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| O Imago Mundi |
O Mapa de 2.700 Anos que dá Instruções Para um Navio Bastante Familiar
A maioria das pessoas está familiarizada com o relato
bíblico da arca de Noé - a embarcação que salvou Noé, sua família e pares de
todos os animais terrestres do Grande Dilúvio. Menos estão familiarizados com
os relatos
paralelos da arca-dilúvio do mundo antigo. Relatos como o épico
sumério de Gilgamesh, de mais de 4.000 anos, que conta a história de
Utnapistim e sua arca, com paralelos ao relato bíblico até as espécies de
pássaros liberados. Outro exemplo é o épico babilônico de Atrahasis,
com paralelos incluindo a entrada de animais no barco dois a dois.
Menos ainda estão familiarizados com um mapa babilônico de
2.700 anos que, na verdade, pretende dar instruções para a localização
da arca de Noé (ou melhor, a arca de Ziusudra - como ele é chamado no relato
babilônico - um nome que significa "Aquele de Longa Vida"). Este mapa
é conhecido como Imago Mundi em inglês - também conhecido como Mapa
Babilônico do Mundo.
Este antigo e rudimentar mapa de tablete de argila tem sido
manchete no mundo todo, com sua conexão com a "arca de
Noé" enquadrada como sendo o resultado de uma pesquisa totalmente nova. Na
verdade, essa pesquisa não é "nova" - a reportagem sobre esta peça
parece ter surgido simplesmente de um vídeo recente (em inglês) carregado no canal do YouTube do Museu Britânico, com o
Dr. Irving Finkel resumindo o artefato na Série 9, Episódio 5 do Curator's
Corner.
Com o interesse renovado por este item na esfera pública, esse é um momento oportuno para revisitar este artefato notável e sua
referência mais intrigante à localização da arca.
Mapa do Mundo
O Museu Britânico contém cerca de 150.000 tábuas cuneiformes - comparativamente poucas das quais estão em exposição; a grande maioria é
mantida em arquivo e aguarda pesquisa. Entre sua vasta coleção, o Imago Mundi (Mapa do Mundo) se destaca como uma das peças mais significativas e reconhecíveis. O item foi
adquirido pelo Museu Britânico em 1882, após as escavações do assiriologista
Hormuzd Rassam (em inglês) em Sippar (Iraque central). O anverso (frente) da tábua traz um
"mapa" circular e rudimentar com várias linhas de texto acima, e um
reverso com texto adicional explicando o mapa com mais detalhes. Datado no
mínimo do século IX a.C. - ou mais provavelmente em algum lugar mais
próximo do século VII a.C. - o item é famoso por ser o mapa mais
antigo do mundo conhecido.
A borda circular externa do mapa é marcada com texto
cuneiforme descrevendo-o como o “Rio Amargo” - essencialmente cercando,
figurativamente, o mundo mesopotâmico conhecido. Dentro deste círculo há um rio
retangular norte-sul, que representa o Eufrates. Este rio é interceptado perto
do topo por um retângulo representando a Babilônia, uma cidade bissecionada na
antiguidade pelo rio. Ao redor da periferia interna do mapa circular há vários
pequenos círculos, cada um representando cidades e tribos. A cidade persa de
Susa está localizada na parte inferior do mapa.
O mais interessante, para nossos propósitos, são as
extensões triangulares que se projetam do mapa. Elas representam - novamente,
muito rudimentarmente - misteriosos territórios montanhosos nos limites do
mundo conhecido. Embora a maioria desses triângulos esteja faltando,
originalmente haveria oito deles, e eles correspondem especificamente a
divisões de textos no verso da tábua, que explicam esses locais com mais
detalhes.
O problema era que, como descoberto originalmente, apenas
três triângulos foram preservados no mapa, e era quase impossível tentar
relacioná-los à lista de explicações no verso da tábua. Isto é, até meados da
década de 1990, quando uma aluna do Dr. Irving Finkel - Edith Horsley - encontrou um
fragmento em miniatura com um triângulo no arquivo do Museu Britânico. O
fragmento se encaixou perfeitamente em uma lacuna dentro do Imago Mundi, e com
as palavras-chave deste triângulo contidas nele, foi
possível identificar o bloco de texto reverso relacionado especificamente a
ele, e assim a ordem do resto do texto relacionado aos triângulos.
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| Desenho inicial do Imago Mundi. Observe o espaço para o triângulo então ausente (centro à direita) - a peça crítica que desvendou o quebra-cabeça |
De particular destaque foi uma seção de texto relacionada ao
triângulo (ou “montanha”).
"Parsiktu - Navio"
O texto reverso fragmentário relacionado a este triângulo
diz:
[Para o lugar], para o qual você deve viajar sete léguas,
…]
[Os …] … são tão grossos quanto um parsiktu - navio;
10 dedos [grossos seus …]
Para o observador casual, isso pode não parecer ter muita
importância. Mas para um assiriologista experiente, é imediatamente chamativo.
Como o Dr. Finkel explica no vídeo recente:
Diz que você vê algo... "tão espesso quanto um parsiktu - navio".
Essa medida parsiktu é algo para um assiriologista, que faz
seus cabelos ficarem em pé. E o fato é que só é conhecida uma vez em tábuas
cuneiformes. E é uma tábua cuneiforme bem interessante também, porque é a
descrição da arca, que foi construída, teoricamente, por volta de
1800 a.C. pela versão babilônica de Noé [conforme relatado na
"Tábua da Arca" babilônica]. E nesse relato, os detalhes são dados: o
deus diz, "você tem que fazer isso, isso e isso"; e então o Noé
babilônico disse, "eu fiz isso, isso e isso, eu o fiz, e eu fiz essas
estruturas tão grossas quanto um parsiktu - navio", ele
diz de sua própria boca, na história original.
Então, essa palavra parsiktu é como um tipo
de ruído alarmante; ela imediatamente se encaixa nessa coisa do mapa, de forma imediata e incontestável. Então, o que isso significa, falando
claramente... é que se você subisse todo o caminho nessa montanha...
eventualmente você veria contra o céu noturno, ou o céu escuro do universo
exterior, silhuetadas das vigas feitas de madeira, tão grossas quanto
um parsiktu - navio, do naufrágio da arca babilônica, que, como
a da Bíblia, veio a pousar em uma montanha.
Isso não é tudo. Há outro título de interesse particular gravado no mapa ao lado desta montanha. O Dr. Finkel continua:
Se você descer a montanha e cruzar a água, de volta à terra
natal, o primeiro lugar que você chegaria é chamado Urartu. Está desenhado no
mapa. Agora, o interessante sobre isso é que, na Bíblia, Noé, em sua arca,
pousou em uma montanha cujo nome é Ararate. E Ararate é o equivalente hebraico do
assírio Urartu.
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| O Reino de Urartu, localizado principalmente no leste da Turquia, durante a primeira metade do primeiro milênio a.C. |
Isso mostra que a história era a mesma e, claro, que uma
levou à outra. Mas também, que do ponto de vista babilônico, isso era uma
questão de fato: que se você fizesse essa jornada, veria os restos desse barco
histórico, que salvou toda a vida do mundo... ainda ali nos penhascos contra o
céu escuro.
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| As vigas da arca se erguem contra o céu noturno (“O Mapa Babilônico do Mundo, por Irving Finkel”) |
Relatos de Visitação
É uma descoberta arqueológica notável. No entanto, embora o
Imago Mundi seja único como artefato, ele não é único em
descrever o lugar da arca como um local específico no qual seus restos ainda
podem ser visitados.
O historiador do primeiro século Josefo relata o seguinte,
ao recontar a história de Noé em Antiguidades dos Judeus: “[O]s
armênios chamam este lugar de O Lugar da Descida ou Saída; pois a arca tem sido mantida naquele lugar, e seus restos são mostrados lá pelos habitantes até
hoje.” Flávio Josefo, então, cita o historiador babilônico do início do terceiro
século a.C. Beroso (entre outros):
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| Busto romano do primeiro século que se acredita representar Josefo |
Agora, todos os escritores de histórias bárbaras fazem
menção a esse dilúvio e a essa arca; entre os quais está Beroso, o caldeu. Pois
quando ele descreve as circunstâncias do dilúvio, ele continua assim: "Dizem
que ainda há alguma parte desse navio na Armênia, na montanha dos cordiens; e
que algumas pessoas levam pedaços do betume, que eles levam embora com o qual ela estava recoberta, e dele se servem como impermeabilizante".
Jerônimo, o egípcio, também, que escreveu as Antiguidades
Fenícias, e Mnazeas, e muitos outros, fazem menção ao mesmo. Nicolau de Damasco, em seu nonagésimo sexto livro, tem uma relação particular sobre eles;
onde ele fala assim: "Há na Armênia, na província de Miniade, uma alta montanha chamada Baris, sobre a qual, diz-se, muitos se salvaram durante o dilúvio, e que uma arca cujos restos se conservaram por vários anos, e na qual um homem se havia encerrado, deteve-se no cume dessa montanha. Há probabilidade de que esse homem é aquele de que fala Moisés, o legislador dos judeus". (História dos Hebreus).
Avançando vários séculos depois, o Talmude relata outro
relato peculiar, alegando que o próprio rei assírio Senaqueribe visitou o local
da arca, recuperando uma tábua e transformando-a em um ídolo chamado Nisroque:
Senaqueribe foi e encontrou uma viga da arca de Noé, da qual
ele moldou um deus. Ele disse: “Se aquele homem (referindo-se a si mesmo) for
e tiver sucesso [na batalha], ele sacrificará seus dois filhos diante de
vocês." Seus filhos ouviram seu compromisso e o mataram. Este é o significado do
que está escrito: “E aconteceu que, enquanto ele estava adorando na casa de
Nisroque, seu deus, Adrameleque e Serezer, seus filhos, o feriram com a espada, porém eles escaparam para a terra de Ararate...” (2 Reis 19:37), onde a arca de Noé havia parado
(Sanhedrin 96a em inglês).
É uma história interessante à luz do relato bíblico familiar
do assassinato de Senaqueribe - principalmente por causa da referência bíblica
incomum de Ararate (algumas traduções dão “Armênia”; o hebraico lê, literalmente,
“Ararate”, embora as regiões sejam amplamente vistas como sinônimos). Além
disso, “Nisroque” (נסרך) é uma divindade totalmente desconhecida no panteão
mesopotâmico. A palavra tem sido tradicionalmente relacionada à palavra
aramaica neser (נסר), que significa “tábua” ou “prancha”.
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| Molde de um relevo rochoso de Senaqueribe no sopé do Monte Judi |
Esta história incomum no Talmude pode não ser tão absurda
quanto parece: a quinta campanha de Senaqueribe o levou a estas regiões de
Urartu. Na verdade, uma das montanhas desta região - com inscrições esculpidas
nas faces rochosas pelos trabalhadores braçais de Senaqueribe - por acaso é uma
concorrente para a localização da arca de Noé (Monte Judi em inglês). O próprio palácio
de Senaqueribe continha pedras extraídas desta montanha.
Mas talvez a visita de Senaqueribe, e a deferência a tal
local, não devesse ser tão incomum. Afinal, ele pode muito bem ter seguido um
mapa não muito diferente de um que data do mesmo período em circulação entre
sua própria povoação — o Imago Mundi.