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27 de maio de 2025

Daniel 9:24-27 - As 70 Semanas de Daniel - Parte 3

Ao ler tudo isso que foi exposto, entenda que não estou tomando uma posição ou descrevendo como a profecia deveria ser interpretada. O objetivo é mostrar os detalhes de como Daniel 9:24-27 pode ser analisado; ou seja, o problema da "evidência" padrão de interpretação corrente.


Dando uma outra olhada em Daniel 9:25-27


²⁵ Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos.

²⁶ E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações.

²⁷ E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador. (Daniel 9:25-27).


Nosso foco desta vez é o “príncipe ungido” (ou seriam príncipes?).

No versículo 25: “um messias (ungido, dependendo da tradução), o (um, dependendo da tradução) príncipe” virá (após as primeiras sete semanas, seguido por mais 62, ou após as 69 semanas)

Vamos supor (com a visão pré-tribulacionista padrão) que “o messias / ungido, o príncipe” venha depois das 69 semanas.

No versículo 26 depois das 62 semanas (69 no total, segundo a contagem acima), “o messias / ungido” será “cortado”.

Pergunta: o "messias / ungido e o príncipe" no versículo 26 é o mesmo que o do versículo 25? Isso é certamente possível (e provavelmente a interpretação mais fácil) se presumirmos que as 7 + 62 semanas não devam ser divididas pela acentuação massorética.

No versículo 26: agora lemos sobre “o povo do príncipe que há de vir".

Pergunta: esse messias / ungido do versículo 26 é o mesmo príncipe do mesmo versículo 26?

Se sim, então…

1 - O príncipe que é “cortado” no versículo 26 ainda está vivo no mesmo versículo 26 para “vir e destruir a cidade e o santuário”. Isso significa que “cortado” não pode se referir à morte (descartando a crucificação).

2 - Se alguém quiser identificar o príncipe (messias / ungido) do versículo 26 como Jesus (interpretando o "cortado" com a crucificação), com o mesmo príncipe do mesmo versículo 26 (o povo do príncipe que virá), terá que postular uma ressurreição entre os dois. Isso pode parecer bom, mas veja o que resulta - o povo do príncipe do versículo 26 (ou seja, os seguidores de Jesus ressuscitado) destrói a cidade (Jerusalém) e o templo (santuário). Isso não só não aconteceu na história, como seria completamente fora do comum para os seguidores de Jesus.

Conclusão: se você quer que Jesus seja o príncipe (messias / ungido) do versículo 26, não pode também tê-lo como o mesmo príncipe do mesmo versículo. Deve haver dois príncipes diferentes. É assim que a maioria dos pré-tribulacionistas interpreta a passagem, presumindo que o segundo príncipe seja o anticristo, já que "seu povo" destrói Jerusalém e o templo.

Então, há algum problema nisso? Para dizer o mínimo, é uma leitura estranha, porque não nos é dito que há dois príncipes - isso tem que ser lido na passagem. Em vez disso, há um príncipe mencionado no versículo 26 e então encontramos "o povo do príncipe que há de vir" (e já que o príncipe sobre o qual somos realmente informados está sendo predito como vindouro, seria mais natural supor que o mesmo príncipe esteja em vista).

Em outras palavras, pode-se assumir que esse "povo" e seu "príncipe" são personagens distintos (e cronologicamente separados, para começar), mas seria muito fácil (e natural), já que acabamos de ler sobre um príncipe vindouro, presumir que "o povo deste príncipe que virá" se refere ao mesmo príncipe (messias / ungido) do versículo 26. Mas, novamente, se forem a mesma pessoa, não podemos estar falando de Jesus.

Mas vamos supor que haja uma separação. O príncipe (messias / ungido) do versículo 26 é Jesus, que é "cortado". Depois, há um segundo príncipe (com "seu povo") que destrói Jerusalém e o templo, e então, no versículo 27, o segundo príncipe – o maligno, o anticristo – faz uma aliança com muitos por uma semana (sete anos)... e então temos a abominação. Leitura pré-tribulacionista padrão.

Como isso poderia ser um problema para a visão pré-tribulacionista padrão? Poderia funcionar, mas precisa funcionar sem o versículo 24 - e o versículo 24 é a principal razão pela qual alguém pensa em Jesus como um candidato a príncipe do versículo 26. Por que isso?


Veja o versículo 24 (observem o negrito):


²⁴ Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo. (Daniel 9:24).


Aqui está o ponto: todas essas condições só ocorrem após todas as 70 semanas. Os pré-tribulacionistas presumem que algumas delas se cumprem no ponto final do versículo 26, quando o príncipe ungido [Jesus nessa visão] é "cortado" - mas o texto não diz isso. A leitura natural (literal? aparente? simples?) do versículo 24 é que, quando as 70 semanas terminarem, todas essas coisas serão verdadeiras. Não temos justificativa para atribuir algumas delas a um tempo anterior ao cumprimento das 70 semanas...


E pense na lista abaixo: alguma delas realizou-se com a crucificação?


A - Toda transgressão e pecado acabaram na cruz? Não. Todos nós ainda pecamos.

B - Expiar a iniquidade - pode-se argumentar que isso foi realizado, mas como é a única conexão possível com a cruz (as outras não ocorreram com a cruz, como veremos a seguir), cabe questionar se a frase se referia à crucificação. (Por que uma funcionaria bem e as outras não?) Talvez se referisse ao sistema sacrificial ou ao Yom Kippur. Se Jerusalém e o templo fossem destruídos (versículos 25 e 26), seria necessário o fim dessas circunstâncias para poder expiar a iniquidade novamente. E esse certamente seria o caso após o término das 70 semanas.

C - Para trazer a justiça eterna - isso aconteceu na cruz? Esta é a linguagem do reino, mas somente um amilenista poderia dizer que a cruz e a ressurreição trouxeram o reino dessa maneira. E alguém se perguntaria: se a justiça eterna foi trazida na cruz, o que restaria para trazer em termos de justiça? Não sei o que estaríamos esperando se isso já tivesse sido consumado. Parece que, se você é pré-milenista, não consegue comparar isso com o evento da cruz.

D - Para selar a visão - isso não poderia ser feito com o evento da cruz, pois ainda havia eventos subsequentes à cruz que precisavam acontecer (como o anticristo e o que ele faz).

E - Para ungir o lugar santíssimo - não sei como a crucificação fez isso. Parece que o lugar santo havia sido profanado e precisava ser santificado. Isso seria o caso depois que as 70 semanas de horror (todas elas) tivessem passado - e isso demonstra que interpretar a linguagem da expiação da maneira descrita acima não tem a ver com a crucificação.


É por isso que se você vai adotar a visão pré-tribulacionista padrão de Daniel 9:25-26, você precisa esquecer o versículo 24, mas isso equivale a abrir mão daquilo que alimenta sua visão.

Em resumo, e direto ao ponto: se você acha que a visão pré-tribulacionista padrão é uma leitura direta, completamente clara e coerente, pense novamente. Você precisaria levar em conta todas essas questões que surgem no texto. Pode ser possível, mas não é evidente. O maior problema é a arbitrariedade de se ter dois príncipes. Novamente, isso é possível, mas parece arriscado.


▶ Esta análise continua na página seguinte. Conecte os fatos, conclua este raciocínio e avance para o desfecho final: [Acesse a Parte 4 Final Clicando no Link].



25 de maio de 2025

Daniel 9:24-27 - As 70 Semanas de Daniel - Parte 2


Dando sequência, “por que as setenta semanas de Daniel são mais complicadas do que os escritores populares de profecias dizem - ou mesmo sabem”. 

Esta questão de Daniel 9 requer atenção especial. Ela é tão contrária ao que todos os especialistas populares em fim dos tempos dizem, que pode passar despercebida. Nosso foco agora é o contexto de Daniel 9:25, ou seja, qual é o contexto em Daniel 9?


Veja como Daniel 9:1-4 começa:


¹ No ano primeiro de Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, o qual foi constituído rei sobre o reino dos caldeus,

² No primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi pelos livros que o número dos anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de cumprir-se as desolações de Jerusalém, era de setenta anos.

³ E eu dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza.

⁴ E orei ao Senhor meu Deus, e confessei, e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos; (Daniel 9:1-4).


Observe que Daniel nos conta que estava lendo o livro de Jeremias - especificamente, a palavra do profeta sobre o exílio de 70 anos. O exílio é referido como um período de "desolações" para Jerusalém.


A passagem à qual Daniel se refere é Jeremias 29:10-14:


¹⁰ Porque assim diz o Senhor: Certamente que passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei, e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar.

¹¹ Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais.

¹² Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei.

¹³ E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.

¹⁴ E serei achado de vós, diz o Senhor, e farei voltar os vossos cativos e congregar-vos-ei de todas as nações, e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor, e tornarei a trazer-vos ao lugar de onde vos transportei. (Jeremias 29:10-14).


Agora, deem uma olhada em Daniel 9:25:


²⁵ Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. (Daniel 9:25).


A relação entre Daniel 9:1-4 (com sua alusão a Jeremias 29:10-14) e Daniel 9:25 não é imediatamente aparente. Vamos analisar:

Tipicamente, Daniel 9:25 é visto como Daniel olhando para o futuro, para um tempo em que Jerusalém será reconstruída por seu povo. Essa campanha de reconstrução seria o ponto de partida da profecia das 70 semanas. Aqueles que defendem uma visão pré-tribulacionista / pré-milenista, geralmente debatem datas em meados dos anos 400 a.C. como o tempo dessa reconstrução e, portanto, o início da profecia das 70 semanas. Isso permite que as 69 semanas terminem na crucificação, deixando uma futura 70ª semana ainda indefinida na profecia. 

Mas e se Daniel não estivesse olhando para o futuro? E se ele tivesse visto o início da profecia das setenta semanas antes de seu próprio tempo? E se a profecia das setenta semanas dada a Daniel por Gabriel começasse com a profecia de Jeremias?

Jeremias teria proferido essa profecia algum tempo antes da queda de Jerusalém em 586 a.C. Isso significaria que, assim que Jeremias profetizou o que disse em Jeremias 29, as 70 semanas começaram a contar. Isso é mais de um século antes da visão popular iniciar as 70 semanas, e, portanto, destrói qualquer conexão com a crucificação. 

Isso é bem diferente do que muitos já ouviram. Na verdade, é uma questão simples de qual frase de Daniel 9:25 cada pessoa se concentra. Então, vejamos:


1 - Visão popular - onde as 70 semanas começam com a reconstrução de Neemias para que as 70 semanas terminem com a morte de Jesus:


²⁵ Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias (Mashiach), o Príncipe (Nagid), haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. (Daniel 9:25).


2 - Visão de Jeremias - Se Daniel, que sabemos que estava lendo Jeremias (Daniel 9:2), estava pensando na profecia de Jeremias sobre o fim das desolações de Jerusalém (Jeremias 29:10-14):


²⁵ Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias (Mashiach), o Príncipe (Nagid), haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. (Daniel 9:25).


Nesta visão, a frase “desde a saída da ordem para restaurar” em Daniel 9:25 é = a profecia de Jeremias em Jeremias 29:10-14.


Tendo em conta o contexto de Daniel 9:1-4, é perfeitamente possível que Daniel estivesse pensando no decreto de Jeremias - que Gabriel estivesse lhe dizendo que o relógio começou a contar assim que Deus deu aquela palavra a Jeremias.

Então, como isso funcionaria em ordem cronológica? 

1. Digamos que Jeremias recebeu a profecia de Jeremias 29 logo antes de Jerusalém ser destruída, digamos 588 a.C. Não sabemos, mas a lógica diz que teria sido perto do fim de Jerusalém, que foi 586 a.C.

2. De 588 a.C. até a ascensão de Ciro ao poder sobre a Babilônia em 539 a.C. = 49 anos, ou os primeiros sete setes de Daniel 9:25. Ciro foi o homem que libertou os judeus e encerrou o exílio.

3. Se usarmos o acento massorético (veja a parte 1), então o ungido segue imediatamente esses 49 anos. A identidade do ungido é óbvia: o próprio Ciro. Por quê? Precisamos de um "príncipe" [governante] ungido de Daniel 9:25, e Ciro é chamado por Deus de "meu ungido" em Isaías 45:1. É ele quem libertaria a nação exilada (e ele o fez). É bem explícito.


¹ Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações diante de sua face, e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão. (Isaías 45:1).


4. Após o decreto de Ciro para permitir o retorno dos judeus, seguem-se mais 62 períodos de sete anos. Isso nos leva a 104 a.C.

5. Alguns poderiam (e têm) argumentado que 104 a.C. é significativo, pois marca a morte de João Hircano, o último dos governantes hasmoneus (macabeus) etnarca e sumo sacerdote. Ao final de seu reinado, João Hircano havia construído um reino que rivalizava em tamanho com o de Israel sob o rei Salomão. Depois de Hircano, seu filho e sucessores (eles não eram davídicos) assumiram o título de "rei dos judeus", algo ao qual não tinham direito... Os romanos foram - nessa visão - o instrumento de punição de Deus por este fato.

De qualquer forma, qualquer tentativa de racionalizar a cronologia com os eventos da história tem seus pontos de argumentações especiais. A visão pré-tribulacionista / pré-milenista vem tentando elaborar sua própria cronologia desde o final do século XIX. Outras visões têm a mesma tarefa. 

O ponto aqui não é defender nenhuma cronologia específica. Em vez disso, é apontar que o início da 70ª semana em meados dos anos 400 não é um ponto de partida evidente, especialmente porque Daniel nos conta que estava lendo Jeremias 29 quando Gabriel explicou a profecia para ele.


▶ Esta análise continua na página seguinte. Conecte os fatos, conclua este raciocínio e avance para o desfecho final: [Acesse a Parte 3 Clicando no Link].



24 de maio de 2025

Daniel 9:24-27 - As 70 Semanas de Daniel - Parte 1

Imagem explicando as 70 semanas de Daniel

A visão popular do fim dos tempos das 70 semanas está "longe" de ser autoevidente. Há muitas questões nesta passagem que a maioria das pessoas nunca tenha visto antes. A visão padrão pré-tribulacionista (qualquer tribulação, na verdade) pré-milenista é apresentada às massas de maneira excessivamente simplista. 

Para começar, vejam um resumo de algumas questões no volume de Comentários Bíblicos de John Goldingay sobre Daniel. Cada um dos itens destacados abaixo também tem seu próprio conjunto de subquestões. 


Goldingay escreve:


“Setenta setes” presumivelmente denota “setenta vezes sete anos”, visto que o “setenta” original de Jeremias era explicitamente um período de anos. O período sugere que os setenta anos de punição devidos, segundo Jeremias 25:11/29:10, estão sendo exigidos sete vezes mais, de acordo com Levítico 26.

Intérpretes antigos e modernos comumente interpretam os versículos 24-27 como destinados a transmitir informações cronológicas precisas, que, como tal, podem ser testadas pelos fatos cronológicos disponíveis. Isso pode ser justificado, por exemplo, observando que o período entre a profecia de Jeremias (605 a.C.) e a ascensão de Ciro ao trono (556) foi de 49 anos, e o período entre a profecia de Jeremias e a morte do sumo sacerdote Onias III (171) foi de 434 anos, de modo que a soma desses períodos é de 483 anos, sendo os sete anos finais referentes aos eventos até a rededicação do templo em 164 (por exemplo, Behrmann). Ou pode ser justificado observando que, de acordo com alguns cálculos, o período de Neemias (445 ou 444 a.C.) até a morte de Jesus na Páscoa em 32 ou 33 d.C. foi de exatamente 483 anos, sendo a septuagésima semana adiada (Hoehner, BSac 132 [1975] 47–65; Anderson, Prince, seguindo Júlio Africano relatado em Eusébio; Driver cita outras teorias comparáveis). Ambas as interpretações das setenta semanas podem ser criticadas por sua arbitrariedade. No caso da primeira, não é óbvio por que dois números parcialmente concorrentes devem ser somados. No caso da segunda, não é óbvio por que a palavra sobre a construção de uma Jerusalém restaurada deve ser conectada com a comissão de Artaxerxes a Neemias para reconstruir os muros de Jerusalém; nem por que devemos aceitar a base do cálculo, a de um ano de 360 ​​dias; nem por que devemos separar a septuagésima semana, como a teoria exige; nem por que deveríamos datar a comissão de Neemias em 444 a.C. ou a crucificação de Jesus em 32 d.C. — o cálculo requer uma ou outra, mas as datas geralmente preferidas são 445 e 30 ou 33 d.C. (ver, por exemplo, IBD 278–79; J. Finegan, Handbook of Biblical Chronology [Princeton: Princeton UP, 1964] 285–301; de acordo com J.K. Fotheringham, 32 d.C. é “absolutamente impossível”! [“The Evidence of Astronomy and Technical Chronology for the Date of the Crucifixion,” JTS 35 (1934) 160]). Além disso, é impressionante que o próprio NT não se refira aos setenta setes nesta conexão; Lucas 1–2 aplica o v. 24 de uma maneira bem diferente. 


Este último comentário merece uma análise mais atenta. Como Lucas 1-2 se refere às setenta semanas? Entenda a importância disso. A pergunta que estamos fazendo é: "Como o próprio Novo Testamento entende as 70 semanas?" 

Há mais aqui do que aparenta. 

Primeiro, precisamos observar que a passagem das 70 semanas não é citada nos evangelhos em relação à crucificação, que é o ponto de referência presumido para a profecia na(s) visão(ões) padrão tribulacionista / milenista. Isso é muito curioso se o fim da 69ª semana pretendia terminar com a crucificação do messias. Como todos os escritores dos evangelhos puderam ter ignorado isso? 

Segundo - e é aqui que precisamos pensar sobre a intencional UNIDADE literária da Bíblia - há uma série de paralelos entre Daniel 9 e Lucas 1, e então a questão é: eles são intencionais?


1 - O anjo que fala com Zacarias para anunciar o nascimento de João Batista, o arauto escatológico, é Gabriel. Gabriel é o mesmo anjo que falou com Daniel em Daniel 9. Ele é o mesmo anjo que dá a Daniel a informação de Daniel 9:24-27. 

2 - A aparição de Gabriel a Daniel enquanto este orava (Daniel 9:20-21). Em Lucas 1:8-19, sua aparição acontece em conexão com a hora do incenso, quando orações são oferecidas. 

3 - A descrição do medo de Daniel e Zacarias, respectivamente, são paralelas (Lucas 1:12 coincide com a de Daniel 8:17; 10:7). 

4 - A palavra grega hoptasia (“visão”) em Lucas 1:22 é encontrada seis vezes em Dan 9–10 (Septuaginta; Teodócio.) 

5 - Tanto Zacarias quanto Daniel ficam mudos (Lucas 1:20, 22 e Daniel 10:15). 

6 - Lucas fornece detalhes cronológicos em seu evangelho que refletem as 490 semanas de Daniel 9, ou seja: há seis meses (180 dias; Lucas 1:26) entre os dois anúncios de nascimento a Isabel e Maria; a gravidez de Maria durou nove meses (270 dias); houve 40 dias do nascimento até a apresentação no templo - conforme Levítico 12:1-4; ou seja, 7 + 33 = 40 dias antes que a mãe pudesse ir ao santuário. Esses números produzem um total de 490 dias, o número do total de semanas em Daniel 9.


¹ Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo:

² Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se uma mulher conceber e der à luz um menino, será imunda sete dias, assim como nos dias da separação da sua enfermidade, será imunda.

³ E no dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio.

⁴ Depois ficará ela trinta e três dias no sangue da sua purificação; nenhuma coisa santa tocará e não entrará no santuário até que se cumpram os dias da sua purificação. (Levítico 12:1-4).


Será tudo coincidência? Talvez. Se não for, então o que temos aqui é que, na mente de Lucas (que, é claro, viajou com Paulo, o fariseu, e utilizou fontes judaicas), a apresentação do menino Jesus no santuário do templo, aos 40 dias de idade, marcou o fim ou o cumprimento dos setenta setes - tanto em anos quanto em dias desde que Deus se moveu para dar início ao cumprimento da profecia do Antigo Testamento (o anúncio do arauto, João, que "prepararia o caminho do Senhor" em cumprimento de Isaías 40).

Agora, com certeza, isso pode ser uma coincidência, ou pode haver mais em Daniel 9, ou outras maneiras pelas quais Daniel 9 poderia funcionar (incluindo, mas também além da visão padrão da tribulacionista / milenista). Mas esse é o ponto: COMO PODEMOS SABER COM CERTEZA qual esquema está certo? Não podemos, e presumir que uma visão é de alguma forma "bíblica" e as outras não, é arrogante, pois depende da nossa própria onisciência. 

Como vimos (para surpresa de alguns, tenho certeza) que, embora muitas pessoas tenham certeza de que a profecia das 70 semanas se referia a uma linha do tempo que teria a 69ª semana terminando com a crucificação, nenhum escritor do Novo Testamento jamais cita Daniel 9:24-27 como o cumprimento da crucificação (ou ressurreição). Se essa profecia foi tão incrivelmente precisa, nesse ponto e por esse motivo, então é surpreendente que nenhum escritor do Novo Testamento jamais tenha juntado as peças. 

O texto de Daniel 9:24-27 mostra que o Mashiach (“ungido”) vem depois das primeiras sete semanas, seguido por mais 62 (=69) antes da 70ª semana, ou o “ungido” vem em conjunto com / perto do final da 69ª? 

Para muitos, isso sem dúvida soa como uma pergunta boba, visto que muitos considerarão a segunda opção autoevidente na passagem. Isso porque presumem que o "ungido" na passagem é o messias, Jesus. De jeito nenhum ele poderia ter vindo apenas 49 anos depois de Daniel ter o início da profecia (o que a maioria considera ser por volta da época de Neemias.

Não é evidente que o "ungido" aqui seja Jesus, o messias. Também não é autoevidente que as 70 semanas devem começar na época ou na reconstrução de Neemias - ou em qualquer reconstrução. Isso pode parecer incrível, mas abordaremos isso na próxima parte. Por enquanto, vamos nos ater a uma questão - a pergunta feita acima: O texto de Daniel 9:24-27 tem o Mashiach ("ungido") vindo depois das primeiras sete semanas, seguido por mais 62 (=69) antes da 70ª semana, ou o "ungido" vem em conjunto com / perto do final da 69ª? 

Esta questão surge de como o texto de Daniel 9:24-27 foi acentuado pelos escribas massoréticos

Em Daniel 9:25, a tradição massorética coloca o que é chamado de acento disjuntivo (atnah) entre as palavras para "sete semanas" e "sessenta e dois setes". Um acento disjuntivo servia para separar itens em ambos os lados do acento. Isso significa que os massoretas viam uma quebra (uma disjunção) entre as 7 semanas e as 62 seguintes. Isso, por sua vez, significa que o "ungido" vem no final das sete semanas, antes que as outras 62 ocorram. As versões ESV, RSV e NRSV traduzem o texto de acordo com essa divisão massorética. 

Observem como essas traduções (devido à acentuação) têm o "ungido" vindo em conjunção com o final das primeiras sete semanas: 

(ESV) 25 Saiba e entenda, portanto, que desde a saída da palavra para restaurar e edificar Jerusalém até a vinda do ungido, um príncipe, haverá sete semanas. Depois, durante sessenta e duas semanas, ela será reconstruída com praças e valas, mas em tempo de angústia. 

(RSV) 25 Saiba e entenda, portanto, que desde a saída da ordem para restaurar e reconstruir Jerusalém até a vinda do ungido, um príncipe, haverá sete semanas. Depois, durante sessenta e duas semanas, ela será reconstruída com praças e valas, mas em tempo de angústia. 

(NVI) 25 Portanto, saiba e entenda: desde o tempo em que a palavra foi enviada para restaurar e reconstruir Jerusalém até o tempo do príncipe ungido, haverá sete semanas; e durante sessenta e duas semanas ela será reconstruída, com ruas e valas, mas em tempos difíceis. 

Essa interpretação do versículo é conhecida por fontes cristãs primitivas (por exemplo, Eusébio), portanto, não é coerente atribuir isso a uma manipulação anti-Jesus do texto por escribas judeus, como alguns acusam. Além disso, os acentos foram adicionados séculos após o início da Igreja, tornando a presença dessa tradução / interpretação do versículo em fontes cristãs primitivas ainda mais marcante. 

Outras traduções em inglês ignoram o acento massorético (por uma razão ou outra). Aqui estão alguns exemplos. Observe como, nessas traduções, o "ungido" vem depois das 69 semanas (7 + 62). 

(NVI): 25 “Saibam e entendam isto: Desde a saída do decreto para restaurar e reconstruir Jerusalém até que venha o Ungido, o governante, haverá sete 'setes' e sessenta e dois 'setes'. Ela será reconstruída com ruas e uma vala, mas em tempos de angústia. 

(NLT): 25 Agora, ouçam e entendam! Sete conjuntos de sete, mais sessenta e dois conjuntos de sete, passarão desde o momento em que for dada a ordem para reconstruir Jerusalém até que um governante — o Ungido — venha. Jerusalém será reconstruída com ruas e fortes defesas, apesar dos tempos difíceis. 

(KJV): 25 Saiba e entenda, portanto, que desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até o Messias, o Príncipe, haverá sete semanas e setenta e duas semanas; as ruas e os muros serão reconstruídos, mesmo em tempos angustiosos. 

Voltando à nossa pergunta, eis o ponto. As precisas 69 semanas (qualquer que seja o ponto de partida) que culminam no ministério e na crucificação de Jesus, assumidas por tantos mestres do fim dos tempos, podem não ser o significado pretendido da profecia. De fato, se a acentuação massorética do texto for precisa, então a profecia nem sequer é messiânica (ou pelo menos essa ideia é consideravelmente enfraquecida). O "ungido" não seria Jesus, o messias, mas outro "ungido" (e havia vários deles no Antigo Testamento, até pagãos, como Ciro, o rei persa – conforme Isaías 45:1). 

Então... qual seria o correto? Daniel 9:25 menciona o "ungido" vindo depois das primeiras sete semanas ou depois das 69 semanas? E como podemos ter certeza? Resposta: não podemos ter certeza. Teria sido bom que pelo menos um escritor do Novo Testamento citasse a passagem de forma que pudéssemos saber. Como visto acima, há a especulação de que Lucas poderia ter visto Daniel 9 dessa forma, mas isso não ajuda aqueles que querem que a 69ª semana termine com a crucificação (quando o "ungido" é "cortado").

Se Lucas estava mirando no que foi dito acima, para ele a 69ª semana ia até o nascimento de Jesus, não até a morte Dele. Isso parece incongruente com a linguagem "cortado" (mas pode ser que o "ungido" tivesse sido uma figura no passado - e não Jesus. Isso tudo mostra como as interpretações das Escrituras são muito mais complexas do que parecem... e muito mais complexas do que os "profetas" de plantão costumam apregoar...


▶ Esta análise continua na página seguinte. Conecte os fatos, conclua este raciocínio e avance para o desfecho final: [Acesse a Parte 2 Clicando no Link].



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