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11 de agosto de 2026

Dois Poderes no Céu

Dois poderes no céu: Deus e Jesus


O Embrião da Ideia: O Deus Visível e Invisível no Antigo Testamento

O erudito Dr. Michael S. Heiser enfatiza que o Antigo Testamento apresenta Deus em duas formas distintas: invisível e transcendente, mas também visível e imanente. Essa duplicidade não é apenas literária, mas teológica, e abre espaço para pensar em múltiplas manifestações da divindade.


  • O Anjo do Senhor e o Nome (Êxodo 23:20-21): Deus anuncia que enviará um Anjo diante de Israel e afirma que “o meu Nome está nele”. No pensamento semítico, o Nome (Hashem) não é apenas um título, mas a própria essência divina. Esse Anjo, portanto, age com autoridade plena, como se fosse o próprio YHWH.


²⁰ Eis que eu envio um anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho, e te leve ao lugar que te tenho preparado.
²¹ Guarda-te diante dele, e ouve a sua voz, e não o provoques à ira; porque não perdoará a vossa rebeldia; porque o meu nome está nele. (Êxodo 23:20,21).


  • O Nome como Pessoa (Isaías 30:27): o Nome do Senhor é descrito como vindo de longe, ardendo em ira, o que o apresenta como uma entidade viva e ativa, quase personificada.


²⁷ Eis que o nome do Senhor vem de longe, ardendo a sua ira, sendo pesada a sua carga; os seus lábios estão cheios de indignação, e a sua língua é como um fogo consumidor. (Isaías 30:27).


  • A Palavra de YHWH (1 Samuel 3:1, 21): Samuel não apenas ouve a Palavra, mas a vê manifestar-se em Siló. A “Palavra” (Dabar) não é mero som, mas uma presença corpórea que se manifesta diante dele.


¹ E o jovem Samuel servia ao Senhor perante Eli; e a palavra do Senhor era de muita valia naqueles dias; não havia visão manifesta. (1 Samuel 3:1).

²¹ E continuou o Senhor a aparecer em Siló; porquanto o Senhor se manifestava a Samuel em Siló pela palavra do Senhor. (1 Samuel 3:21).


Heiser mostra que essas passagens já sugerem uma duplicidade divina. Alan F. Segal complementa ao observar que os rabinos posteriores precisaram reinterpretar esses textos para evitar que se consolidasse uma visão de “dois poderes” legítimos no céu, o que poderia comprometer o monoteísmo estrito.


Os Textos de "Dois Tronos" e "Duas Figuras"

Heiser destaca que algumas passagens bíblicas são ainda mais explícitas ao sugerir duas figuras divinas distintas compartilhando autoridade.


  • Daniel 7:9-14: Daniel vê tronos (no plural) sendo colocados. O Ancião de Dias se assenta, mas logo aparece o Filho do Homem, que cavalga as nuvens — título exclusivo de YHWH — e recebe domínio eterno. Essa cena é central porque mostra duas figuras distintas compartilhando atributos divinos.


⁹ Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um ancião de dias se assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã; e seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas de fogo ardente.
¹⁰ Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões assistiam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros.
¹¹ Então estive olhando, por causa da voz das grandes palavras que o chifre proferia; estive olhando até que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito, e entregue para ser queimado pelo fogo;
¹² E, quanto aos outros animais, foi-lhes tirado o domínio; todavia foi-lhes prolongada a vida até certo espaço de tempo.
¹³ Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele.
¹⁴ E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído. (Daniel 7:9-14).


  • Gênesis 19:24: o texto hebraico afirma que “YHWH fez chover fogo da parte de YHWH”, mostrando uma duplicidade de presença divina, uma na terra e outra nos céus.


²⁴ Então o Senhor fez chover enxofre e fogo, do Senhor desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra; (Gênesis 19:24).


  • Salmos 110:1: “Disse YHWH ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita”. Aqui, duas figuras supremas compartilham autoridade, uma convidando a outra a reinar ao seu lado.


¹ Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. (Salmos 110:1).


Heiser interpreta essas passagens como evidências de que o Antigo Testamento já apresentava uma teologia de duas figuras divinas. Segal, por sua vez, mostra que textos como Daniel 7 foram reconhecidos pelos rabinos como perigosos, pois permitiam uma leitura binitária. Por isso, a tradição rabínica posterior declarou essa interpretação herética, consolidando o monoteísmo como marca identitária.


Evidências em Textos Extra-Bíblicos (Judaísmo do Segundo Templo)

Heiser recorre à literatura intertestamentária para mostrar que a ideia de duas figuras divinas não era marginal, mas parte de um debate vivo entre os judeus antes de Jesus.


  • 1 Enoque 46-48: descreve o Filho do Homem como pré-existente e investido de autoridade universal, expandindo a visão de Daniel 7.


Capítulo 46
1 Lá eu vi Aquele que possui uma cabeça de ancião, e esta era branca
como a lã; e junto dele havia um outro, cujo aspecto era de um homem, o
seu rosto era cheio de graça, semelhante ao de um Anjo Santo. Perguntei ao
Anjo que me acompanhava, e que me revelava todos os segredos, quem era
aquele filho do homem, de onde procedia, e por que estava com Aquele que
tem uma cabeça grisalha.
2 Deu-me como resposta: "Este é o Filho do Homem, o detentor da
Justiça, que com ela mora e que revela todos os tesouros secretos; pois Ele
foi escolhido pelo Senhor dos Espíritos, e o seu destino excede a tudo em
retidão diante do Senhor dos Espíritos, por toda a eternidade. Esse filho dos
homens, que viste, faz os reis e os poderosos se ergueram de suas camas e
aos fortes abala nos seus tronos; dissolve o comando dos fortes e tritura os
dentes dos pecadores.
3 "Ele expulsa os reis dos seus tronos e dos seus reinos, porque eles não
O exaltam e louvam, nem reconhecem com agradecimento de onde lhes
adveio a realeza. Ele derruba a face dos fortes e enche-os de vergonha. A
sua moradia se converterá em trevas e sua sepultura estará cheia de vermes;
jamais deverão pensar em levantar-se de suas sepulturas, porque não
exaltam o Nome do Senhor dos Espíritos.
4 "E são eles que julgam as estrelas do céu e que erguem as suas mãos
contra o Altíssimo, que humilham a terra em que habitam e cujas obras
revelam em tudo a iniqüidade; o seu poder apóia-se na sua riqueza e a sua
fé volta-se para os deuses que eles criaram com suas próprias mãos; mas
renegam o Nome do Senhor dos Espíritos. Eles perseguem as casas das
reuniões dos crentes que permanecem fiéis ao Nome do Senhor dos
Espíritos.

Capítulo 47
1 "Naqueles dias, porém, a oração e o sangue dos justos subirão da terra
até a presença do Senhor dos Espíritos. Naqueles dias, os Santos que
moram no céu rezam a uma só voz, suplicam, louvam, agradecem e
glorificam o Nome do Senhor dos Espíritos, pela oração e pelo sangue
derramado dos justos, para que não tenham vivido em vão diante do Senhor
dos Espíritos, para que se cumpra neles o Julgamento, mas que este não
seja para eles uma sentença eterna."
2 Naqueles dias eu vi como o Ancião assentou-se sobre o trono da sua
Majestade, quando diante dele foram abertos os livros dos vivos, e como
toda a sua coorte, que está no céu e O cerca, prostrou-se na sua presença.
3 O coração dos Santos exultava de alegria porque foi trazido o número
dos justos, porque foi ouvida a sua oração e porque o seu sangue foi
vingado diante do Senhor dos Espíritos.

Capítulo 48
1 Naquele lugar, eu vi o poço da Justiça; ele era inesgotável, e ao seu
redor havia muitos poços de Sabedoria. Todos os que tinham sede bebiam
deles e eram saciados de sabedoria e moravam junto aos Justos, aos Santos
e ao Eleito.
2 E, naquela hora, o Filho do Homem era mencionado diante do Senhor
dos Espíritos,e o seu Nome era referido diante do Ancião. Antes que
fossem criados o sol e os signos, e antes que fossem feitas as estrelas do
céu, o seu Nome era pronunciado diante do Senhor dos Espíritos.
3 Ele será um bordão para os justos, para que n'Ele possam apoiar-se e
não cair; Ele será a luz dos povos e a esperança dos aflitos. Todos os
habitantes da terra prostram-se aos seus pés; e adoram, glorificam, louvam
e entoam hinos ao Senhor dos Espíritos.
4 Para esse propósito Ele foi escolhido e mantido oculto junto d'Ele,
antes que o mundo fosse criado; e Ele será para todo o sempre. E a
Sabedoria do Senhor dos Espíritos revelou-O aos Santos e aos Justos; pois
Ele protege o destino dos justos, pois estes odiaram e aborreceram este
mundo de depravação, repudiando todas as suas obras e caminhos, em
nome do Senhor dos Espíritos. Em seu nome eles serão salvos, e do seu
beneplácito depende sua vida.
5 Naqueles dias, os reis da terra e os poderosos que possuem esta terra
ficarão com o semblante abatido por causa das obras das suas mãos; no dia
da sua angústia e privação não poderão salvar a alma.
6 Eu os entregarei então nas mãos do meu Escolhido; eles arderão como
palha ao fogo na presença dos Justos e submergirão como o chumbo na
água diante dos Santos, e não se encontrará mais sinal deles.
7 No dia da sua tribulação, estabelecer-se-á a paz sobre a terra; cairão na
presença deles e não mais poderão levantar-se. Ninguém então se
apresentará para tomá-los pela mão e reerguê-los, porque eles renegaram o
Senhor dos Espíritos e o seu Ungido. Louvado seja o Nome do Senhor dos
Espíritos!


  • Metatron (3 Enoque): chamado de “Pequeno YHWH”, carrega o Nome divino e se assenta em um trono celestial, funcionando como uma figura intermediária.
  • Filo de Alexandria: fala do Logos como um “Segundo Deus” (Deuteron Theos), mediador entre o Deus invisível e a criação.


Segal confirma que essas tradições eram comuns no judaísmo do Segundo Templo e só mais tarde foram rotuladas como heresia. Ele conecta essas ideias às correntes da mística Merkabah e ao gnosticismo, que também exploravam figuras intermediárias entre o divino e o mundo. Heiser usa esse material para reforçar sua tese: o cristianismo não inventou a ideia de Jesus como divino, mas identificou-o com uma figura já presente no imaginário judaico.


Como isso se conecta com Jesus no Novo Testamento

Para Heiser, o Novo Testamento é a chave que identifica Jesus como o “Segundo Poder” no céu.


  • João 1:1, 14: o Logos estava com Deus e era Deus, e se fez carne. João retoma a tradição do Logos de Filo e a aplica diretamente a Jesus.


¹ No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (João 1:1).

¹⁴ E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1:14).


  • Mateus 26:64: diante do Sinédrio, Jesus cita Daniel 7 e o Salmo 110, afirmando que o Filho do Homem virá sobre as nuvens e se assentará à direita do Poder.


⁶⁴ Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu. (Mateus 26:64).


O Sumo Sacerdote entende a implicação: Jesus está reivindicando para si o papel do “Segundo Poder” no céu. Heiser mostra que essa identificação não é uma invenção cristã, mas a concretização de uma teologia já presente no Antigo Testamento e na literatura judaica. Segal interpreta essa identificação como o ponto de ruptura entre judaísmo e cristianismo: para os rabinos, a leitura cristã era a concretização da heresia dos “Dois Poderes”, enquanto para os cristãos era a revelação plena daquilo que já estava insinuado nas Escrituras.


Contribuições de Alan F. Segal (Two Powers in Heaven - Dois Poderes no Céu)

Segal define a heresia dos “Dois Poderes no Céu” como a crença em duas autoridades divinas. Ele mostra que essa ideia foi debatida intensamente no século II d.C., época do Rabi Akiva Ben Yosef (ou Aquiba), e que não se tratava de uma importação externa, mas de uma possibilidade interpretativa interna ao judaísmo.


  • Natureza da heresia: inicialmente, alguns hereges viam os dois poderes como complementares; mais tarde, surgiram versões dualistas, com poderes opostos.
  • Impacto histórico: essa heresia se tornou um catalisador da separação entre judaísmo e cristianismo.
  • Abrangência: envolvia debates não apenas com cristãos, mas também com gnósticos e místicos judaicos.


Segal mostra que o “Dois Poderes” é chave para entender tanto a rejeição judaica quanto a afirmação cristã da divindade de Jesus. Heiser utiliza esse trabalho para reforçar sua tese: o cristianismo não inventou a ideia de Jesus como divino, mas se apropriou de uma teologia já existente, que os rabinos decidiram rejeitar.


Síntese Comparativa (Heiser x Segal)

Heiser e Segal não estão em oposição, mas em diálogo. Heiser mostra a continuidade bíblica e teológica: Jesus é o cumprimento da figura divina já presente no Antigo Testamento. Segal mostra a ruptura histórica e religiosa: o judaísmo rabínico se consolidou ao rejeitar essa leitura.


Aspecto

Michael S. Heiser

Alan F. Segal

Foco

Exegese bíblica, análise das Escrituras e literatura judaica do Segundo Templo

História das ideias, tradição rabínica e contexto pós-Templo

Tese Central

O NT identifica Jesus como o “Segundo Poder” já presente no AT

O “Dois Poderes” era uma leitura judaica legítima, depois rotulada como heresia

Fontes

Bíblia, apócrifos, pseudepígrafos, Filo, Enoque, tradição mística judaica

Midrash, Talmud, textos rabínicos, debates com cristãos e gnósticos

Impacto

Mostra continuidade entre AT e NT, legitimando a cristologia

Explica a ruptura entre judaísmo e cristianismo e a consolidação do monoteísmo rabínico

Implicação Teológica

Jesus é a concretização da figura divina já insinuada nas Escrituras

O rabinismo se afirma como guardião do monoteísmo estrito, rejeitando leituras binitárias




27 de janeiro de 2026

Jesus Cristo Foi Crucificado Numa Cruz ou em um Poste?

 

Foto de uma cruz, uma coroa de espinhos, pregos e um martelo em ambiente arenoso

Em sua dissertação “Crucificação na Antiguidade”, Gunnar Samuelsson não questiona a veracidade histórica dos documentos do Novo Testamento; em vez disso, ele afirma que as gerações posteriores de cristãos interpretaram esses documentos erroneamente. Ele se assemelha aos estudiosos do Novo Testamento que argumentam, por exemplo, que Jesus não nasceu em um estábulo, mas em uma casa judaica, que tipicamente incluía um espaço para os animais sob o mesmo teto.

Quando Lucas diz que "kataluma" estava cheia, a palavra não significa “estalagem”, como tradicionalmente traduzido, mas “quarto de hóspedes”. Como o quarto de hóspedes já estava ocupado, José e sua família receberam espaço na parte da casa onde os animais eram alojados. Essa hipótese pode questionar as imagens do nascimento de Jesus às quais nos acostumamos nos presépios, mas não contesta a historicidade dos relatos dos Evangelhos. Pelo contrário, visa nos ajudar a compreendê-los com mais precisão. 

De forma semelhante, a tese do Dr. Samuelsson é que a terminologia grega usada no Novo Testamento, como "stauros" (cruz) e "stauroo" (crucificar), não nos permite inferir que Jesus foi crucificado em uma cruz, e não em algum outro tipo de estrutura. Esta poderia ter o formato das letras do alfabeto “T”, “X”, “Y” ou “I”. Nada disso põe em dúvida o fato da crucificação de Jesus (entendida como sua fixação em algum tipo de estrutura de madeira até a morte), nem a confiabilidade dos relatos evangélicos sobre sua execução.

Samuelsson está correto ao afirmar que as palavras relevantes possuem uma gama de significados. Contudo, estudos de palavras isoladas do contexto pouco esclarecem o significado de um texto. Por exemplo, imagine que você ouça no noticiário da manhã: “A polícia atirou no suspeito enquanto ele tentava fugir”. Se você fizer um estudo da palavra "atirou", descobrirá que alguém pode ter sido atingido por uma arma de fogo, um arco e flecha, ou até mesmo um estilingue! Mas, quando analisada no contexto da reportagem, não há dúvida de que a palavra significa que o suspeito foi atingido por balas disparadas pelas armas dos policiais. Será, portanto, o contexto que determinará o significado de "stauros" em qualquer caso específico. 

Parte do problema em saber exatamente como Jesus foi crucificado reside no fato de termos pouquíssimas informações preservadas da antiguidade sobre como a crucificação era realizada. De fato, os relatos dos Evangelhos, que são notavelmente reservados em suas descrições do evento, são as descrições mais detalhadas que temos da crucificação no mundo antigo! Mas a descrição de Jesus carregando sua cruz é consistente com a prática romana de obrigar as vítimas a carregarem a trave transversal da cruz até o local da crucificação.

A fixação das mãos e dos pés de Jesus na estrutura de madeira é sugestiva. Em João 21:18-19, o tipo de morte que Pedro sofreria é prefigurado pelas palavras: “Estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”.


¹⁸ Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras.

¹⁹ E disse isto, significando com que morte havia ele de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me. (João 21:18,19).


O autor pagão do século II, Artemidoro, refere-se de forma semelhante a criminosos sendo “crucificados em um lugar alto e com as mãos estendidas” (Oneirocritica, Página 56 - versão em inglês). As mãos estendidas sugerem naturalmente uma extensão lateral. Artemidoro confirma isso quando afirma posteriormente: “Pois a cruz, como um navio, é feita de madeira e pregos, e o mastro do navio se assemelha a uma cruz.” (Oneirocritica, página 127 - versão em inglês).

A morte prefigurada de Pedro provavelmente é a crucificação, a mesma morte que seu Senhor sofreu. Jesus, portanto, provavelmente foi crucificado de maneira semelhante, com as mãos estendidas, o que descarta uma estrutura em forma de I. A placa com a acusação contra Jesus (um detalhe universalmente reconhecido como fundamento histórico) foi pregada na estrutura acima de sua cabeça, o que descarta estruturas em forma de T, X ou Y. Assim, os detalhes das narrativas da crucificação nos Evangelhos são todos consistentes com a compreensão tradicional de que Jesus foi crucificado em uma estrutura em forma de cruz.

Assim era a compreensão da Igreja primitiva sobre as narrativas da crucificação, como evidenciado pelas primeiras gravuras e pictografias da cruz, que remontam ao primeiro século. A dissertação de Samuelsson concentra-se exclusivamente na filologia e não leva em consideração a arqueologia ou a história da arte.



12 de julho de 2025

União Hipostática

 

Figura explicando a união hipostática de Jesus

União hipostática (do grego: ὑπόστασις hypóstasis, composto por duas palavras ὑπό, "por, sob" e ιστημι, "causar ou fazer ficar de pé, estabelecer, firmar") é um termo técnico na Teologia Cristã empregado principalmente na Cristologia com referência à encarnação para descrever a união das naturezas divina e humana de Cristo em uma pessoa.

No Concílio de Calcedónia, foi estabelecido pela Igreja Católica que nosso Senhor Jesus era Deus verdadeiro e homem verdadeiro, composto de alma racional e corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, e consubstancial a nós segundo a humanidade.

Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, afirma que "a natureza humana em Cristo, embora seja uma substância particular, como porém entra na união de um ser completo, isto é, de Cristo na sua totalidade, enquanto Deus e homem, não pode chamar-se hipóstase ou suposto; mas é esse ser completo, para o qual concorre, que se chama hipóstase ou suposto".


Desenvolvimento Teológico


Tertuliano

Cerca de um século antes do Primeiro Concílio de Niceia, Tertuliano, um bispo nascido em Cartago, já havia enfrentando o dilema do relacionamento entre a natureza humana e divina de Jesus. Ele sabia da necessidade de se enfatizar a divindade do Verbo, mas ao mesmo tempo em como conciliar isso com algo de igual importância, sua humanidade.

Tertuliano defende veemente a existência de duas naturezas na pessoa de Cristo, embora não fosse vista com bons olhos inicialmente pelos teólogos ocidentais de sua época, mas que, em seguida, se tornaria base para o estabelecimento da doutrina ortodoxa. Ele também aponta para a existência de uma alma racional em Cristo na sua obra De Carne Christi.


Controvérsias Sobre as Duas Naturezas de Cristo

Logo após a controvérsia ariana, a visão dos teólogos passou para a questão da natureza dupla de Cristo, onde os arianos viam uma forma de atacar a consubstancialidade do Deus Filho com o Pai. Argumentavam que se o Verbo Eterno é consubstancial com o Pai, logo é imutável, porque este é um atributo do Pai.

Mas, se o Verbo de Deus, após ter sido encarnado, recebeu extensões da natureza humana, então perdeu sua imutabilidade e portanto não podia ser divino no mesmo sentido que Deus Pai o era. A partir daí vários teólogos e escolas passaram a dar respostas para a questão do relacionamento entre a natureza humana e divina de Nosso Senhor Jesus Cristo.

No Oriente, duas eram as escolas que constantemente debatiam suas ideias em relação à cristologia e a ortodoxia doutrinária, a Escola teológica de Alexandria e a Escola de Antioquia. Os teólogos de Antioquia tinham um forte elemento sírio em seus ensinamentos e sempre enfatizavam as narrativas do Evangelho de forma literal, preocupados em revelar sempre o Jesus histórico e a verdadeira humanidade de Jesus.

Os antioquianos, como é o caso de Diodoro e seus alunos, diziam que a verdadeira interpretação bíblica de textos individuais deveria estar sempre relacionada com o contexto da história da salvação. Seu método interpretativo concentrava-se em situar o texto dentro do contexto das promessas de Deus e seus cumprimentos, tanto na vida de Israel quanto da Igreja. Além disso, os antioquianos sempre buscavam aplicações práticas da interpretação do texto bíblico para a vida cristã.

Por outro lado, os teólogos de Alexandria - Dídimo, o Cego e Cirilo - possuíam uma forte inclinação helenística e eram um grupo mais homogêneo, diferente de seus rivais antioquinos, onde parte deles possuía bases alexandrinas, o que tornou a cidade de Antioquia palco de grandes disputas entre os dois grupos.

Os alexandrinos interessavam-se particularmente nos eventos passados de Israel e buscavam um meio de gerar crescimento teológico e espiritual para seus leitores através de uma meditação profunda do mistério de Cristo.

Traçaremos a partir daqui as principais controvérsias, heresias e decisões finais dos concílios a respeito do tema da União Hipostática do Filho de Deus.


Paulo de Samósata

Bem conhecido por meio da História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, onde está relatada a forma pela qual ele veio a ser condenado, foi um teólogo do partido sírio que abraçou o adocionismo de Teódoto de Bizâncio e Artemas em sua cristologia. Não foi condenado apenas por isto, mas também por levar um modo de vida mundano e divergente da fé cristã com constante luxo, altivez e ostentação, sendo acusado de extorquir a fé de irmãos que estavam em desespero espiritual, oferecendo ajuda espiritual em troca de salário.

Ele acreditava que em Deus havia apenas uma pessoa, porém podemos distinguir em Deus a razão e a sabedoria. Esta razão e sabedoria não possuem subsistência por si mesmas, mas são meras faculdades ou atributos de Deus. Esta razão (logos), atuou em Moisés, nos profetas, mas principalmente e de forma especial no Filho de Davi.

Jesus era, de acordo com Paulo de Samósata, apenas um homem. Ele era "daqui debaixo", mas a Palavra (logos) impessoal o inspirou lá de cima e uniu-se a ele de forma que Jesus era apenas um templo. A conclusão dele é que Jesus não era Deus corporalmente, mas apenas um homem. Sua doutrina rapidamente foi condenada por Málquio de Antioquia e outros do partido origenista.


Eustácio de Antioquia

Esta doutrina possui a base pela qual houve o cisma permanente entre as escolas de Alexandria e Antioquia. Eustácio, assim como Paulo de Samósata, acreditava que a divindade de Jesus era impessoal (esta doutrina foi rejeitada posteriormente pelos antioquianos). A fim de enfatizar a humanidade de Jesus, Eustácio distinguia claramente o divino e o humano nele, onde a união entre estes dois elementos se dava pela combinação da vontade humana com a divina, de tal modo que a primeira sempre concordaria com a última.

Como conclusão de seu ensino, Jesus era verdadeiramente um homem em sua natureza, com corpo e alma humanos, consubstancial quanto à humanidade conosco, onde habitava a Sabedoria impessoal de Deus, estando presente em Jesus como se ele fosse um templo preparado para ela.


Diodoro de Tarso

Seguidor de Eustácio, manteve praticamente a mesma ideia da cristologia de seu mentor, porém com a diferença que agora Diodoro assumiu o caráter pessoal da divindade de Jesus, a qual já estava estabelecida no seu tempo por discussões anteriores. Segundo Diodoro, o Verbo habitava em Jesus como em um templo ou como habitou nos profetas do Antigo Testamento com a diferença de que em Jesus essa moradia seria permanente.

Mas o problema foi adiante, pois não era apenas uma questão sobre a diferença entre habitação - ou templo - e aquele que habita nela; o problema é que isso gerava a ideia de distinção entre o Filho de Deus e o Filho de Davi, e foi por causa da doutrina dos dois filhos que todas as obras de Diodoro foram destruídas.


Teodoro de Mopsuéstia

Este teólogo é motivo de muitas controvérsias até hoje, pois alguns estudiosos consideram sua doutrina ortodoxa e outros a consideram não-ortodoxa. Da mesma forma que Diodoro, Teodoro ensinava que havia duas pessoas em Cristo, onde a divina é uma e a humana é outra. A união entre as duas naturezas ocorre por meio da comunhão entre a vontade e o pensamento. Seu pensamento seria precursor para as ideias de Nestório ao negar o título teótoco para Maria, porque segundo suas ideias era apenas o homem Jesus quem morria e ressuscitava e nessa linha de raciocínio era impróprio afirmar que Maria era mãe de Deus.

Teodoro preocupou-se, em seu ensino, em manter cuidadosamente separadas as atividades e propriedades de cada natureza de Jesus. Teodoro defendia, assim como Tertuliano, a ideia de que em Jesus havia então, duas naturezas habitando uma pessoa, mas ele via essa pessoa como sendo o resultado dessa união e não exatamente como a Segunda Pessoa da Trindade.


Apolinário de Laodiceia

Pode-se dizer que enquanto a escola antioquiana desenvolvia sempre uma cristologia do tipo em que o Verbo Divino assume uma natureza humana completa, a escola alexandrina ia no sentido oposto afirmando uma cristologia em que o Logos assumia a carne humana, pois a escola alexandrina estava mais preocupada em rebater o arianismo e manter a imutabilidade do Logos e algumas vezes declarações quase docéticas são atribuídas a teólogos da escola de Alexandria, em Clemente e Orígenes.

Apolinário de Laodiceia foi o primeiro a representar firmemente esta doutrina em que o Logos assumia apenas a carne humana. Ele ensinava que Jesus Cristo possuía um corpo humano, mas uma mente divina que não estava sujeita ao pecado nem às paixões humanas. Seu ensino pode pode ter sofrido influência das disputas anteriores entre Málquio de Antioquia e Paulo de Samósata, enquanto ao mesmo tempo Apolinário estava preocupado em refutar também os arianos. Porém, seu ensino que ficou conhecido como apolinarianismo, foi refutado e condenado durante o reinado do Papa Dâmaso I.

Algumas questões soteriológicas levaram os três grandes capadócios Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Níssa a combater o ensino apolinarianista, pois para eles somente o que foi assumido é que pode ser redimido. Se o Verbo Divino não assumiu, de fato, a natureza humana completamente, mas apenas a carne humana, então não era possível para Jesus salvar o homem. Além disso, a doutrina da theosis, essencial no pensamento dos padres gregos para a soteriologia estaria sob grave risco, pois segundo eles "Deus se tornou homem para que o homem pudesse se tornar deus" (no sentido de poder tomar parte no caráter e na vida divina, mas não de atingir a divindade).


Os Padres Capadócios

Embora tendo sido educados em boas escolas de filosofia e sendo bem conhecidos por suas contribuições para a teologia, os padres capadócios - Basílio de Cesareia, Gregório de Níssa e Gregório de Nazianzo - não desenvolveram uma cristologia muito madura. Os capadócios partem de duas ideias centrais em seu pensamento: a incognoscibilidade de Deus e a deificação do homem por meio da participação na vida divina. Ao assumir a natureza humana, Deus poderia finalmente demonstrar toda a sua bondade, poder, sabedoria e justiça, resgatando a vida do homem e fazendo-o entrar em uma novidade de vida.

Gregório de Nazianzo expõe a sua cristologia centrando-se em uma mistura da natureza divina com a natureza humana, onde a natureza humana seria, por fim, absorvida pela natureza divina. Em geral, os escritores antigos usaram vários meios retóricos e filosóficos para a compreensão das doutrinas bíblicas em seus ensinamentos.

Gregório aplica a sua cristologia de forma a direcionar também os cristãos a uma vida mais unida a Cristo, enfatizando que na união da natureza divina com a natureza humana de Cristo, esta última foi elevada (ou deificada) a ponto de ser absorvida pela divina e, portanto, os cristãos seriam unidos à vida divina por meio de Cristo e sua natureza humana seria deificada e assim os impulsos carnais do pecado seriam subjugados.

Gregório sempre baseou-se na ideia de que o mais forte sujeita o mais fraco, seja a alma, com a ajuda de Deus e escolhas morais boas, que vão espiritualizar e iluminar o corpo, ou o corpo, através de escolhas morais erradas, que irá mundanizar e afastar a alma de Deus. A ideia de Gregório não é ensinar que em Cristo há apenas uma natureza, mas que há duas naturezas em uma pessoa, embora a natureza humana tenha sido ofuscada pela divina. Gregório de Nissa segue a mesma linha de raciocínio e utiliza a analogia da gota de vinagre dentro do oceano. O vinagre continuou existindo e sendo vinagre, embora tenha se misturado completamente com as águas do oceano.


Cirilo de Alexandria

Quando Nestório começou a negar o uso do termo teótoco a Maria, Cirilo viu um ataque direto à unidade de Jesus e o risco que a Igreja sofria de considerar que Jesus não possuía a natureza divina. Nestório dizia que este título significava dizer que Deus teria nascido ou que em algum momento possuía idade e portanto não poderia ser aceito. Cirilo rebate afirmando que não é a natureza divina que nasce da virgem Maria (já que a natureza divina é incriada e eterna), mas é a Palavra Encarnada; a natureza humana em Cristo não pertence a nenhuma pessoa humana a não ser a Palavra Encarnada.


Conclusão

O Concílio de Calcedónia, em 451, concordou com Teodoro a respeito da encarnação, entretanto o Concílio insistiu que a definição não seria da natureza e que deveria ser na pessoa, o que concordava com o conceito trinitário de Deus.

Assim, o Concílio declarou que em Cristo há duas naturezas, cada uma mantendo as suas próprias propriedades, e juntas unidas numa substância e, em uma única pessoa.

Aqueles que rejeitam o Credo da Calcedônia são também conhecidos como monofisistas porque só aceitam uma definição que caracteriza Jesus Cristo encarnado como tendo uma única natureza. Os demais são diofisistas (duas naturezas) porque aceitam a união hipostática de Cristo.

Como a compreensão humana não consegue explicar de que forma é realizada essa união das substâncias, a união hipostática de Cristo é também conhecida como "união mística".

A união hipostática foi o motivo da separação da igreja síria e alexandrina (copta) também conhecidas como Igrejas ortodoxas orientais.


Para mais informações, veja o link original da matéria.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_hipost%C3%A1tica



8 de julho de 2025

Jesus e a Sabedoria

Deus e Jesus representando a sabedoria nas nuvens do céu

Provérbios 8:22-31 é famoso por descrever a sabedoria de Deus como uma pessoa ou entidade - uma figura em nível de divindade que auxilia Deus de alguma forma na criação do mundo. A passagem é um ponto de partida crucial para o uso da imagem e da terminologia da Sabedoria no Novo Testamento para Jesus.


²² O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras.

²³ Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra.

²⁴ Quando ainda não havia abismos, fui gerada, quando ainda não havia fontes carregadas de águas.

²⁵ Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada.

²⁶ Ainda ele não tinha feito a terra, nem os campos, nem o princípio do pó do mundo.

²⁷ Quando ele preparava os céus, aí estava eu, quando traçava o horizonte sobre a face do abismo;

²⁸ Quando firmava as nuvens acima, quando fortificava as fontes do abismo,

²⁹ Quando fixava ao mar o seu termo, para que as águas não traspassassem o seu mando, quando compunha os fundamentos da terra.

³⁰ Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo;

³¹ Regozijando-me no seu mundo habitável e enchendo-me de prazer com os filhos dos homens. (Provérbios 8:22-31).


Embora não haja um consenso completo sobre o assunto, muitos estudiosos reconhecem que Provérbios 8 descreve uma figura cocriadora ou um agente divino na obra criativa de Deus. Os autores do Novo Testamento fazem essa equação, e o fato de o fazerem destaca um dos principais pontos de conflito no grande debate sobre a divindade de Cristo no Concílio de Nicéia.


Jesus Como A Sabedoria

Há vários exemplos no Novo Testamento em que Jesus é identificado de alguma forma com a Sabedoria. 1 Coríntios 1:24 é considerado por alguns uma declaração explícita nesse sentido, visto que Paulo se refere a Jesus como "Sabedoria de Deus".


²⁴ Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. (1 Coríntios 1:24).


No entanto, não está completamente claro que Paulo pretendia identificar Jesus com a Sabedoria de Provérbios 8 nessa declaração, à luz de sua formulação no versículo 30: 


³⁰ Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; (1 Coríntios 1:30).


A formulação aqui parece simplesmente listar a sabedoria entre uma série de outros atributos e conceitos teológicos. Como também é possível que Paulo tenha derivado sua noção de Jesus como cocriador (1 Cor 8:6; Cl 1:16) de outras linhas de pensamento, os estudiosos hesitam em afirmar uma “Cristologia da Sabedoria” com muita firmeza em relação a Paulo.


⁶ Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e em quem estamos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. (1 Coríntios 8:6).

¹⁶ Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. (Colossenses 1:16).


Muito mais impressionante é Lucas 11:46-51. Este texto se refere à Sabedoria de Deus em termos personificados, como em Provérbios 8. Observem a parte em negrito:


⁴⁶ E ele lhe disse: Ai de vós também, doutores da lei, que carregais os homens com cargas difíceis de transportar, e vós mesmos nem ainda com um dos vossos dedos tocais essas cargas.

⁴⁷ Ai de vós que edificais os sepulcros dos profetas, e vossos pais os mataram.

⁴⁸ Bem testificais, pois, que consentis nas obras de vossos pais; porque eles os mataram, e vós edificais os seus sepulcros.

⁴⁹ Por isso diz também a sabedoria de Deus: Profetas e apóstolos lhes mandarei; e eles matarão uns, e perseguirão outros;

⁵⁰ Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado;

⁵¹ Desde o sangue de Abel, até ao sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o templo; assim, vos digo, será requerido desta geração. (Lucas 11:46-51).


A passagem é direta. No contexto, Jesus é o orador e o que protesta contra a hipocrisia de seus inimigos. Mas no versículo 49, Jesus repentinamente intervém com outro orador, a Sabedoria de Deus, que prossegue dizendo na primeira pessoa: “Profetas e apóstolos lhes mandarei, e eles matarão uns, e perseguirão outros”.

Os estudiosos sabem que esta não é uma citação direta de qualquer passagem do Antigo Testamento sobre a Sabedoria. Em vez disso, é aparentemente uma alusão a uma passagem de outro livro judaico considerado sagrado por certos judeus e cristãos primitivos, chamado - Sabedoria de Salomão. Este livro tem muito a dizer sobre a Sabedoria divina. Em Sabedoria 7:27, a Sabedoria:


27Embora seja única, ela tudo pode. Permanece sempre a mesma, mas renova tudo, e entrando nas almas santas, através das gerações, forma os amigos de Deus e os profetas. (Sabedoria de Salomão 7:27).


Independentemente da fonte, Jesus cria a impressão de que foi a Sabedoria quem enviou os profetas e apóstolos, algo que sabemos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento que Deus Pai fez (por exemplo, Is 6:8; 10:6; Jr 1:7; I Co 1:28). A declaração de Jesus, portanto, identifica a Sabedoria e Deus Pai.

Então, Jesus estaria confuso? O escritor do evangelho foi descuidado? Não. A formulação é deliberada, mas o impacto surpreendente da declaração surge quando se compara Lucas 11:49 com a passagem paralela do incidente em Mateus 23:29-36. Observem a parte em negrito mais uma vez, lembrando que o orador, como em Lucas 11, é o próprio Jesus:


²⁹ Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos,

³⁰ E dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas.

³¹ Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas.

³² Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.

³³ Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?

³⁴ Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade;

³⁵ Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.

³⁶ Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração. (Mateus 23:29-36).


O ponto é surpreendente. Enquanto o evangelho de Lucas mostra Jesus fazendo da Sabedoria uma segunda oradora, Mateus coloca as próprias palavras da Sabedoria, que foi identificada com Deus Pai em Lucas, na própria boca de Jesus! Lucas e Mateus, por meio de um esforço conjunto escrito, identificaram Jesus como o cocriador de Deus, a Sabedoria, que por sua vez também foi identificada como YHWH, o Deus de Israel.

O escritor de Hebreus também identifica Jesus com a Sabedoria. Em Hebreus 1:1-3, lemos:


¹ Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

² A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.

³ O qual, sendo o resplendor (APAUGASMA, em grego) da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; (Hebreus 1:1-3).


A palavra grega "apaugasma" ocorre apenas aqui no Novo Testamento. Ela também ocorre em apenas um lugar na Septuaginta, a antiga tradução grega do Antigo Testamento, a Bíblia da Igreja primitiva. Portanto, é extremamente rara. A passagem na Septuaginta onde a palavra "apaugasma" ocorre é do mesmo livro extracanônico mencionado acima: A Sabedoria de Salomão:


Sabedoria de Salomão 7:24-26


24A sabedoria é mais ágil que qualquer movimento, atravessando e penetrando tudo por causa da sua pureza. 25A sabedoria é exalação do poder de Deus, emanação puríssima da glória do Onipotente e, por isso, nada de contaminado nela se infiltra. 26Ela é reflexo (APAUGASMA) da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem da sua bondade.


Na verdade, havia uma teologia da Sabedoria divina muito desenvolvida na teologia judaica da época de Jesus e dos primeiros séculos antes da era do Novo Testamento. O escritor judeu de Sabedoria de Salomão estava elaborando a ideia de Sabedoria personificada do livro de Provérbios. Na teologia judaica, a Sabedoria era um ser divino entronizado no Conselho Divino de YHWH. 

Seguem dois exemplos de como escritores judeus que viveram um ou dois séculos antes de Jesus expressaram seu pensamento sobre a Sabedoria:


Sabedoria de Salomão 9:1-4 e 9-11


1“Deus dos pais e Senhor de misericórdia, tudo criaste com a tua palavra! 2Com a tua sabedoria formaste o homem para dominar as criaturas que fizeste, 3para governar o mundo com santidade e justiça, e exercer o julgamento com retidão de alma. 4Concede-me a sabedoria, que está entronizada ao teu lado, e não me excluas do número de teus filhos.

9Contigo está a sabedoria, que conhece as tuas obras e que estava presente quando criaste o mundo. Ela sabe o que é agradável aos teus olhos e o que é conforme aos teus mandamentos. 10Manda a sabedoria desde o céu santo e a envia desde o teu trono glorioso, para que ela me acompanhe e participe dos meus trabalhos, e me ensine o que é agradável a ti. 11Porque ela tudo sabe e tudo compreende. Ela me guiará prudentemente em minhas ações e me protegerá com a glória dela.


Eclesiástico 24:1-5


1A Sabedoria louva a si mesma e se gloria no meio do seu povo. 2Ela abre a boca na assembleia do Altíssimo e se glorifica diante do poder dele: 3“Eu saí da boca do Altíssimo e recobri a terra como névoa. 4Armei a minha tenda nas alturas, e o meu trono ficava sobre uma coluna de nuvens. 5Percorri sozinha a abóbada do céu e passei pelas profundezas dos abismos.


A linguagem é surpreendente. O escritor judeu, comprometido com a teologia de que YHWH era o único Deus verdadeiro, coloca a Sabedoria ao lado do trono de Deus ou como proveniente do próprio trono de Deus.

Para alguns judeus, esse tipo de linguagem da Sabedoria estava em perfeita harmonia com outras linguagens da Divindade do Antigo Testamento. Outros interpretaram a linguagem de outra forma - uma que tem ramificações dramáticas para enquadrar a luta de Paulo com a lealdade judaica à Lei.

Os escritores judeus sabiam que Sabedoria era gramaticalmente feminina em hebraico ("ela"; "dela"). Essa era a razão para o uso de pronomes femininos nas descrições de Sabedoria. Alguns teólogos judeus enfatizavam o fato de que a palavra para "lei" (torá) também era gramaticalmente feminina. Isso levou alguns a identificar a própria Lei como Sabedoria. Isso significava que, para muitos judeus, a Torá (Sabedoria) era divina.

Consequentemente, enquanto os escritores do Novo Testamento filtravam seu pensamento sobre a Sabedoria por meio de Provérbios 8 e sua divindade cocriadora ao lado de Deus, outros judeus viam a Sabedoria como a Palavra de Deus, a Torá, como seu agente de criação. O Novo Testamento (e também o Antigo Testamento) na verdade fundem essas ideias ao identificar Deus em forma humana como a Palavra (Verbo) (João 1:1-3, 14).


¹ No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

² Ele estava no princípio com Deus.

³ Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. (João 1:1-3).

¹⁴ E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1:14).


Mas muitos judeus se recusaram a ver Jesus como o ponto focal de todas essas referências, abandonando sua feroz lealdade à Lei. Isso coloca a luta de Paulo para articular o evangelho "à parte da lei (Torá)" sob uma luz inteiramente nova (Rm 3:21).


²¹ Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; (Romanos 3:21).


Definir a Sabedoria como Jesus foi uma estratégia crucial para os apóstolos articularem a verdade de que Jesus era a Sabedoria (e o Verbo), o meio de salvação, não a Lei Mosaica (Mt 5:17-20).


¹⁷ Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim destruir, mas cumprir.

¹⁸ Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.

¹⁹ Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.

²⁰ Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. (Mateus 5:17-20).


Tudo isso é crucial para a compreensão do debate sobre a divindade de Cristo em Nicéia em 325 d.C.


Jesus, Sabedoria e Nicéia

Provérbios 8 e a identificação de Jesus com a Sabedoria eram uma questão controversa para a igreja primitiva. A visão dominante do cristianismo primitivo, apresentada ao concílio, era a de que o Filho (Jesus) era Deus em carne. Ele era o Verbo e a Sabedoria encarnados no homem conhecido como Jesus de Nazaré. Consequentemente, nunca houve um tempo em que o Filho não tivesse existido. Seus oponentes (cristãos conhecidos como arianos) acreditavam que de fato houve um tempo em que o Filho não havia existido -  ele havia sido criado. Um de seus argumentos veio de Provérbios 8:22:


²² O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. (Provérbios 8:22).


O verbo hebraico traduzido como “possuiu” é "qanah" e é a raiz da controvérsia. O verbo tem uma ampla gama de significados no uso bíblico, incluindo “criar”. Os arianos argumentaram que Provérbios 8:22 deveria ser traduzido para refletir a ideia de que a Sabedoria havia sido criada - na verdade, a Sabedoria foi a primeira e mais elevada criação de Deus. Como a Sabedoria e o Filho foram identificados um com o outro no Novo Testamento, o Filho tinha que ter sido criado. Eterno ou não, o Filho (Jesus) ainda era o agente para o restante da criação de Deus (Cl 1:16; 1 Cor 8:16) e o salvador do mundo. A questão, então, era a plena divindade de Jesus em termos de eternidade.


¹⁶ Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. (Colossenses 1:16).

⁶ Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e em quem estamos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. (1 Coríntios 8:6).


Aqueles que sustentavam que o Novo Testamento apresentava Jesus como verdadeiramente Deus encarnado, exigindo que ele fosse eterno, argumentavam que o verbo em Provérbios 8:22 seria melhor traduzido como "dar à luz", como seu sentido em Gênesis 4:1, onde Eva deu à luz seu filho Caim. A nuance semântica merece atenção especial. A ideia transmitida em Gênesis 4:1 não é de concepção (isto é, trazer à existência).  Eva não "cria" Caim. Caim emerge de seu ventre após ser concebido anteriormente.


¹ E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Alcancei do Senhor um homem. (Gênesis 4:1).


Ou seja, os antigos israelitas não viam o nascimento como criação, pois sabiam que algo já estava vivendo dentro do útero, apesar de não terem conhecimento científico de como isso funcionava. As mulheres do Antigo Testamento sabiam que estavam "grávidas" quando o feto se tornava ativo (elas, é claro, suspeitariam de gravidez na cessação do ciclo menstrual e outros sintomas físicos, como as mulheres de hoje discerniriam).

Dessa perspectiva, "qanah" é entendido como se referindo ao momento do surgimento, não ao início da vida. A Sabedoria foi, portanto, gerada da Divindade para auxiliar Deus Pai na criação. Essa compreensão do verbo em Provérbios 8:22 manteve a afirmação de que Jesus (que é a Sabedoria e o Filho) é eterno.

A eternidade da Sabedoria também pode ser argumentada com base em fundamentos lógicos. Visto que a Sabedoria também é considerada um atributo de Deus (parte do que torna Deus quem Ele é), a Sabedoria deve ser eterna; caso contrário, teríamos o problema de dizer que houve um tempo em que Deus não tinha sabedoria.

Como então Deus poderia ser Deus? Seria impensável para o escritor bíblico que o Deus de Israel carecesse de sabedoria em algum momento. A Sabedoria é eterna, visto que Deus (com Seus atributos) é eterno. Portanto, o mesmo deve ser dito do Filho, que veio à Terra encarnado como o homem Jesus de Nazaré.



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