Parte 2 – Ninrode e a Tradição
Ato VIII: Pseudo-Fílon e a Fornalha
Uma das primeiras testemunhas importantes para a associação entre Ninrode e Abraão é o Livro das Antiguidades Bíblicas, atribuído tradicionalmente a Pseudo-Fílon. Van der Toorn e van der Horst observam que, em Liber Antiquitatum Biblicarum 4–6, encontramos uma tradição desenvolvida sobre Ninrode. Em 6, Abraão se recusa a participar do projeto da grande torre e acaba sendo lançado numa fornalha por ordem de Ninrode, mas Deus o preserva.
Esse dado é importante porque demonstra que a associação entre Ninrode, Babel e a fornalha de Abraão já circulava em literatura judaica antiga. Mas existe uma nuance fundamental: Pseudo-Fílon não é Gênesis. Trata-se de uma expansão narrativa posterior, provavelmente do século I d.C., que interpreta e amplia elementos da tradição bíblica.
Van der Toorn observa ainda que o motivo da fornalha possui antecedentes anteriores nos Jubileus, onde Ur dos Caldeus já podia ser relacionado à ideia do fogo, embora Ninrode ainda não apareça nesse episódio. Isso demonstra que diferentes tradições foram sendo progressivamente combinadas até produzir a narrativa posterior de Ninrode como perseguidor de Abraão.
Ato IX: Josefo e a Fusão Entre Ninrode e Babel
Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas 1.113–116, representa uma etapa decisiva. Josefo apresenta Ninrode como um homem poderoso que persuadiu os habitantes de Sinear a atribuírem sua prosperidade à própria força, e não a Deus. O governo transforma-se em tirania, e Ninrode passa a ser o principal instigador da construção da torre.
Josefo acrescenta uma motivação que não está em Gênesis 11. Segundo sua narrativa, Ninrode deseja construir uma torre suficientemente elevada para escapar de uma eventual nova inundação e, dessa maneira, desafiar o poder de Deus. A torre é construída com tijolos e betume; depois, Deus confunde as línguas e o projeto é interrompido.
Aqui podemos ver claramente a transformação literária: Josefo funde o Ninrode de Gênesis 10 com os construtores de Gênesis 11. O resultado é um personagem muito mais desenvolvida do que a encontrada no texto hebraico.
Isso não torna Josefo menos importante. Pelo contrário: ele é uma testemunha fundamental da história da interpretação de Ninrode. Mas sua narrativa deve ser classificada como tradição judaica do Período do Segundo Templo, e não como uma informação histórica adicional sobre o que aconteceu no período primordial.
Ato X: Jubileus e a Expansão da Torre
O Livro dos Jubileus também amplia significativamente a narrativa de Babel. Em Jubileus 10:18–27, a construção da cidade e da torre é situada na terra de Sinear; os construtores dizem que subirão por ela “até o céu”; o texto acrescenta detalhes sobre os tijolos, o betume, a duração da construção e a subsequente confusão das línguas.
Entretanto, há uma cautela importante: Jubileus 10 não precisa ser usado como prova de que Ninrode construiu Babel. O capítulo desenvolve a narrativa da torre, mas o personagem Ninrode não é o centro dessa passagem. Van der Toorn destaca justamente que a tradição sobre Ninrode se desenvolveu por meio da combinação progressiva de diferentes elementos da memória bíblica e judaica.
Isso é importante para nossa metodologia. Uma fonte pode ampliar Babel sem necessariamente resolver a identidade de Ninrode. Outra pode associar Ninrode à torre sem fornecer evidência histórica independente. As tradições precisam ser lidas em sua sequência de desenvolvimento, não como se todas fossem testemunhos independentes do mesmo acontecimento.
Ato XI: O Targum Transforma Ninrode em Rebelde
Os targuns oferecem uma janela particularmente clara para a transformação do personagem. O Targum Pseudo-Jônatas traduz Gênesis 10:8 dizendo que Ninrode começou a tornar-se poderoso “em pecado” e a rebelar-se diante do Senhor. Em 10:9, ele é chamado de “poderoso rebelde diante do Senhor”.
O mesmo targum amplia ainda mais a narrativa em Gênesis 10:11, afirmando que Ninrode deixou as cidades anteriores porque não quis participar do conselho da geração da divisão e passou a reinar na Assíria, onde construiu outras cidades. A tradução aramaica, portanto, já está interpretando o texto por meio de uma tradição desenvolvida.
Van der Toorn observa que essa tradição chegou a produzir leituras diferentes e até contraditórias sobre Ninrode. Algumas fontes o apresentam como rebelde; outras preservam traços de uma imagem positiva, inclusive tradições em que ele combate os construtores da torre. A própria tradição de Ninrode não é monolítica.
Isso é importante porque impede uma simplificação comum: não existe uma única “lenda de Ninrode” transmitida intacta desde a Antiguidade. Existe uma história de interpretações, algumas convergentes e outras divergentes.
Ato XII: Ninrode e Abraão na Tradição Rabínica
A tradição rabínica posteriormente tornou explícito o confronto entre Ninrode e Abraão. Em (pode estar em inglês) Bereshit Rabbah (בראשית רבה) ou Gênesis Rabbah 38:13, Terá entrega Abraão a Ninrode, que exige que ele adore o fogo. Abraão responde mostrando que água apaga fogo, nuvens carregam água, vento dispersa nuvens e, portanto, nenhum desses elementos pode ocupar o lugar do Criador. Ninrode então ordena que Abraão seja lançado na fornalha.
Essa narrativa é teologicamente poderosa porque transforma Ninrode e Abraão em arquétipos opostos: Ninrode representa o poder que exige submissão; Abraão representa a fé que reconhece a soberania do Criador. Mas o episódio não pertence ao relato de Gênesis. É uma elaboração rabínica posterior.
Van der Toorn mostra que a tradição da fornalha passou por diversas etapas. Pseudo-Fílon já apresenta Ninrode como responsável pela tentativa de matar Abraão pelo fogo; Josefo, seu contemporâneo, não apresenta essa confrontação; posteriormente, os targuns e os midrashim desenvolvem a história em formas ainda mais elaboradas.
Essa evolução é precisamente o que torna a tradição historicamente interessante. Ela mostra como Babel, idolatria, Ur dos Caldeus, rebelião e Abraão foram sendo conectados em uma única narrativa teológica.
Ato XIII: Três Hipóteses, Uma Figura Enigmática
Ao reunir a pesquisa, precisamos evitar uma falsa escolha entre “Ninurta” e “Sargão”. As propostas respondem a perguntas parcialmente diferentes. Van der Toorn procura um protótipo mesopotâmico e considera que a combinação de atributos aponta fortemente para Ninurta. Levin procura explicar a formação histórica da figura através da combinação das tradições de Sargão e Naram-Sin. Jones investiga a memória literária de Sargão no ambiente neoassírio do século VII a.C.
Essas hipóteses não possuem o mesmo grau de aceitação nem precisam ser mutuamente exclusivas. É possível que diferentes tradições mesopotâmicas tenham contribuído para a formação de uma figura bíblica posterior. Mas isso não pode ser afirmado como fato sem evidência adicional. O rigor está justamente em preservar a diferença entre paralelo, influência provável e identificação histórica.
O que permanece seguro é a localização de Ninrode no mundo mesopotâmico e sua associação literária com Babel, Ereque, Acade e Assíria. O que permanece hipotético é a reconstrução do processo pelo qual esses elementos foram reunidos no personagem.
Não possuímos uma inscrição mesopotâmica que diga: “Ninrode era Ninurta”, “Ninrode era Sargão” ou “Ninrode era Naram-Sin”. O que possuímos são conjuntos de evidências que permitem formular modelos explicativos. É exatamente por isso que Christopher Jones ainda inicia seu estudo de 2022 afirmando que não existe consenso sobre a identificação histórica ou mitológica de Ninrode.
Ato XIV: O Padrão de Babel
É somente depois de separar essas camadas que podemos avançar para uma leitura teológica do chamado “padrão de Babel”. Gênesis 11 apresenta uma humanidade concentrada em Sinear, empenhada em construir uma cidade e uma torre, buscando “fazer um nome” para si mesma e evitando a dispersão sobre a terra. O texto apresenta, portanto, centralização, identidade coletiva, monumentalização e autonomia humana como elementos importantes da narrativa. (Gn 11:1–9).
Teologicamente, a rebelião de Babel reside na tentativa de unificar a humanidade sob um poder centralizado que busca autossuficiência existencial e política, rejeitando o mandato divino de encher a terra. É o esforço humano de tocar o céu por esforço próprio, substituindo a adoração a Deus pela autoglorificação do Estado ou do coletivo.
Mas devemos resistir à tentação de transformar essa passagem em uma fórmula automática para interpretar qualquer estrutura política moderna. Gênesis 11 não fala de inteligência artificial, governo mundial, tecnocracia, moedas digitais ou sistemas contemporâneos. Essas aplicações pertencem a uma etapa posterior de interpretação teológica.
O que podemos fazer legitimamente é perguntar se determinados padrões históricos de concentração de poder podem ser comparados, por analogia, aos temas de Babel. A comparação é possível; a identificação automática não é. Essa distinção é especialmente importante em um estudo que pretende unir exegese, história e análise geopolítica.
Assim, embora o texto bíblico não cite ferramentas modernas, o espírito de Babel ecoa na atualidade. Ele se faz presente na ambição de sistemas globais que utilizam a padronização cultural, a vigilância e a centralização de poder como visto na Torre de Babel para moldar o comportamento humano; operando sob a premissa de que a humanidade pode resolver suas maiores crises de identidade, segurança e destino sem qualquer referência ao próprio Deus Todo-Poderoso.
Ato XV: O Veredito da Pesquisa
O resultado da investigação deste dossiê é paradoxal. Quanto mais estudamos Ninrode, mais percebemos que não possuímos uma biografia histórica segura dele. Entretanto, quanto mais investigamos suas tradições, mais clara se torna a enorme importância cultural do personagem.
O Ninrode bíblico é pequeno em extensão textual, mas gigantesco em sua recepção histórica. Gênesis fornece um poderoso caçador associado aos grandes centros da Mesopotâmia. A tradição mesopotâmica oferece paralelos com Ninurta e com a memória de reis imperiais. A literatura judaica amplia a figura. Josefo transforma Ninrode em protagonista de Babel. Os targuns enfatizam sua rebelião. A tradição rabínica o coloca diante de Abraão.
Van der Toorn e van der Horst mostraram que a melhor maneira de estudar Ninrode não é simplesmente repetir a tradição, mas reconstruir suas diferentes camadas. Ninrode antes da Bíblia, Ninrode em Gênesis e Ninrode depois da Bíblia não são exatamente o mesmo personagem literário.
A hipótese de Ninurta continua sendo uma das mais importantes propostas para explicar a formação do personagem. A hipótese de Sargão e Naram-Sin, de Levin, oferece outro modelo. A proposta de Jones acrescenta uma possível dimensão neoassíria e imperial. Nenhuma delas deve ser transformada em dogma histórico.
Epílogo: O Homem, o Mito e a Memória
Quando retiramos de Ninrode tudo aquilo que foi acrescentado posteriormente, encontramos um personagem enigmático: descendente de Cuxe, poderoso na terra, famoso como caçador e associado a Babel, Ereque, Acade, Sinear e Assíria.
Quando recolocamos as tradições, Ninrode cresce novamente. Ele se torna o rebelde, o tirano, o construtor de Babel, o perseguidor de Abraão e o símbolo do poder humano que se levanta contra Deus. Mas essa segunda imagem não deve ser confundida com a primeira. Ela é o resultado de séculos de interpretação.
É justamente aí que Ninrode se torna fascinante. Ele não é apenas um personagem de Gênesis; tornou-se uma memória cultural através da qual diferentes gerações refletiram sobre poder, império, cidade, idolatria, centralização e Babel.
Talvez seja essa a melhor maneira de encerrar a investigação: Gênesis fornece o personagem; a Mesopotâmia fornece o ambiente cultural; a pesquisa histórica procura possíveis memórias por trás do personagem; a literatura judaica amplia sua biografia; e a tradição transforma Ninrode em arquétipo.
O rigor exige que cada uma dessas camadas permaneça identificável. Quando confundimos tradição com Escritura, produzimos lenda apresentada como exegese. Quando distinguimos texto, evidência, hipótese e tradição, a figura de Ninrode se torna ainda mais interessante.
Em síntese, o que podemos afirmar?
- Gênesis 10:8–12 apresenta Ninrode como descendente de Cuxe, poderoso na terra e poderoso caçador, associado a Babel, Ereque, Acade, Sinear e Assíria.
- Gênesis 11:1–9 não menciona Ninrode como construtor da Torre de Babel.
- Sinear não é Sippar: Sinear é uma designação territorial para o sul da Mesopotâmia; Sippar é uma cidade.
- Van der Toorn (1990) considera que as evidências disponíveis favorecem fortemente a hipótese de que Ninrode tenha sido modelado a partir de Ninurta, embora a derivação filológica do nome permaneça não demonstrada.
- Yigal Levin (2002) propõe que a figura bíblica combine tradições relacionadas a Sargão de Acade e Naram-Sin.
- Christopher W. Jones (2022) propõe que Gênesis 10:8–12 seja compreendido no contexto da memória neoassíria de Sargão e da ideologia imperial do século VII a.C.
- Josefo, Antiguidades Judaicas 1.113–116, associa Ninrode à rebelião e à construção da Torre de Babel.
- Jubileus 10:18–27 amplia a narrativa da Torre de Babel, mas não deve ser usado isoladamente como prova de que Ninrode a construiu.
- Pseudo-Fílon, Antiguidades Bíblicas 6, apresenta uma forma antiga da tradição em que Ninrode ordena que Abraão seja lançado numa fornalha.
- Targum Pseudo-Jônatas, Gênesis 10:8–9, transforma explicitamente Ninrode em pecador e rebelde diante do Senhor.
- Bereshit Rabbah 38:13 desenvolve posteriormente o confronto entre Ninrode e Abraão e a narrativa da fornalha.
Fontes Principais:
- Karel van der Toorn; P. W. van der Horst, “Nimrod Before and After the Bible”, Harvard Theological Review 83, no. 1 (1990), pp. 1–29. O artigo divide-se explicitamente entre a investigação do possível protótipo de Ninrode e o desenvolvimento da tradição pós-bíblica.
- Yigal Levin, “Nimrod the Mighty, King of Kish, King of Sumer and Akkad”, Vetus Testamentum 52, no. 3 (2002), pp. 350–366.
- Christopher W. Jones, “The Literary-Historical Memory of Sargon of Akkad in Assyria as the Background for Nimrod in Genesis 10:8–12”, Journal of Biblical Literature 141, no. 4 (2022), pp. 595–615.
- Gênesis 10:8–12; 11:1–9 — textos bíblicos fundamentais.
- Josefo, Antiguidades Judaicas 1.113–116 — desenvolvimento antigo da associação entre Ninrode, rebelião e Babel.
- Livro dos Jubileus 10:18–27 — expansão da narrativa da Torre de Babel.
- Pseudo-Fílon, Antiguidades Bíblicas 6 — tradição antiga da confrontação entre Ninrode e Abraão.
- Targum Pseudo-Jônatas, Gênesis 10:8–11 — desenvolvimento targúmico da imagem de Ninrode como rebelde.
- Gênesis Rabbah 38:13 — desenvolvimento rabínico do confronto entre Abraão e Ninrode.
