13 julho, 2025

Arrebatamento X Segunda Vinda



⁵¹ Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados;

⁵² Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. (1 Coríntios 15:51-52).


Quando falamos sobre a “última trombeta” em 1 Coríntios 15:51-52, muitas vezes há um salto para conectá-la à Sétima Trombeta em Apocalipse 11, como se Paulo tivesse isso em mente ao escrever aos Coríntios.

Mas aqui está o problema: Paulo escreveu sua carta aos Coríntios por volta de 53 d.C., enquanto João recebeu a Revelação das Sete Trombetas aproximadamente 40 anos depois, durante seu exílio na ilha de Patmos em 95 d.C.

Imagine se alguém em 2025 estivesse assistindo a uma esquete antiga do Monty Python sobre SPAM e pensasse que se referia a e-mails de spam. Todos sabemos que, em 1980, SPAM não tinha nada a ver com o lixo eletrônico que lotava nossas caixas de entrada, era apenas carne enlatada salgada. Este é o erro que as pessoas estão cometendo ao aplicar retroativamente a Sétima Trombeta à referência anterior de Paulo.

Paulo não estava falando da trombeta de João porque lhe seria impossível fazê-lo. Seria como ouvir alguém em um vídeo de 1980 mencionar "a nuvem" pensando que se referia a um método de armazenamento de dados em vez de uma coisa flutuando no céu. O mesmo se aplica a termos como vírus, fluxo ou tablet. Essas palavras têm significados diferentes hoje, e tentar aplicar uma revelação moderna a uma conversa antiga simplesmente não funcionaria.

Então, a que se referiria a "última trombeta"? O contexto nos aponta para uma direção diferente. É muito provável que esteja ligada às tradições judaicas, pois Paulo esperava que eles soubessem exatamente do que ele estava falando nas cartas. Alguns sugerem que se refere especificamente à Festa das Trombetas, conhecida como Rosh Hashaná. Durante essa festa, o shofar é tocado um total de 100 vezes. O toque final, chamado Tekiah Gedolah ou Grande Toque, é conhecido como a última trombeta. É o ápice de uma série de toques de trombeta destinados a despertar e reunir o povo de Deus, simbolizando a conclusão do plano de Deus e anunciando a vinda do Messias.


O shofar é tocado durante o serviço de Rosh Hashaná em quatro segmentos:


  • 30 toques após a leitura da Torá: eles representam um chamado ao arrependimento e à reflexão, à medida que o povo de Deus se alinha com Sua Palavra.
  • 30 toques durante o serviço Musaf: simbolizando as ofertas adicionais dadas durante os Dias Sagrados, eles representam uma medida extra de devoção, indo além do normal para buscar a face de Deus.
  • 30 toques no final do Musaf: Esses toques simbolizam o avanço espiritual e a intervenção de Deus na vida de Seu povo.
  • Os 10 Toques Finais (Tekiah Gedolah): O ponto alto de toda a série, este som final de trombeta é visto como a “última trombeta”, sinalizando a chegada definitiva do Messias.


A última trombeta na tradição judaica significa um fim e um começo. É um chamado divino para o despertar, uma proclamação final de que os propósitos de Deus estão alcançando seu cumprimento final. Quando Paulo se refere à "última trombeta" em 1 Coríntios 15:52, pode ser que ele estivesse se referindo à ideia da culminância da reunião e transformação dos crentes. A Igreja está sendo chamada para o lar, e a última trombeta é o sinal celestial para esse evento glorioso.

Ken Johnson, um respeitado estudioso das Festas de Deus, observa em seu livro "O Arrebatamento", que o Pentecostes era historicamente chamado de Festa da Primeira Trombeta, enquanto Rosh Hashaná era conhecido como Festa da Última Trombeta. Essa distinção oferece um profundo significado profético, conectando as festas bíblicas com a linha do tempo redentora de Deus e nos ajudando a entender por que Paulo se referiu à última trombeta em 1 Coríntios 15:52.

Outros sugerem que a última trombeta poderia ser uma referência a Números 10:1-3, onde duas trombetas de prata eram usadas para convocar o povo, sinalizando uma assembleia ou um aviso de guerra. Em outras passagens, incluindo Joel 2:1 e Jeremias 4:5-6, o toque da trombeta também tinha o duplo propósito de reunir o povo de Deus e soar um alarme. Nesse contexto, a última trombeta pode ser vista como Deus convocando Seu povo a se reunir, ao mesmo tempo em que sinalizava uma batalha espiritual final.

Seja qual for a última trombeta, é certo que não se trata da Sétima Trombeta do Apocalipse. A ideia de que Paulo se referia a um detalhe profético que ainda seria revelado a João décadas depois, simplesmente não se coaduna. Em vez disso, essa trombeta provavelmente está profundamente ligada à compreensão judaica de culminação e reunião divina, uma verdade que ressoa não apenas com profecias antigas, mas também com nossa esperança no retorno iminente de Cristo e no Arrebatamento de Sua Igreja.

A última trombeta é um chamado à prontidão, um chamado à vitória e, por fim, um chamado para estar na presença de nosso Senhor para sempre. Portanto, quer ouçamos esse toque final hoje ou amanhã, uma coisa é certa: será um som diferente de qualquer outro, e será um som de conclusão, um som de esperança e um som que mudará tudo.


Existem Duas Segundas Vindas?

Primeiro, ninguém afirma que haverá duas segundas vindas. Não conheço nenhum professor ou pregador que defenda isso. Ninguém está ensinando que há duas "segundas vindas". O que muitos dizem é que a Bíblia ensina uma Segunda Vinda, mas ela acontece em fases.

Quantos primeiros adventos houve? Só um? Sério? Tem certeza disso? Quando exatamente ocorreu esse primeiro advento? Foi quando Jesus foi concebido no ventre de Maria? Foi quando Ele nasceu em Belém? Ou talvez quando Ele surpreendeu os mestres no templo aos 12 anos? Ou talvez tenha sido em Seu batismo no rio Jordão, quando os céus se abriram e o Pai falou?

A questão é que nunca pensamos nesses momentos separados como múltiplos adventos. Todos eles eram partes de Sua Primeira Vinda, se desenrolando em etapas.

Considere o momento com Maria Madalena após a ressurreição de Jesus: Ele disse para ela não tocá-Lo, pois Ele ainda não havia ascendido ao Pai. Mais tarde, Ele convidou Tomé a tocá-Lo. Então, Jesus ascendeu e retornou entre esses momentos? Claro que sim. Foi a Sua segunda vinda... Ou houve duas primeiras vindas? Essas parecem perguntas tolas, porque certamente são. Sabemos que este foi um advento que aconteceu em fases. Ele se revelou primeiro a Maria e depois a um remanescente antes de ser revelado às massas.

Há uma Segunda Vinda que se desenrolará em fases. Primeiro, Ele virá para a Sua Igreja, para o Seu remanescente, e depois para as massas. Não há contradição aqui, apenas o plano em desenvolvimento do Deus que opera além das nossas simples linhas do tempo.

Devemos ter cuidado com esse argumento e essa maneira de pensar em particular, pois se assemelha, quase assustadoramente, aos equívocos que muitos judeus têm sobre o Messias. A razão pela qual muitos judeus rejeitaram Jesus como Messias é que eles dizem: "Não haverá duas vindas do Messias". Eles não conseguem compreender como as profecias do Antigo Testamento poderiam se referir a dois adventos distintos. Em suas mentes, todas essas profecias messiânicas aconteceriam de uma só vez e, honestamente, não se pode culpá-los por pensarem dessa forma. Veja Isaías 61:1-2, que diz:


¹ O Espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos;

² A apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; (Isaías 61:1-2).


Jesus citou esta passagem exata durante Seu primeiro sermão, registrado em Lucas 4:18-21:


¹⁸ O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os contritos de coração,

¹⁹ A proclamar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor.

²⁰ E, cerrando o livro, e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele.

²¹ Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos. (Lucas 4:18-21).


Você notou que Jesus fechou o livro no meio da profecia? Isaías continua dizendo: “A apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus” (Isaías 61:2). Jesus parou abruptamente, omitindo a parte sobre o “dia da vingança”, que aponta para a Sua Segunda Vinda e o julgamento que a acompanhará.

Pense em como não há nenhuma indicação nesse versículo de que haveria um intervalo de 2.000 anos entre esses dois eventos. Ele flui diretamente de "...o ano aceitável do Senhor..." para "...o dia da vingança..." como se acontecessem em sequência. Parece que existe um véu sobre profecias como essa, impedindo as pessoas de reconhecer que esses foram dois eventos completamente separados, reunidos em uma única profecia. Com o benefício da retrospectiva profética dos acontecimentos, vemos a distinção claramente... Será que a mesma coisa pode estar acontecendo agora com pessoas que zombam da ideia do Arrebatamento e da Segunda Vinda por serem fases separadas de um evento glorioso?

Quando você começa a desvendar os detalhes da Segunda Vinda, algumas diferenças gritantes se tornam evidentes:


  • No Arrebatamento, Jesus vem para os Seus santos; enquanto que, na Segunda Vinda, Ele retorna com os Seus santos (1 Tessalonicenses 4:16-17 versus Apocalipse 19:14).


¹⁶ Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro.

¹⁷ Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. (1 Tessalonicenses 4:16,17).


¹⁴ E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro. (Apocalipse 19:14).


  • O Arrebatamento é um encontro nos ares: os crentes são arrebatados para encontrar o Senhor nas nuvens. Em contraste, a Segunda Vinda envolve os pés de Jesus tocando fisicamente o Monte das Oliveiras, partindo-o em dois (Zacarias 14:4).


⁴ E naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; e o monte das Oliveiras será fendido pelo meio, para o oriente e para o ocidente, e haverá um vale muito grande; e metade do monte se apartará para o norte, e a outra metade dele para o sul. (Zacarias 14:4).


  • No Arrebatamento, o evento é descrito como repentino, “como um ladrão de noite” (1 Tessalonicenses 5:2). A Segunda Vinda, no entanto, é um evento que acontece ao longo do tempo e “todo olho verá” (Apocalipse 1:7).


² Porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; (1 Tessalonicenses 5:2).


⁷ Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém. (Apocalipse 1:7).


  • No Arrebatamento, Jesus reúne os Seus (1 Tessalonicenses 4:16-17), enquanto na Segunda Vinda, os anjos reúnem os eleitos (Mateus 24:31).


¹⁶ Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro.

¹⁷ Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. (1 Tessalonicenses 4:16,17).


³¹ E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus. (Mateus 24:31).


  • Paulo chamou o Arrebatamento de um mistério (1 Coríntios 15:51), não revelado no Antigo Testamento, enquanto a Segunda Vinda e a ressurreição do povo de Deus são previstas no Antigo Testamento.


⁵¹ Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; (1 Coríntios 15:51).


  • Durante o Arrebatamento, Jesus leva os fiéis para estarem com Ele no Céu (João 14:2-3). Na Segunda Vinda, Ele retorna para governar e reinar na Terra (Apocalipse 20:4).


² Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.

³ E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. (João 14:2,3).


⁴ E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos. (Apocalipse 20:4).


  • O Arrebatamento é uma missão de resgate para a Igreja, livrando os crentes da ira vindoura (1 Tessalonicenses 1:10). A Segunda Vinda é uma missão de julgamento, trazendo ira e vingança sobre aqueles que se opõem a Deus (Apocalipse 19:15).


¹⁰ E esperar dos céus o seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura. (1 Tessalonicenses 1:10).


¹⁵ E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso. (Apocalipse 19:15).


Essas diferenças são significativas, o que deve nos fazer ser cautelosos ao descartá-las, especialmente porque a história já mostrou que a má compreensão do momento e da sequência dos planos de Deus pode levar a erros monumentais, como não reconhecer o Messias por completo.









12 julho, 2025

Aposta de Pascal


A Aposta de Pascal é uma proposta argumentativa de filosofia apologética criada pelo filósofo, matemático e físico francês do século XVII Blaise Pascal. Ela postula que há mais a ser ganho pela suposição da existência de Deus do que pela não existência de Deus, que uma pessoa racional deveria viver a sua vida de acordo com a perspectiva de que Deus existe, mesmo que seja impossível para a razão nos afirmar tal.

Pascal formula esta aposta de um ponto de vista cristão, e foi publicado na seção 233 do seu livro póstumo Pensées (Pensamentos). Historicamente, foi um trabalho pioneiro no campo da teoria das probabilidades, marcou o primeiro uso formal da teoria da decisão, e antecipou filosofias futuras como o existencialismo, pragmatismo e voluntarismo.


A Aposta

  • Este argumento tem o formato que se segue:
  • se acreditar em Deus e estiver certo, terei um ganho infinito;
  • se acreditar em Deus e estiver errado, terei uma perda finita;
  • se não acreditar em Deus e estiver certo, terei um ganho finito;
  • se não acreditar em Deus e estiver errado, terei uma perda infinita.


Incapacidade de Acreditar

Pascal referenciou a dificuldade que temos em diferenciar a razão e o processo de "racionalidade", pondo em contraste com a ação de genuinamente acreditar em algo, propondo que: " atuar como se [alguém) acreditasse" pode "curar (alguém) de não acreditar".


Mas ao menos reconheça sua incapacidade de acreditar, já que a razão te trouxe a isto, e você não consegue acreditar. Esforce-se para convencer a si mesmo, não através de mais provas de Deus, mas pela redução de suas paixões. Você gostaria de ter fé, mas não sabe o caminho; você quer se curar da descrença, e pede um remédio para isto. Aprenda com aqueles que estiveram presos como você, e que agora apostam todas as suas posses. Existem pessoas que sabem o caminho que você vai seguir, e que se curaram de todas as doenças que você ainda será curado. Siga o caminho através do qual começamos; agindo como se acreditasse, recebendo a água benta, assistindo missas, etc. Até mesmo isto vai te fazer acreditar naturalmente, e acabar com sua resistência.

Pensées Secão III nota 233, página 40, Tradução por Rafael S. T. Vieira

Pascal propõe que se siga um caminho que ele próprio já teria passado, e que é possível se ter autêntica fé com o exercício da mesma.

Análise através da teoria da decisão

As possibilidades definidas pela aposta de Pascal podem ser pensadas como uma escolha em indecisão com os valores da matriz de decisão seguinte:



Assumindo estes valores, a opção de viver como se Deus existisse (B) supera a opção de viver como se Deus não existisse (¬B),desde que se assuma a possibilidade da existência de Deus. Noutras palavras, o valor esperado de se escolher B é maior ou igual àquele de escolher ¬B. A perspectiva do ganho infinito é suficiente para Pascal fazer seu ponto, como ele afirma:


...Mas existe aqui uma infinidade em uma vida infinitamente feliz a se ganhar, uma chance de ganho contra um número finito de chances de perda, e aquilo que você aposta é finito. Tudo é dividido; aonde quer que esteja o infinito, não existe um número infinito de chances de perda contra a chance de ganho, não há tempo para hesitar, você deve apostar tudo.
Pensées Secão III nota 233, página 39, Tradução por Rafael S. T. Vieira

De fato, de acordo com teoria da decisão, o único valor que importa na matriz acima é o +∞ (infinito não negativo). Qualquer matriz do seguinte tipo (em que f1, f2, and f3 são todos números finitos positivos ou negativos) resultam em (B) ser a única escolha racional. Jeff Jordan argumenta que a aposta também pode ser reescrita como uma tabela de decisão sem considerar os valores infinitos, e segundo Edward McClenen existem, na verdade, 4 versões diferentes para o argumento em Pensées.




Crítica


As críticas à teoria de Pascal foram constantes desde a sua primeira publicação. Vieram de todos os cantos religiosos, aos ateístas que questionavam os "benefícios" de uma divindade que estaria para além dos limites da razão, e dos religiosos ortodoxos que tomaram desgosto á linguagem deística e agnóstica da aposta. É criticada por não provar a existência de Deus, encorajar a acreditarmos falsamente, e escala o problema de qual Deus seria mais favorável venerar.

Argumento do Apelo ao Medo

Alguns documentos na internet argumentam que é uma falácia do tipo Argumentum ad metum (ou Argumento pelo/do medo), uma vez que ela afirma que ao não se acreditar no Deus cristão, a perda infinita implicaria ser severamente punido após a morte. Embora o argumento seja sem fundamento, pois Pascal prevê que a decisão pela crença em Deus seja uma escolha baseada em chances e não motivada pelo medo. O argumento de Pascal não tem como objetivo provar que Deus existe ou não, mas convencer o descrente que é uma escolha razoável apostar na sua existência. De fato, o uso do argumento do Apelo ao Medo por críticos apenas reforça a aposta de Pascal, já que este afirma em Pensées:

Os homens desprezam a religião; eles a odeiam, e temem que ela seja verdade. Para remediar isto, nós devemos começar por mostrar que a religião é contrária a razão; que é venerável, para inspirar respeito a ela; então devemos torná-la amável, para fazer com que bons homens esperem que seja verdade. Finalmente, devemos provar que é verdade.
Pensées Secão III nota 187 página 31, Tradução por Rafael S. T. Vieira

Segundo Jeff Jordan todo o argumento de Pascal se estrutura na forma de uma aposta, uma decisão tomada em um momento de indecisão. Ainda segundo ele, Pascal assumia que uma pessoa, apenas pela virtude de estar neste mundo, está em uma situação de aposta, e esta aposta envolve sua vida sobre a existência ou não de Deus em um mundo em que Deus pode existir ou não.

Argumento do Custo

Outro argumento contra o argumento de Pascal, é do Custo. A aposta tentaria nos levar a acreditar em Deus, com o pressuposto que isto é muito vantajoso você estando certo e insignificante se estiver errado. E o preço a pagar por crer não é insignificante, pois a pessoa pode precisar seguir líderes religiosos, seguir dogmas e tradições, e contribuir financeiramente para manter a religião. E mesmo que uma pessoa não tenha religião, mas mantenha fé na existência de algum deus, esta fé poderá ter consequências.
O custo, contudo, de viver-se acreditando em Deus não é considerado na aposta, pois o objeto de aposta é a sua vida. Quando Pascal fala em custo zero em sua aposta, ele se refere ao custo referente a felicidade (entre outros custos específicos que ele cita e lida) na nota 233: "E quanto a sua felicidade? Vamos pesar o ganho e perda em apostar que Deus existe. Vamos estimar essas possibilidades. Se você ganhar, você ganha tudo; se perder, você não perde nada" E ao final de seu discurso na nota 233 ainda afirma:

—Agora, que danos podem cair sobre você ao escolher seu lado?...eu argumentaria que você irá ganhar nesta vida, e que cada passo nesta estrada, você terá cada vez mais certeza do ganho, e muito mais ainda do vazio do que você aposta, que você irá ao menos reconhecer que você apostou por algo certo e infinito, pelo qual você não precisou entregar nada.
Pensées Seção III nota 233, página 40, Tradução por Rafael S. T. Vieira

O erro de Pascal neste argumento, é que não existe nenhum vestígio de que a intensidade da felicidade seja menor entre os que não acreditam na existência de Deus. Pode-se perceber que em sua aposta, supõe-se que o ganho infinito de apostar em Deus supera qualquer custo que possa existir em vida. Pascal ainda argumenta que quanto mais se dedica crer em Deus, menos se enxerga valor nos objetos do mundo, que são passageiros e portanto o custo se torna insignificante.

Argumento Dos Vários Deuses

Um dos argumentos usados contra Pascal é a objeção dos Vários Deuses, e implica que o argumento de Pascal usa da falsa dicotomia, quando reconhece a existência de apenas duas opções, acreditar ou não no deus cristão — ignorando, porém, que existem milhares de outros sistemas de crenças a serem considerados como existentes ou não. A crença no deus errado, de acordo com as religiões do tipo monoteístas do Oriente Médio (Islã, Cristianismo, Judaísmo), é punida da pior maneira possível, segundo as escrituras religiosas destas mesmas crenças. Outro fato que se considera, é a existência de "deuses não documentados" com propriedades bem diferentes do que as estipuladas pelas Escrituras, também: onipresença, onisciência, onipotência, benevolência etc. Portanto, as chances de acertar, acreditando no Deus judaico-cristão como sendo o verdadeiro, são muito menores do que o estipulado por Blaise Pascal, que é de 50%.
Em seu Pensée #226, Pascal não se aprofundou no assunto, dizendo que aqueles que argumentam sobre este ponto são céticos que se recusam a buscar a verdade e se contentam em ficar de olhos fechados. Jeff Jordan vai além, defendendo que não há como formular a objeção dos Vários Deuses de forma a realmente refutar o argumento de Pascal. Robert Peterson argumenta que esta objeção quando colocada no contexto da Aposta de Pascal se torna vazia, pois considera apenas 5 páginas de Pensées (com a aposta) e esquece o restante das quase 300 páginas do livro (o número de páginas varia de acordo com a tradução/edição), em que Pascal defende apenas o Deus cristão e dedica um capítulo exclusivo para falar da falsidade de outras religiões. Jeff Jordan ainda arguiu que ao se atribuir uma probabilidade quase nula a todos os outros Deuses, a probabilidade de existência de Deus continua sendo 50% e cita o caso do lançamento de uma moeda:

...Quando alguém lança uma moeda considerada justa, é possível que ela aterrise em seu meio, continue suspensa no ar, desapareça, ou qualquer outro evento bizarro aconteça. Ainda assim, como não há nenhuma razão para acreditar que esses eventos são plausíveis, nós negligenciamos todas essas possibilidades e consideramos apenas a chance da moeda aterrisar sobre o lado da cara ou o lado da coroa
Jordan, Jeff. “The Many-Gods Objection” in Gambling On God, Tradução por Rafael S. T. Vieira

Apesar de plausível e lógico, este argumento ignora o fato de que a aposta não trata de um fenômeno observável e mensurável, como o lançamento de uma moeda. Todos os deuses e sistemas de crenças diferentes são, por sua natureza sobrenatural, inverificáveis, tornando desonesta esta comparação, pois a possibilidade uma moeda cair sobre o lado ou desaparecer são baixíssimas, enquanto a chance de um outro deus existir é igual a chance do deus cristão existir. Outro aspecto importante que deve ser notado durante a leitura dos Pensées sobre as falsas religiões de Pascal é que ele não submete o cristianismo ao mesmo grau de escrutínio e ceticismo com qual trata as demais religiões.

Argumento da Crença Desonesta

Alguns críticos argumentam que a aposta de Pascal pode ser um argumento para a Crença Desonesta. Além disso, seria absurdo pensar que um Deus, justo e onisciente, não seria capaz de ver atrás da estratégia da parte do "crente", portanto anulando os benefícios da aposta.
Já que essas críticas não estão preocupadas com a validade da aposta em si, mas com o possível resultado — uma pessoa que foi convencida pelo argumento e que ainda não consiga acreditar sinceramente —, elas são consideradas tangenciais ao argumento. Aquilo que estes críticos estão questionando é tratado posteriormente por Pascal que oferece um conselho para o descrente que concluiu que o único método racional é apostar na existência de Deus, já que apostar não o torna um crente.
Outros críticos arguem que Pascal ignorou que o tipo de caráter epistêmico de Deus certamente valorizaria mais criaturas racionais se ele existisse. Mais especificamente, Richard Carrier apontou uma definição alternativa de Deus que prefere que suas criaturas sejam pesquisadoras honestas e reprova os métodos da Crença Desonesta:

Suponha que exista um Deus que está nos observando e escolhendo que almas dos mortos deve trazer para o céu, e este Deus quer que apenas aqueles que são moralmente bons habitem no céu. Ele provavelmente vai selecionar somente aqueles que fizeram um esforço significante e responsável para descobrir a verdade...Portanto, apenas estas pessoas podem ser suficientemente morais e sinceras para merecer um lugar no paraíso — ao não ser, que Deus deseje preencher o céu com os moralmente preguiçosos, irresponsáveis ou desonestos.
Richard Carrier, The End of Pascal's Wager: Only Nontheists Go to Heaven

Como já foi exibido acima, em nenhum ponto da aposta Pascal reforça a crença desonesta; Deus, sendo onisciente, não sucumbiria a um truque e recompensaria o enganador.[controverso] Ao invés disso, depois de estabelecer sua aposta, Pascal refere-se a uma pessoa hipotética que já pesou irracionalmente a crença em Deus através da aposta e está convencido da possibilidade, mas ainda não conseguiu acreditar. De novo, como notado acima, Pascal oferece uma maneira de escapar do sentimento que o compele a não crer em Deus depois que a validade da aposta tenha sido firmada. Este caminho é através da disciplina espiritual, estudo e comunidade.
Em termos práticos, portanto, o cenário alternativo em que Deus valoriza apenas a crença racional e dúvida honesta que é proposta por Carrier e outros críticos não é realmente diferente do argumento de Pascal. Na verdade, Pascal é bastante incisivo em sua crítica contra pessoas que são apáticas sobre considerar o problema da existência de Deus.


Para mais informações, veja o link original da matéria.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Aposta_de_Pascal










União Hipostática

 


União hipostática (do grego: ὑπόστασις hypóstasis, composto por duas palavras ὑπό, "por, sob" e ιστημι, "causar ou fazer ficar de pé, estabelecer, firmar") é um termo técnico na Teologia Cristã empregado principalmente na Cristologia com referência à encarnação para descrever a união das naturezas divina e humana de Cristo em uma pessoa.

No Concílio de Calcedónia, foi estabelecido pela Igreja Católica que nosso Senhor Jesus era Deus verdadeiro e homem verdadeiro, composto de alma racional e corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, e consubstancial a nós segundo a humanidade.

Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, afirma que "a natureza humana em Cristo, embora seja uma substância particular, como porém entra na união de um ser completo, isto é, de Cristo na sua totalidade, enquanto Deus e homem, não pode chamar-se hipóstase ou suposto; mas é esse ser completo, para o qual concorre, que se chama hipóstase ou suposto".


Desenvolvimento Teológico


Tertuliano

Cerca de um século antes do Primeiro Concílio de Niceia, Tertuliano, um bispo nascido em Cartago, já havia enfrentando o dilema do relacionamento entre a natureza humana e divina de Jesus. Ele sabia da necessidade de se enfatizar a divindade do Verbo, mas ao mesmo tempo em como conciliar isso com algo de igual importância, sua humanidade. Tertuliano defende veemente a existência de duas naturezas na pessoa de Cristo, embora não fosse vista com bons olhos inicialmente pelos teólogos ocidentais de sua época, mas que, em seguida, se tornaria base para o estabelecimento da doutrina ortodoxa. Ele também aponta para a existência de uma alma racional em Cristo na sua obra De carne Christi.


Controvérsias Sobre as Duas Naturezas de Cristo

Logo após a controvérsia ariana, a visão dos teólogos passou para a questão da natureza dupla de Cristo, onde os arianos viam uma forma de atacar a consubstancialidade do Deus Filho com o Pai. Argumentavam que se o Verbo Eterno é consubstancial com o Pai, logo é imutável, porque este é um atributo do Pai. Mas, se o Verbo de Deus, após ter sido encarnado, recebeu extensões da natureza humana, então perdeu sua imutabilidade e portanto não podia ser divino no mesmo sentido que Deus Pai o era. A partir daí vários teólogos e escolas passaram a dar respostas para a questão do relacionamento entre a natureza humana e divina de Nosso Senhor Jesus Cristo.

No Oriente, duas eram as escolas que constantemente debatiam suas ideias em relação à cristologia e a ortodoxia doutrinária, a Escola teológica de Alexandria e a Escola de Antioquia. Os teólogos de Antioquia tinham um forte elemento sírio em seus ensinamentos e sempre enfatizavam as narrativas do Evangelho de forma literal, preocupados em revelar sempre o Jesus histórico e a verdadeira humanidade de Jesus. Os antioquianos, como é o caso de Diodoro e seus alunos, diziam que a verdadeira interpretação bíblica de textos individuais deveria estar sempre relacionada com o contexto da história da salvação. Seu método interpretativo concentrava-se em situar o texto dentro do contexto das promessas de Deus e seus cumprimentos, tanto na vida de Israel quanto da Igreja. Além disso, os antioquianos sempre buscavam aplicações práticas da interpretação do texto bíblico para a vida cristã. Por outro lado, os teólogos de Alexandria - Dídimo, o Cego e Cirilo - possuíam uma forte inclinação helenística e eram um grupo mais homogêneo, diferente de seus rivais antioquinos, onde parte deles possuía bases alexandrinas, o que tornou a cidade de Antioquia palco de grandes disputas entre os dois grupos. Os alexandrinos interessavam-se particularmente nos eventos passados de Israel e buscavam um meio de gerar crescimento teológico e espiritual para seus leitores através de uma meditação profunda do mistério de Cristo. Traçaremos a partir daqui as principais controvérsias, heresias e decisões finais dos concílios a respeito do tema da União Hipostática do Filho de Deus.


Paulo de Samósata

Bem conhecido por meio da História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, onde está relatada a forma pela qual ele veio a ser condenado, foi um teólogo do partido sírio que abraçou o adocionismo de Teódoto de Bizâncio e Artemas em sua cristologia. Não foi condenado apenas por isto, mas também por levar um modo de vida mundano e divergente da fé cristã com constante luxo, altivez e ostentação, sendo acusado de extorquir a fé de irmãos que estavam em desespero espiritual, oferecendo ajuda espiritual em troca de salário. Ele acreditava que em Deus havia apenas uma pessoa, porém podemos distinguir em Deus a razão e a sabedoria. Esta razão e sabedoria não possuem subsistência por si mesmas, mas são meras faculdades ou atributos de Deus. Esta razão (logos), atuou em Moisés, nos profetas, mas principalmente e de forma especial no Filho de Davi. Jesus era, de acordo com Paulo de Samósata, apenas um homem. Ele era "daqui debaixo", mas a Palavra (logos) impessoal o inspirou lá de cima e uniu-se a ele de forma que Jesus era apenas um templo. A conclusão dele é que Jesus não era Deus corporalmente, mas apenas um homem. Sua doutrina rapidamente foi condenada por Málquio de Antioquia e outros do partido origenista.


Eustácio de Antioquia

Esta doutrina possui a base pela qual houve o cisma permanente entre as escolas de Alexandria e Antioquia. Eustácio, assim como Paulo de Samósata, acreditava que a divindade de Jesus era impessoal (esta doutrina foi rejeitada posteriormente pelos antioquianos). A fim de enfatizar a humanidade de Jesus, Eustácio distinguia claramente o divino e o humano nele, onde a união entre estes dois elementos se dava pela combinação da vontade humana com a divina, de tal modo que a primeira sempre concordaria com a última. Como conclusão de seu ensino, Jesus era verdadeiramente um homem em sua natureza, com corpo e alma humanos, consubstancial quanto à humanidade conosco, onde habitava a Sabedoria impessoal de Deus, estando presente em Jesus como se ele fosse um templo preparado para ela.


Diodoro de Tarso

Seguidor de Eustácio, manteve praticamente a mesma ideia da cristologia de seu mentor, porém com a diferença que agora Diodoro assumiu o caráter pessoal da divindade de Jesus, a qual já estava estabelecida no seu tempo por discussões anteriores. Segundo Diodoro, o Verbo habitava em Jesus como em um templo ou como habitou nos profetas do Antigo Testamento com a diferença de que em Jesus essa moradia seria permanente. Mas o problema foi adiante, pois não era apenas uma questão sobre a diferença entre habitação - ou templo - e aquele que habita nela; o problema é que isso gerava a ideia de distinção entre o Filho de Deus e o Filho de Davi, e foi por causa da doutrina dos dois filhos que todas as obras de Diodoro foram destruídas.


Teodoro de Mopsuéstia

Este teólogo é motivo de muitas controvérsias até hoje, pois alguns estudiosos consideram sua doutrina ortodoxa e outros a consideram não-ortodoxa. Da mesma forma que Diodoro, Teodoro ensinava que havia duas pessoas em Cristo, onde a divina é uma e a humana é outra. A união entre as duas naturezas ocorre por meio da comunhão entre a vontade e o pensamento. Seu pensamento seria precursor para as ideias de Nestório ao negar o título teótoco para Maria, porque segundo suas ideias era apenas o homem Jesus quem morria e ressuscitava e nessa linha de raciocínio era impróprio afirmar que Maria era mãe de Deus. Teodoro preocupou-se, em seu ensino, em manter cuidadosamente separadas as atividades e propriedades de cada natureza de Jesus. Teodoro defendia, assim como Tertuliano, a ideia de que em Jesus havia então, duas naturezas habitando uma pessoa, mas ele via essa pessoa como sendo o resultado dessa união e não exatamente como a Segunda Pessoa da Trindade.


Apolinário de Laodiceia

Pode-se dizer que enquanto a escola antioquiana desenvolvia sempre uma cristologia do tipo em que o Verbo Divino assume uma natureza humana completa, a escola alexandrina ia no sentido oposto afirmando uma cristologia em que o Logos assumia a carne humana, pois a escola alexandrina estava mais preocupada em rebater o arianismo e manter a imutabilidade do Logos e algumas vezes declarações quase docéticas são atribuídas a teólogos da escola de Alexandria, em Clemente e Orígenes. Apolinário de Laodiceia foi o primeiro a representar firmemente esta doutrina em que o Logos assumia apenas a carne humana. Ele ensinava que Jesus Cristo possuía um corpo humano, mas uma mente divina que não estava sujeita ao pecado nem às paixões humanas. Seu ensino pode pode ter sofrido influência das disputas anteriores entre Málquio de Antioquia e Paulo de Samósata, enquanto ao mesmo tempo Apolinário estava preocupado em refutar também os arianos. Porém, seu ensino que ficou conhecido como apolinarianismo, foi refutado e condenado durante o reinado do Papa Dâmaso I.

Algumas questões soteriológicas levaram os três grandes capadócios Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Níssa a combater o ensino apolinarianista, pois para eles somente o que foi assumido é que pode ser redimido. Se o Verbo Divino não assumiu, de fato, a natureza humana completamente, mas apenas a carne humana, então não era possível para Jesus salvar o homem. Além disso, a doutrina da theosis, essencial no pensamento dos padres gregos para a soteriologia estaria sob grave risco, pois segundo eles "Deus se tornou homem para que o homem pudesse se tornar deus" (no sentido de poder tomar parte no caráter e na vida divina, mas não de atingir a divindade).


Os Padres Capadócios

Embora tendo sido educados em boas escolas de filosofia e sendo bem conhecidos por suas contribuições para a teologia, os padres capadócios - Basílio de Cesareia, Gregório de Níssa e Gregório de Nazianzo - não desenvolveram uma cristologia muito madura. Os capadócios partem de duas ideias centrais em seu pensamento: a incognoscibilidade de Deus e a deificação do homem por meio da participação na vida divina. Ao assumir a natureza humana, Deus poderia finalmente demonstrar toda a sua bondade, poder, sabedoria e justiça, resgatando a vida do homem e fazendo-o entrar em uma novidade de vida.

Gregório de Nazianzo expõe a sua cristologia centrando-se em uma mistura da natureza divina com a natureza humana, onde a natureza humana seria, por fim, absorvida pela natureza divina. Em geral, os escritores antigos usaram vários meios retóricos e filosóficos para a compreensão das doutrinas bíblicas em seus ensinamentos. Gregório aplica a sua cristologia de forma a direcionar também os cristãos a uma vida mais unida a Cristo, enfatizando que na união da natureza divina com a natureza humana de Cristo, esta última foi elevada (ou deificada) a ponto de ser absorvida pela divina e, portanto, os cristãos seriam unidos à vida divina por meio de Cristo e sua natureza humana seria deificada e assim os impulsos carnais do pecado seriam subjugados. Gregório sempre baseou-se na ideia de que o mais forte sujeita o mais fraco, seja a alma, com a ajuda de Deus e escolhas morais boas, que vão espiritualizar e iluminar o corpo, ou o corpo, através de escolhas morais erradas, que irá mundanizar e afastar a alma de Deus. A ideia de Gregório não é ensinar que em Cristo há apenas uma natureza, mas que há duas naturezas em uma pessoa, embora a natureza humana tenha sido ofuscada pela divina. Gregório de Nissa segue a mesma linha de raciocínio e utiliza a analogia da gota de vinagre dentro do oceano. O vinagre continuou existindo e sendo vinagre, embora tenha se misturado completamente com as águas do oceano.


Cirilo de Alexandria

Quando Nestório começou a negar o uso do termo teótoco a Maria, Cirilo viu um ataque direto à unidade de Jesus e o risco que a Igreja sofria de considerar que Jesus não possuía a natureza divina. Nestório dizia que este título significava dizer que Deus teria nascido ou que em algum momento possuía idade e portanto não poderia ser aceito. Cirilo rebate afirmando que não é a natureza divina que nasce da virgem Maria (já que a natureza divina é incriada e eterna), mas é a Palavra Encarnada; a natureza humana em Cristo não pertence a nenhuma pessoa humana a não ser a Palavra Encarnada.


Conclusão

O Concílio de Calcedónia, em 451, concordou com Teodoro a respeito da encarnação, entretanto o Concílio insistiu que a definição não seria da natureza e que deveria ser na pessoa, o que concordava com o conceito trinitário de Deus.

Assim, o Concílio declarou que em Cristo há duas naturezas, cada uma mantendo as suas próprias propriedades, e juntas unidas numa substância e, em uma única pessoa.

Aqueles que rejeitam o Credo da Calcedônia são também conhecidos como monofisistas porque só aceitam uma definição que caracteriza Jesus Cristo encarnado como tendo uma única natureza. Os demais são diofisistas (duas naturezas) porque aceitam a união hipostática de Cristo.

Como a compreensão humana não consegue explicar de que forma é realizada essa união das substâncias, a união hipostática de Cristo é também conhecida como "união mística".

A união hipostática foi o motivo da separação da igreja síria e alexandrina (copta) também conhecidas como Igrejas ortodoxas orientais.


Para mais informações, veja o link original da matéria.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_hipost%C3%A1tica









08 julho, 2025

Jesus e a Sabedoria



Provérbios 8:22-31 é famoso por descrever a sabedoria de Deus como uma pessoa ou entidade - uma figura em nível de divindade que auxilia Deus de alguma forma na criação do mundo. A passagem é um ponto de partida crucial para o uso da imagem e da terminologia da Sabedoria no Novo Testamento para Jesus.


²² O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras.

²³ Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra.

²⁴ Quando ainda não havia abismos, fui gerada, quando ainda não havia fontes carregadas de águas.

²⁵ Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada.

²⁶ Ainda ele não tinha feito a terra, nem os campos, nem o princípio do pó do mundo.

²⁷ Quando ele preparava os céus, aí estava eu, quando traçava o horizonte sobre a face do abismo;

²⁸ Quando firmava as nuvens acima, quando fortificava as fontes do abismo,

²⁹ Quando fixava ao mar o seu termo, para que as águas não traspassassem o seu mando, quando compunha os fundamentos da terra.

³⁰ Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo;

³¹ Regozijando-me no seu mundo habitável e enchendo-me de prazer com os filhos dos homens. (Provérbios 8:22-31).


Embora não haja um consenso completo sobre o assunto, muitos estudiosos reconhecem que Provérbios 8 descreve uma figura cocriadora ou um agente divino na obra criativa de Deus. Os autores do Novo Testamento fazem essa equação, e o fato de o fazerem destaca um dos principais pontos de conflito no grande debate sobre a divindade de Cristo no Concílio de Nicéia.


Jesus Como A Sabedoria

Há vários exemplos no Novo Testamento em que Jesus é identificado de alguma forma com a Sabedoria. 1 Coríntios 1:24 é considerado por alguns uma declaração explícita nesse sentido, visto que Paulo se refere a Jesus como "Sabedoria de Deus".


²⁴ Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. (1 Coríntios 1:24).


No entanto, não está completamente claro que Paulo pretendia identificar Jesus com a Sabedoria de Provérbios 8 nessa declaração, à luz de sua formulação no versículo 30: 


³⁰ Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; (1 Coríntios 1:30).


 A formulação aqui parece simplesmente listar a sabedoria entre uma série de outros atributos e conceitos teológicos. Como também é possível que Paulo tenha derivado sua noção de Jesus como cocriador (1 Cor 8:6; Cl 1:16) de outras linhas de pensamento, os estudiosos hesitam em afirmar uma “Cristologia da Sabedoria” com muita firmeza em relação a Paulo.


⁶ Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e em quem estamos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. (1 Coríntios 8:6).

¹⁶ Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. (Colossenses 1:16).


Muito mais impressionante é Lucas 11:46-51. Este texto se refere à Sabedoria de Deus em termos personificados, como em Provérbios 8. Observem a parte em negrito:


⁴⁶ E ele lhe disse: Ai de vós também, doutores da lei, que carregais os homens com cargas difíceis de transportar, e vós mesmos nem ainda com um dos vossos dedos tocais essas cargas.

⁴⁷ Ai de vós que edificais os sepulcros dos profetas, e vossos pais os mataram.

⁴⁸ Bem testificais, pois, que consentis nas obras de vossos pais; porque eles os mataram, e vós edificais os seus sepulcros.

⁴⁹ Por isso diz também a sabedoria de Deus: Profetas e apóstolos lhes mandarei; e eles matarão uns, e perseguirão outros;

⁵⁰ Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado;

⁵¹ Desde o sangue de Abel, até ao sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o templo; assim, vos digo, será requerido desta geração. (Lucas 11:46-51).


A passagem é direta. No contexto, Jesus é o orador e o que protesta contra a hipocrisia de seus inimigos. Mas no versículo 49, Jesus repentinamente intervém com outro orador, a Sabedoria de Deus, que prossegue dizendo na primeira pessoa: “Profetas e apóstolos lhes mandarei, e eles matarão uns, e perseguirão outros”.

Os estudiosos sabem que esta não é uma citação direta de qualquer passagem do Antigo Testamento sobre a Sabedoria. Em vez disso, é aparentemente uma alusão a uma passagem de outro livro judaico considerado sagrado por certos judeus e cristãos primitivos, chamado - Sabedoria de Salomão. Este livro tem muito a dizer sobre a Sabedoria divina. Em Sabedoria 7:27, a Sabedoria:


27Embora seja única, ela tudo pode. Permanece sempre a mesma, mas renova tudo, e entrando nas almas santas, através das gerações, forma os amigos de Deus e os profetas. (Sabedoria de Salomão 7:27).


Independentemente da fonte, Jesus cria a impressão de que foi a Sabedoria quem enviou os profetas e apóstolos, algo que sabemos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento que Deus Pai fez (por exemplo, Is 6:8; 10:6; Jr 1:7; I Co 1:28). A declaração de Jesus, portanto, identifica a Sabedoria e Deus Pai.

Então, Jesus estaria confuso? O escritor do evangelho foi descuidado? Não. A formulação é deliberada, mas o impacto surpreendente da declaração surge quando se compara Lucas 11:49 com a passagem paralela do incidente em Mateus 23:29-36. Observem a parte em negrito mais uma vez, lembrando que o orador, como em Lucas 11, é o próprio Jesus:


²⁹ Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos,

³⁰ E dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas.

³¹ Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas.

³² Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.

³³ Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?

³⁴ Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade;

³⁵ Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.

³⁶ Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração. (Mateus 23:29-36).


O ponto é surpreendente. Enquanto o evangelho de Lucas mostra Jesus fazendo da Sabedoria uma segunda oradora, Mateus coloca as próprias palavras da Sabedoria, que foi identificada com Deus Pai em Lucas, na própria boca de Jesus! Lucas e Mateus, por meio de um esforço conjunto escrito, identificaram Jesus como o cocriador de Deus, a Sabedoria, que por sua vez também foi identificada como YHWH, o Deus de Israel.

O escritor de Hebreus também identifica Jesus com a Sabedoria. Em Hebreus 1:1-3, lemos:


¹ Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

² A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.

³ O qual, sendo o resplendor (APAUGASMA, em grego) da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; (Hebreus 1:1-3).


A palavra grega "apaugasma" ocorre apenas aqui no Novo Testamento. Ela também ocorre em apenas um lugar na Septuaginta, a antiga tradução grega do Antigo Testamento, a Bíblia da Igreja primitiva. Portanto, é extremamente rara. A passagem na Septuaginta onde a palavra "apaugasma" ocorre é do mesmo livro extracanônico mencionado acima: A Sabedoria de Salomão:


Sabedoria de Salomão 7:24-26


24A sabedoria é mais ágil que qualquer movimento, atravessando e penetrando tudo por causa da sua pureza. 25A sabedoria é exalação do poder de Deus, emanação puríssima da glória do Onipotente e, por isso, nada de contaminado nela se infiltra. 26Ela é reflexo (APAUGASMA) da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem da sua bondade.


Na verdade, havia uma teologia da Sabedoria divina muito desenvolvida na teologia judaica da época de Jesus e dos primeiros séculos antes da era do Novo Testamento. O escritor judeu de Sabedoria de Salomão estava elaborando a ideia de Sabedoria personificada do livro de Provérbios. Na teologia judaica, a Sabedoria era um ser divino entronizado no Conselho Divino de YHWH. 

Seguem dois exemplos de como escritores judeus que viveram um ou dois séculos antes de Jesus expressaram seu pensamento sobre a Sabedoria:


Sabedoria de Salomão 9:1-4 e 9-11


1“Deus dos pais e Senhor de misericórdia, tudo criaste com a tua palavra! 2Com a tua sabedoria formaste o homem para dominar as criaturas que fizeste, 3para governar o mundo com santidade e justiça, e exercer o julgamento com retidão de alma. 4Concede-me a sabedoria, que está entronizada ao teu lado, e não me excluas do número de teus filhos.

9Contigo está a sabedoria, que conhece as tuas obras e que estava presente quando criaste o mundo. Ela sabe o que é agradável aos teus olhos e o que é conforme aos teus mandamentos. 10Manda a sabedoria desde o céu santo e a envia desde o teu trono glorioso, para que ela me acompanhe e participe dos meus trabalhos, e me ensine o que é agradável a ti. 11Porque ela tudo sabe e tudo compreende. Ela me guiará prudentemente em minhas ações e me protegerá com a glória dela.


Eclesiástico 24:1-5


1A Sabedoria louva a si mesma e se gloria no meio do seu povo. 2Ela abre a boca na assembleia do Altíssimo e se glorifica diante do poder dele: 3“Eu saí da boca do Altíssimo e recobri a terra como névoa. 4Armei a minha tenda nas alturas, e o meu trono ficava sobre uma coluna de nuvens. 5Percorri sozinha a abóbada do céu e passei pelas profundezas dos abismos.


A linguagem é surpreendente. O escritor judeu, comprometido com a teologia de que YHWH era o único Deus verdadeiro, coloca a Sabedoria ao lado do trono de Deus ou como proveniente do próprio trono de Deus.

Para alguns judeus, esse tipo de linguagem da Sabedoria estava em perfeita harmonia com outras linguagens da Divindade do Antigo Testamento. Outros interpretaram a linguagem de outra forma - uma que tem ramificações dramáticas para enquadrar a luta de Paulo com a lealdade judaica à Lei.

Os escritores judeus sabiam que Sabedoria era gramaticalmente feminina em hebraico ("ela"; "dela"). Essa era a razão para o uso de pronomes femininos nas descrições de Sabedoria. Alguns teólogos judeus enfatizavam o fato de que a palavra para "lei" (torá) também era gramaticalmente feminina. Isso levou alguns a identificar a própria Lei como Sabedoria. Isso significava que, para muitos judeus, a Torá (Sabedoria) era divina.

Consequentemente, enquanto os escritores do Novo Testamento filtravam seu pensamento sobre a Sabedoria por meio de Provérbios 8 e sua divindade cocriadora ao lado de Deus, outros judeus viam a Sabedoria como a Palavra de Deus, a Torá, como seu agente de criação. O Novo Testamento (e também o Antigo Testamento) na verdade fundem essas ideias ao identificar Deus em forma humana como a Palavra (Verbo) (João 1:1-3, 14).


¹ No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

² Ele estava no princípio com Deus.

³ Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. (João 1:1-3).

¹⁴ E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1:14).


Mas muitos judeus se recusaram a ver Jesus como o ponto focal de todas essas referências, abandonando sua feroz lealdade à Lei. Isso coloca a luta de Paulo para articular o evangelho "à parte da lei (Torá)" sob uma luz inteiramente nova (Rm 3:21).


²¹ Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; (Romanos 3:21).


Definir a Sabedoria como Jesus foi uma estratégia crucial para os apóstolos articularem a verdade de que Jesus era a Sabedoria (e o Verbo), o meio de salvação, não a Lei Mosaica (Mt 5:17-20).


¹⁷ Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim destruir, mas cumprir.

¹⁸ Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.

¹⁹ Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.

²⁰ Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. (Mateus 5:17-20).


Tudo isso é crucial para a compreensão do debate sobre a divindade de Cristo em Nicéia em 325 d.C.


Jesus, Sabedoria e Nicéia

Provérbios 8 e a identificação de Jesus com a Sabedoria eram uma questão controversa para a igreja primitiva. A visão dominante do cristianismo primitivo, apresentada ao concílio, era a de que o Filho (Jesus) era Deus em carne. Ele era o Verbo e a Sabedoria encarnados no homem conhecido como Jesus de Nazaré. Consequentemente, nunca houve um tempo em que o Filho não tivesse existido. Seus oponentes (cristãos conhecidos como arianos) acreditavam que de fato houve um tempo em que o Filho não havia existido -  ele havia sido criado. Um de seus argumentos veio de Provérbios 8:22:


²² O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. (Provérbios 8:22).


O verbo hebraico traduzido como “possuiu” é "qanah" e é a raiz da controvérsia. O verbo tem uma ampla gama de significados no uso bíblico, incluindo “criar”. Os arianos argumentaram que Provérbios 8:22 deveria ser traduzido para refletir a ideia de que a Sabedoria havia sido criada - na verdade, a Sabedoria foi a primeira e mais elevada criação de Deus. Como a Sabedoria e o Filho foram identificados um com o outro no Novo Testamento, o Filho tinha que ter sido criado. Eterno ou não, o Filho (Jesus) ainda era o agente para o restante da criação de Deus (Cl 1:16; 1 Cor 8:16) e o salvador do mundo. A questão, então, era a plena divindade de Jesus em termos de eternidade.


¹⁶ Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. (Colossenses 1:16).

⁶ Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e em quem estamos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. (1 Coríntios 8:6).


Aqueles que sustentavam que o Novo Testamento apresentava Jesus como verdadeiramente Deus encarnado, exigindo que ele fosse eterno, argumentavam que o verbo em Provérbios 8:22 seria melhor traduzido como "dar à luz", como seu sentido em Gênesis 4:1, onde Eva deu à luz seu filho Caim. A nuance semântica merece atenção especial. A ideia transmitida em Gênesis 4:1 não é de concepção (isto é, trazer à existência).  Eva não "cria" Caim. Caim emerge de seu ventre após ser concebido anteriormente.


¹ E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Alcancei do Senhor um homem. (Gênesis 4:1).


Ou seja, os antigos israelitas não viam o nascimento como criação, pois sabiam que algo já estava vivendo dentro do útero, apesar de não terem conhecimento científico de como isso funcionava. As mulheres do Antigo Testamento sabiam que estavam "grávidas" quando o feto se tornava ativo (elas, é claro, suspeitariam de gravidez na cessação do ciclo menstrual e outros sintomas físicos, como as mulheres de hoje discerniriam).

Dessa perspectiva, "qanah" é entendido como se referindo ao momento do surgimento, não ao início da vida. A Sabedoria foi, portanto, gerada da Divindade para auxiliar Deus Pai na criação. Essa compreensão do verbo em Provérbios 8:22 manteve a afirmação de que Jesus (que é a Sabedoria e o Filho) é eterno.

A eternidade da Sabedoria também pode ser argumentada com base em fundamentos lógicos. Visto que a Sabedoria também é considerada um atributo de Deus (parte do que torna Deus quem Ele é), a Sabedoria deve ser eterna; caso contrário, teríamos o problema de dizer que houve um tempo em que Deus não tinha sabedoria.

Como então Deus poderia ser Deus? Seria impensável para o escritor bíblico que o Deus de Israel carecesse de sabedoria em algum momento. A Sabedoria é eterna, visto que Deus (com Seus atributos) é eterno. Portanto, o mesmo deve ser dito do Filho, que veio à Terra encarnado como o homem Jesus de Nazaré.





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