso o casamento posterior ao divórcio, algo que eles legalizaram.

No maravilhoso sermão contido nos capítulos 15, 16 e 17 de Lucas, Jesus apresenta o divórcio, com impressionante brusquidão, como um pecado exposto e inegável, o que deveria, sem demora, convencer Seus ouvintes de terem-se provado desobedientes à lei e aos profetas como o foram ao evangelho.


¹⁸ Qualquer que deixa sua mulher, e casa com outra, adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido, adultera também. (Lucas 16:18).


Conhecemos a punição que rapidamente os alcançou devido a essa e a muitas outras transgressões. Em poucos anos, os desejos dessas pessoas foram extintos à custa de sangue. Os belos muros e ruas da cidade foram destruídos. O lindo templo no qual confiavam pereceu em chamas, e o santuário idólatra de Júpiter ergueu-se de forma ofensiva por sobre suas ruínas.

A respeito da terceira causa - a difusão da ciência, arte e luxúria - é desnecessário falar, pois ninguém negará que se trata de uma grande característica dos nossos tempos, e, além disso, o fato é um assunto comum de ostentação. De quantos exemplos dispomos que demonstram a arrogância autodeificadora do homem quando frequentemente passa a adquirir um pequeno conhecimento das leis da natureza, ou obtém certo sucesso em tais artes, ciências e filosofias, que são o prazer dos refinados e ilustrados intelectuais!

Vendo apenas o que é bom na vida atual, quão pouco pensam em Deus e quão surdos estão para a menção do mundo vindouro! Quão incrédulos são, caso não estejam repletos de zombaria, ao ouvirem apenas um sussurro referente à tormenta da fúria de Deus que, em pouco tempo, explodirá no mundo patético e afastará as multidões de tudo o que amam!

A fim de reproduzir a quarta causa, o Príncipe deste mundo tem-se esforçado há muito tempo e, certamente, parece estar próximo de sua vitória! Trata-se do resultado natural do primeiro erro: a negação da nossa posição de pecadores diante de Deus, de amaldiçoados à destruição a menos que o resgate seja concedido. Deixe a Igreja render-se a essa "verdade", e o que a impedirá de viver em perfeito acordo com o mundo?

Se o ensinamento prático da religião diz que Deus está satisfeito com nossos problemas e conduta (mas pouco feliz com os nossos pecados), apreciando grandemente nossas obras de virtude (embora o orgulho seja a mola propulsora delas) e olhando com prazer as proezas corajosas e exibições intelectuais, por que deveria uma teologia como essa ir contra os desejos dos homens decaídos? Como eles poderiam odiar uma deidade tão parecida com eles mesmos?

Os homens frequentam suas igrejas e capelas em multidões, despertam um sentimento, que denominam religioso por grandes construções, janelas pintadas, vestes esplêndidas, discursos sentimentais e intelectuais, cerimônias grandiosas e fortes convicções sectárias ou políticas.

Entretanto, se estes mesmos homens se cobrem com o semblante de devoção nos cultos, perdem, no geral, essa distinção externa no mundo, e confundem as pessoas que honestamente perguntam o que devem fazer a fim de conseguir a salvação ao começarem a participar de todas alegrias, frivolidades, buscas e trabalhos dessa vida como se devessem permanecer em meio a tudo isso para sempre.

Elas agem como se Deus tivesse prometido que deveriam estar sedentas para deixar esse mundo, em vez de ouvir o devido alerta, e ter amplo espaço e inclinação para o arrependimento. Parecem estar seguras de que nunca serão atemorizadas, de surpresa, pela temida sentença: "Louco, esta noite te pedirão a tua alma" (LC 12:20), nem subitamente apavoradas pelo sopro da trombeta do arcanjo. Admitem, como verdade, o fato de ser racional procurar contentamento e prazer em uma existência tão breve. Os poderes do mundo vindouro têm perdido sua influência sobre estas pessoas.

Por isso, muitos pontos da fé têm sido abandonados, divertimentos permitidos e vícios aceitos, o que torna impossível diferenciar essas pessoas daquelas que não professam a mesma fé a menos que manifestem sua crença. Além disso, alguns parecem estar sustentando uma doutrina dos antigos gnósticos, que, negando a ressurreição, afirmaram que, sendo salvo seu espírito, estavam em liberdade para fazer o que fizessem com o corpo; visto que, depois da morte, não teriam mais preocupações com a matéria ou com seus feitos.

Apesar de muitos estarem prontos para confessar que o cristão deve carregar sua cruz, ainda estando perfeitamente convictos de que, nestes tempos modernos, o entusiasmo infatigável de Cristo e Seus apóstolos estaria bastante ultrapassado, não conseguem, de forma alguma, encontrar uma cruz para levar. Se, porém, Deus, em Sua cólera, fere-os com enfermidades, privações, desilusões ou perdas, falam a respeito de suas provações e se confortam com o pensamento de que estão imitando o Senhor ao suportar problemas que não podem evitar...

Aqueles que estão cegos por Satanás deveriam pensar enquanto há tempo; meditar com seriedade e oração nas palavras do Senhor Jesus e viver uma vida santificada! Então, veriam a inconsistência da posição que assumiram e sentiriam, de maneira penetrante, que estavam cumprindo a profecia dos últimos tempos, que afirma que os homens teriam uma forma de piedade, mas lhe negariam o poder.


¹ Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.

² Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,

³ Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, intemperantes, cruéis, sem amor para com os bons,

⁴ Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,

⁵ Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. (2 Timóteo 3:1-5).


Somente quando a fé começa a produzir obras, o cristão é confrontado pelo amargo antagonismo. Somente quando sente que deve compensar o tempo, pois os dias são maus, ele é impelido a pregar a Palavra no tempo e fora do tempo, a falar como um homem na iminência de morrer fala com outros homens prestes a morrer - quando não mais consegue compactuar com alegrias fúteis ou prazeres momentâneos, sabendo que essas coisas são apenas uma ilusão usada pelo diabo a fim de esconder dos homens a margem da morte na qual estão caminhando, até vir o tempo de despedaçá-los e jogá-los no precipício.

Logo, se alguns forem inteligentes, não terão dificuldade em delinear a linha de separação, mas rapidamente encontrarão a cruz que devem carregar. Sentirão que, como seu Mestre, não pertencem ao mundo e, na verdade, terão tribulações.

Os homens sempre tenderam a suavizar e corromper as partes da Palavra de Deus que se opõem aos seus pensamentos e às suas aspirações. Todavia, uma ideia estranha e ímpia que prevalece nos dias atuais está destruindo os vestígios finais de autoridade bíblica e varrendo todo obstáculo restante para a paz entre a Igreja professa e o mundo. Trata-se de uma objeção que cresce com rapidez quanto ao que é chamado dogma.

O "dogma" é praticamente um termo convencional para designar as revelações e os mandamentos do Deus Altíssimo. Muitos que professam a crença na Bíblia nunca se cansam de admoestar-nos quanto a sermos caridosos para com aqueles que rejeitam toda a doutrina vital da Escritura e chegam a negar o Senhor que os comprou.

Dizem que, contanto que os homens sejam "honestos", tudo lhes irá bem no fim, que não devemos ter uma visão tão limitada, e que existem outras entradas para o aprisco ao lado da porta. Dizem também que esses indivíduos não são necessariamente ladrões ou usurpadores que pulam o muro, mas, talvez, espíritos mais destemidos e viris do que seus irmãos na fé.

É fácil ver que, por essa linha de raciocínio, todo poder é extraído das Escrituras. Em vez de serem reconhecidas como a Palavra viva Daquele que julgará os vivos e os mortos no futuro pelas coisas que foram escritas nelas, são vistos simplesmente como um volume ordinário de conselho ao homem, que, ao assumir o direito de aceitá-las ou rejeitá-las, sempre e como quiser, arrogantemente coloca a coroa da Deidade sobre a própria cabeça.

Logo, o grande meio que Deus indicou para a separação de Sua Igreja do mundo está destruído - a luz que revela o contínuo perigo e o terrível término do amplo caminho está apagada, e os homens prosseguem de forma imprudente, seduzidos com as futilidades do momento até serem precipitados no abismo.

Acerca da quinta causa, não há necessidade de falar demais, porque qualquer pessoa pode perceber o rápido crescimento de sua vizinhança. O mundo também nunca contemplou antes tão vasta agregação de vida humana. Porém, há um fenômeno de triste presságio, pois, enquanto se multiplicam, os homens também estão começando a revelar impaciência.

São muitos os que predizem uma segunda revolta de Babel. O tempo da agitação de todas as nações está se aproximando, e o coração de muitos já está levando-os ao medo e à procura daquelas coisas que estão vindo sobre a terra. Que os crentes considerem seus caminhos, pois o Senhor, em breve, descerá para ver o que os filhos dos homens estão fazendo...

Sempre que a Palavra de Deus é pregada com fé, ela não voltará para Ele vazia, mas fará o que Lhe apraz e prosperará naquilo para o que a designou (IS 55:11). Eis alguns efeitos que ela pode produzir sobre quem a ouvir: separa o joio do trigo; faz com que os homens se aproximem de Deus, ou se tornem mais duros do que antes; e prepara-os para o rápido julgamento.


¹⁵ Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem.

¹⁶ Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo? (2 Coríntios 2:15,16).


A sexta causa, como os fortes apelos de Enoque, os chamados que ele, em voz alta, fazia referentes ao arrependimento e às ameaças de juízo vindouro, uma vez que foram menosprezados pelo mundo, podem ter endurecido muito o coração dos homens e feito com que o Espírito de Deus parasse de lutar por eles.

É bastante provável que muitos tenham-se impressionado e alarmado no princípio, mas, depois de algum tempo, tenham visto os dias passarem sem qualquer sinal da vingança predita e perdido o medo. Voltaram a praticar seus pecados prediletos assim como volta o cachorro para o próprio vomito. Não mais poderiam ser despertados como antes, pois começaram a ser escarnecedores e zombaram dos mais solenes alertas.


²² Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama. (2 Pedro 2:21,22).


Sendo assim, podemos inferir que a apostasia e a semelhança geral dos nossos dias com os tempos difíceis dos últimos dias (como descritos por Paulo em 2 Timóteo 3:1-9), farão com que o mundo cristão sofra o castigo de ser judicialmente cego e irremediavelmente endurecido por ter rejeitado o Evangelho?

A sétima e mais temida característica dos dias de Noé foi o aparecimento ilícito de seres de outra esfera em meio aos homens. Porém, muitos dizem que este surgimento é certamente um acontecimento que ainda não aterrorizou nossa era, estranho como nossas experiências podem ser; diriam que ainda temos algo, pelo menos, a esperar antes da compleição desse círculo fatal de influências que arruinaram o mundo.

Todavia, uma comparação diligente da Escritura Sagrada com as coisas que estão ocorrendo hoje em nosso meio nos dará uma impressão muito diferente e induzirá uma forte convicção de que os postos avançados desse último inimigo terrível já atravessaram nossas fronteiras, pois não é mais possível negar o caráter sobrenatural da apostasia chamada de espiritualismo, que se está disseminando pelo mundo com rapidez sem precedentes e atrai seus admiradores e os retém com suas garras tão somente por apresentar contínuas exibições do miraculoso.

E vão falar sobre esse poder como sendo mero charlatanismo, que tem convencido alguns da elite do mundo literário, e apanhado, em suas armadilhas, muitos homens da ciência que, no princípio, apenas se preocuparam em investigar com o propósito de refutação. De fato, nada pode ser mais perigoso do que a descrença total, pois o incrédulo absoluto, se subitamente colocado face a face com o sobrenatural, é, dentre todos os homens, o mais propenso a render inteira submissão aos sacerdotes da nova maravilha. Muito melhor é perguntar, em oração, se essas coisas são possíveis, e, se forem, de que maneira a Bíblia nos ensina a enxergá-las. Devemos, assim, estar armados contra todos os embustes do Diabo.



4 de março de 2025

O Imago Mundi: Localização Babilônica Para a Arca de Noé

 

O Imago Mundi mostrando a localização babilônica da Arca de Noé
O Imago Mundi


O Mapa de 2.700 Anos que dá Instruções Para um Navio Bastante Familiar

A maioria das pessoas está familiarizada com o relato bíblico da arca de Noé - a embarcação que salvou Noé, sua família e pares de todos os animais terrestres do Grande Dilúvio. Menos estão familiarizados com os relatos paralelos da arca-dilúvio do mundo antigo. Relatos como o épico sumério de Gilgamesh, de mais de 4.000 anos, que conta a história de Utnapistim e sua arca, com paralelos ao relato bíblico até as espécies de pássaros liberados. Outro exemplo é o épico babilônico de Atrahasis, com paralelos incluindo a entrada de animais no barco dois a dois.

Menos ainda estão familiarizados com um mapa babilônico de 2.700 anos que, na verdade, pretende dar instruções para a localização da arca de Noé (ou melhor, a arca de Ziusudra - como ele é chamado no relato babilônico - um nome que significa "Aquele de Longa Vida"). Este mapa é conhecido como Imago Mundi (em inglês) - também conhecido como Mapa Babilônico do Mundo.

Este antigo e rudimentar mapa de tablete de argila tem sido manchete no mundo todo, com sua conexão com a "arca de Noé" enquadrada como sendo o resultado de uma pesquisa totalmente nova. Na verdade, essa pesquisa não é "nova" - a reportagem sobre esta peça parece ter surgido simplesmente de um vídeo recente (em inglês) carregado no canal do YouTube do Museu Britânico, com o Dr. Irving Finkel resumindo o artefato na Série 9, Episódio 5 do Curator's Corner.

Com o interesse renovado por este item na esfera pública, esse é um momento oportuno para revisitar este artefato notável e sua referência mais intrigante à localização da arca.


Mapa do Mundo

O Museu Britânico contém cerca de 150.000 tábuas cuneiformes - comparativamente poucas das quais estão em exposição; a grande maioria é mantida em arquivo e aguarda pesquisa. Entre sua vasta coleção, o Imago Mundi (Mapa do Mundo) se destaca como uma das peças mais significativas e reconhecíveis. O item foi adquirido pelo Museu Britânico em 1882, após as escavações do assiriologista Hormuzd Rassam (em inglês) em Sippar (Iraque central). O anverso (frente) da tábua traz um "mapa" circular e rudimentar com várias linhas de texto acima, e um reverso com texto adicional explicando o mapa com mais detalhes. Datado no mínimo do século IX a.C. - ou mais provavelmente em algum lugar mais próximo do século VII a.C. - o item é famoso por ser o mapa mais antigo do mundo conhecido.

A borda circular externa do mapa é marcada com texto cuneiforme descrevendo-o como o “Rio Amargo” - essencialmente cercando, figurativamente, o mundo mesopotâmico conhecido. Dentro deste círculo há um rio retangular norte-sul, que representa o Eufrates. Este rio é interceptado perto do topo por um retângulo representando a Babilônia, uma cidade bissecionada na antiguidade pelo rio. Ao redor da periferia interna do mapa circular há vários pequenos círculos, cada um representando cidades e tribos. A cidade persa de Susa está localizada na parte inferior do mapa.

O mais interessante, para nossos propósitos, são as extensões triangulares que se projetam do mapa. Elas representam - novamente, muito rudimentarmente - misteriosos territórios montanhosos nos limites do mundo conhecido. Embora a maioria desses triângulos esteja faltando, originalmente haveria oito deles, e eles correspondem especificamente a divisões de textos no verso da tábua, que explicam esses locais com mais detalhes.

O problema era que, como descoberto originalmente, apenas três triângulos foram preservados no mapa, e era quase impossível tentar relacioná-los à lista de explicações no verso da tábua. Isto é, até meados da década de 1990, quando uma aluna do Dr. Irving Finkel - Edith Horsley - encontrou um fragmento em miniatura com um triângulo no arquivo do Museu Britânico. O fragmento se encaixou perfeitamente em uma lacuna dentro do Imago Mundi, e com as palavras-chave deste triângulo contidas nele, foi possível identificar o bloco de texto reverso relacionado especificamente a ele, e assim a ordem do resto do texto relacionado aos triângulos.


Desenho inicial do Imago Mundi
Desenho inicial do Imago Mundi. Observe o espaço para o triângulo então ausente (centro à direita) - a peça crítica que desvendou o quebra-cabeça


De particular destaque foi uma seção de texto relacionada ao triângulo (ou “montanha”).


"Parsiktu - Navio"


O texto reverso fragmentário relacionado a este triângulo diz:


[Para o lugar], para o qual você deve viajar sete léguas, …]

[Os …] … são tão grossos quanto um parsiktu - navio; 10 dedos [grossos seus …]

Para o observador casual, isso pode não parecer ter muita importância. Mas para um assiriologista experiente, é imediatamente chamativo. Como o Dr. Finkel explica no vídeo recente:

Diz que você vê algo... "tão espesso quanto um parsiktu - navio". Essa medida parsiktu é algo para um assiriologista, que faz seus cabelos ficarem em pé. E o fato é que só é conhecida uma vez em tábuas cuneiformes. E é uma tábua cuneiforme bem interessante também, porque é a descrição da arca, que foi construída, teoricamente, por volta de 1800 a.C. pela versão babilônica de Noé [conforme relatado na "Tábua da Arca" babilônica]. E nesse relato, os detalhes são dados: o deus diz, "você tem que fazer isso, isso e isso"; e então o Noé babilônico disse, "eu fiz isso, isso e isso, eu o fiz, e eu fiz essas estruturas tão grossas quanto um parsiktu - navio", ele diz de sua própria boca, na história original.

Então, essa palavra parsiktu é como um tipo de ruído alarmante; ela imediatamente se encaixa nessa coisa do mapa, de forma imediata e incontestável. Então, o que isso significa, falando claramente... é que se você subisse todo o caminho nessa montanha... eventualmente você veria contra o céu noturno, ou o céu escuro do universo exterior, silhuetadas das vigas feitas de madeira, tão grossas quanto um parsiktu - navio, do naufrágio da arca babilônica, que, como a da Bíblia, veio a pousar em uma montanha.

Isso não é tudo. Há outro título de interesse particular gravado no mapa ao lado desta montanha. O Dr. Finkel continua:

Se você descer a montanha e cruzar a água, de volta à terra natal, o primeiro lugar que você chegaria é chamado Urartu. Está desenhado no mapa. Agora, o interessante sobre isso é que, na Bíblia, Noé, em sua arca, pousou em uma montanha cujo nome é Ararate. E Ararate é o equivalente hebraico do assírio Urartu.


O Reino de Urartu na Turquia: Imago Mundi
O Reino de Urartu, localizado principalmente no leste da Turquia, durante a primeira metade do primeiro milênio a.C.


Isso mostra que a história era a mesma e, claro, que uma levou à outra. Mas também, que do ponto de vista babilônico, isso era uma questão de fato: que se você fizesse essa jornada, veria os restos desse barco histórico, que salvou toda a vida do mundo... ainda ali nos penhascos contra o céu escuro.

 

As vigas da arca de Noé se vista no céu noturno: Imago Mundi
As vigas da arca se erguem contra o céu noturno (“O Mapa Babilônico do Mundo, por Irving Finkel”)

Relatos de Visitação

É uma descoberta arqueológica notável. No entanto, embora o Imago Mundi seja único como artefato, ele não é único em descrever o lugar da arca como um local específico no qual seus restos ainda podem ser visitados.

O historiador do primeiro século Josefo relata o seguinte, ao recontar a história de Noé em Antiguidades dos Judeus: “[O]s armênios chamam este lugar de O Lugar da Descida ou Saída; pois a arca tem sido mantida naquele lugar, e seus restos são mostrados lá pelos habitantes até hoje.” Flávio Josefo, então, cita o historiador babilônico do início do terceiro século a.C. Beroso (entre outros):


Busto romano do primeiro século de Josefo: Imago Mundi
Busto romano do primeiro século que se acredita representar Josefo


Agora, todos os escritores de histórias bárbaras fazem menção a esse dilúvio e a essa arca; entre os quais está Beroso, o caldeu. Pois quando ele descreve as circunstâncias do dilúvio, ele continua assim: "Dizem que ainda há alguma parte desse navio na Armênia, na montanha dos cordiens; e que algumas pessoas levam pedaços do betume, que eles levam embora com o qual ela estava recoberta, e dele se servem como impermeabilizante".

Jerônimo, o egípcio, também, que escreveu as Antiguidades Fenícias, e Mnazeas, e muitos outros, fazem menção ao mesmo. Nicolau de Damasco, em seu nonagésimo sexto livro, tem uma relação particular sobre eles; onde ele fala assim: "Há na Armênia, na província de Miniade, uma alta montanha chamada Baris, sobre a qual, diz-se, muitos se salvaram durante o dilúvio, e que uma arca cujos restos se conservaram por vários anos, e na qual um homem se havia encerrado, deteve-se no cume dessa montanha. Há probabilidade de que esse homem é aquele de que fala Moisés, o legislador dos judeus". (História dos Hebreus).


Avançando vários séculos depois, o Talmude relata outro relato peculiar, alegando que o próprio rei assírio Senaqueribe visitou o local da arca, recuperando uma tábua e transformando-a em um ídolo chamado Nisroque:


Senaqueribe foi e encontrou uma viga da arca de Noé, da qual ele moldou um deus. Ele disse: “Se aquele homem (referindo-se a si mesmo) for e tiver sucesso [na batalha], ele sacrificará seus dois filhos diante de vocês." Seus filhos ouviram seu compromisso e o mataram. Este é o significado do que está escrito: “E aconteceu que, enquanto ele estava adorando na casa de Nisroque, seu deus, Adrameleque e Serezer, seus filhos, o feriram com a espada, porém eles escaparam para a terra de Ararate...” (2 Reis 19:37), onde a arca de Noé havia parado (Sanhedrin 96a em inglês).


É uma história interessante à luz do relato bíblico familiar do assassinato de Senaqueribe - principalmente por causa da referência bíblica incomum de Ararate (algumas traduções dão “Armênia”; o hebraico lê, literalmente, “Ararate”, embora as regiões sejam amplamente vistas como sinônimos). Além disso, “Nisroque” (נסרך) é uma divindade totalmente desconhecida no panteão mesopotâmico. A palavra tem sido tradicionalmente relacionada à palavra aramaica neser (נסר), que significa “tábua” ou “prancha”.

Relevo rochoso de Senaqueribe no sopé do Monte Judi: Imago Mundi
Molde de um relevo rochoso de Senaqueribe no sopé do Monte Judi

Esta história incomum no Talmude pode não ser tão absurda quanto parece: a quinta campanha de Senaqueribe o levou a estas regiões de Urartu. Na verdade, uma das montanhas desta região - com inscrições esculpidas nas faces rochosas pelos trabalhadores braçais de Senaqueribe - por acaso é uma concorrente para a localização da arca de Noé (Monte Judi em inglês). O próprio palácio de Senaqueribe continha pedras extraídas desta montanha.

Mas talvez a visita de Senaqueribe, e a deferência a tal local, não devesse ser tão incomum. Afinal, ele pode muito bem ter seguido um mapa não muito diferente de um que data do mesmo período em circulação entre sua própria povoação — o Imago Mundi.



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